Nossa vertigem democrática é crônica

Publicado em 24/01/2020 - marco-regis-de-almeida-lima - Da Redação

Nossa vertigem democrática é crônica

Ganhar uma estatueta do “Óscar”, como melhor documentário de longa-metragem na academia “hollywoodiana”, nem mais importa para a galera brasileira que produziu e que aprecia o Democracia em Vertigem. Somente pelo reconhecimento da sua indicação, para a mais famosa premiação do cinema mundial, o Prêmio de Mérito da Academia – o “Academy Award of Merit”- já significa prestígio prá muitos metros.

Se o leitor quiser fazer a diferenciação entre um longa e um curta-metragem vai perceber que aquilo que mais levam em conta é o tempo de exibição. De modo geral, um curta tem uma duração inferior a 30 a 40 minutos, dependendo do país, enquanto um longa é rodado em mais de 70 minutos, ficando entre eles uma classificação dos de média-metragem. Porém, se as classificações falam em metragem. Então, fiquei invocado em saber desse danado de comprimento das películas. Pois não é que a encontrei bem mais intimamente do que imaginava, depois de perder algum tempo no Google. Estava aqui na minha estante, no meu velho companheiro, Enciclopédia e Dicionário Koogan Houaiss. Achei até curioso que ele não se atrelasse ao tempo dos filmes, sendo os verbetes curtos e claros: “curta-metragem. s.m. Filme cinematográfico com 300 a 600 m de comprimento”; idem para o longa-metragem, “com mais de 2.500 m de comprimento”.

Enquanto escrevo, não houve como não me lembrar do popular Nego, transitando entre o Cine São José, na nossa tradicional Av. Dr. Américo Luz, e a estação ferroviária da Cia. Mogiana de Estradas de Ferro, lá embaixo, perto do jardim público do Chapéu de Sol, com o seu carrinho de mão. Sua carga eram latas redondas, com diâmetros entre 30 e 80 cm, porém estreitas, ou seja, de pequena altura, talvez, no máximo uns 10 cm. Essas latas, eram fechadas pelo embutimento das duas partes com que cada uma se constituía, talvez com milímetros de diferença entre uma parte e a outra, permitindo o encaixe. Enquanto isso, cabia enrolado dentro de cada conjunto de latas, o rolo ou carretel do filme. A película do rolo era fabricada com material de celulose, no qual estavam gravadas as imagens, ou cenas, dos filmes.

Para quem não sabe, os cinemas eram o melhor meio de diversão de que dispunham as cidades não interessando o tamanho delas. Daqui do sudoeste mineiro, posso falar do Cine Avenida, de Monte Belo; do Cine Centenário, de Alfenas; do Cine São Carlos, de Guaxupé; e do Cine São José, de Muzambinho, muito embora, aqui, na virada entre 1950/60, houvesse tido um segundo cinema, o Cine Jóia, de propriedade de Irma Salomão, que exibia filmes mais sofisticados, como os franceses da chamada “nouvelle vague”, ou os estrelados por Brigitte Bardot, Catherine Deneuve, Alain Delon, Anouk Aimée, Jean-Paul Belmondo, Yves Montand, Jean-Louis Trintignant, Jeanne Moreau e inúmeros outros.  Nem ainda pensar na existência da televisão. Esta, aqui foi surgindo, e nos nossos arredores, em preto e branco, no início da década de 1960. Na medida em que ela foi ganhando as salas e quartos das casas, os cinemas foram morrendo de inanição até quase desaparecerem. Esse desaparecimento também foi acontecendo nas grandes cidades. Na Capital mineira, pude constatar essa mortandade nos anos 1970, quando concluía a minha faculdade, quase sempre começando pelos bairros, em direção ao centro, uma força destrutiva centrípeta.

Se o cinema perdeu o “glamour” e o romantismo que desfrutou nas salas de cinema durante os primeiros setenta anos do século passado, sua migração para a televisão e outras mídias continua sustentando viva e pujante a indústria cinematográfica. Até a Índia continua mantendo a sua Bollywood, que é a fusão de Bombaim ou Bombay, hoje Mumbai, onde se encontra instalada, com o sonho de Hollywood. O Brasil, a despeito da força e tradição das novelas da Rede Globo, exportadas para inúmeros países, tem uma produção cinematográfica invejável. Houve uma época de predomínio dos musicais e comédias tipo pornochanchadas, com Oscarito, Grande Otelo e Mazaropi.  Porém, depois da maturação veio coisa séria como o “cinema novo”, que passava a fazer uma abordagem social e intelectualizada. Vieram filmes como: Menino do Engenho, Vidas Secas, A Hora e a Vez de Augusto Matraga, Deus e o Diabo na Terra do Sol, Terra em Transe e tantos mais. Entretanto, o Brasil passa a ser conhecido lá fora como ganhador do Óscar de Melhor Filme Estrangeiro, em 1960, Orfeu do Carnaval. Apesar de que fosse a adaptação de uma peça de Vinícius de Moraes, sendo a maioria dos artistas negros de nacionalidade brasileira, o filme foi uma produção ítalo-franco-brasileira e concorreu como filme francês. Mostrou o Brasil e a sua cultura para o mundo, mas foi a França que levou o Prêmio.

Em 1962, a peça do dramaturgo Dias Gomes, O Pagador de Promessas, é transformada em filme, com o mesmo nome. Sob a Direção e o Roteiro de Anselmo Duarte, o elenco é formado por Leonardo Vilar, Glória Menezes, Dionísio de Azevedo, Geraldo Del Rey, Antonio Pitanga e Norma Bengell, nos papéis principais. Até hoje, foi o único filme brasileiro a ganhar a Palma de Ouro, em Cannes / França, além de outras premiações. Em 1963, foi indicado para o Óscar de Melhor Filme Estrangeiro, na Academia de Hollywood, perdendo.

Há muitas premiações conquistadas por determinados filmes, mas estamos enfocando as obtidas em Hollywood, a Capital Internacional do Cinema. Depois de 33 anos, em 1996, o Brasil volta a concorrer a Melhor Filme Estrangeiro com o Quatrilho, do diretor Fábio Barreto e estrelado por Glória Pires, Bruno Campos, Patrícia Pilar e Alexandre Paternostre, que perdeu para o holandês A Excêntrica Família de Antônia. Voltamos em 1998, com o filme de Bruno Barreto, O Que é Isso, Companheiro? Baseado no livro de Fernando Gabeira, voltamos a perder para outro holandês, O Caráter. No ano seguinte, a gente volta a concorrer como Melhor Filme Estrangeiro com Central do Brasil e, ainda, Fernanda Montenegro, como Melhor Atriz, tendo Walter Moreira Salles como Diretor. Ambas as indicações perderam. Em 2001, Uma História de Futebol concorre como Melhor Curta-Metragem e perde. Ignorado em 2003, o filme Cidade de Deus teve quatro indicações em 2004: Melhor Direção, Melhor Roteiro, Melhor Fotografia e Melhor Edição, mas, saiu de mãos abanando. Em 2012, a música da animação Real in Rio, da dupla Carlinhos Brown e Sérgio Mendes perdeu para um neozelandês. Em 2015, fracassamos na indicação para Melhor Documentário a respeito da vida e das fotografias do mineiro Sebastião Salgado. Em 2016, de novo morremos na praia com a Melhor Animação, O Menino e o Mundo.

Fevereiro de 2020. O Brasil dividido fará torcida a favor e contra Democracia em Vertigem, um filme produzido e dirigido pela mineira Petra Costa. Segundo a BBC News Brasil, em Londres, em matéria de Juliana Gragnani, do último 14 de janeiro, os críticos e os “sites” de apostas consideram o documentário de longa-metragem como um azarão na Festa do Óscar de 2016. No “site” Adoro Cinema, o crítico Bruno Carmelo, lhe dá Nota 3,5 numa escala até 5, com o seguinte comentário: “O filme se abre com a constatação melancólica de que o sonho de uma revolução política jamais aconteceu, e se fecha com a indagação, igualmente crepuscular, a respeito de nossa dificuldade em encontrar forças para lutar contra vozes antidemocráticas”.  Por outro lado, Roberto Alvim, nome artístico de Roberto Rego Pinheiro, antes de ser demitido do cargo de Secretário Especial da Cultura, com “status” de Ministro, ex-Diretor-Geral da Fundação Nacional de Artes, 47 anos, inegável simpatizante do Ministro da Propaganda do III Reich, Joseph Paul Goebbels, assim se expressou sobre o documentário em questão: “Se fosse na categoria ficção, estaria correta a indicação”, conforme falou para a colunista Monica Bérgamo, da Folha de S.Paulo, reproduzido na Revista Isto É, em 13 de janeiro.

O jornal digital Metrópoles, de 13 de janeiro passado, diz em sua matéria a respeito do documentário de Petra Costa: “Democracia em Vertigem adota tom pessoal, com referências à família da diretora, para analisar a política do século XXI. O documentário enfatiza os anos do PT no poder, o ‘impeachment’ da ex-Presidente Dilma Rousseff e o avanço de nomes conservadores após a queda da petista, como o atual Presidente da República, Jair Bolsonaro”.

Pelo Twitter, Petra Costa comemorou a indicação do seu filme pela Academia de Hollywood, desse forma: “Em tempos em que a extrema-direita se espalha como uma epidemia, esperamos que o nosso filme possa nos ajudar a entender como é crucial defender as nossas democracias. Vida longa ao cinema brasileiro”.

A realizadora da produção é bancada pela Netflix tanto no documentário indicado ao Óscar, como nos filmes que trataremos a seguir. Segundo crítica encontrada em papodecinema.com.br/filmes/olmo-e-a-gaivota ela também é autora de Elena (2012), no qual faz sofrida investigação atrás dos passos da irmã suicida, que morava em Nova York, morta enquanto Petra ainda era uma criança. No outro filme, Olmo e a Gaivota (2015), é um longa-metragem que ela dirige junto com a estreante dinamarquesa Lea Glob, fazendo uma nova versão de uma obra clássica do russo Anton Tchekhov.

Dispomos de meios e de mecanismos de alerta para socorrer o Brasil em vertigem. No meu modesto ativismo político posso dizer que usei de vários deles, denunciando o Golpe contra Dilma Rousseff que, magistral e artisticamente, Petra Costa oferece ao mundo. E o nosso mundo se mostrou sensível e receptivo porque percebe que os tentáculos autoritários vão se robustecendo por todo o planeta, num retrocesso civilizatório. No Brasil, a República nasceu birrenta e má, escorraçando o culto e apegado brasileiro, Imperador D. Pedro II e a família imperial. Tivemos a Ditadura do Estado Novo de Getúlio Vargas, o engodo do Parlamentarismo e o Golpe de 1964. Na Nova República, os mesmos mecanismos ardilosos: o Golpe contra Fernando Collor de Mello, com a adesão da esquerda, e o Golpe Parlamentar-Judicial contra Dilma Rousseff. Não é o Brasil sofrendo de vertigens episódicas, mas padecendo de síndrome vertiginosa crônica.

Marco Regis é médico, foi prefeito de Muzambinho (1989/92; 2005/08) e deputado estadual-MG (1995/98; 1999/2003)