Mais respeito às instituições

Publicado em 04/10/2019 - marco-regis-de-almeida-lima - Da Redação

Mais respeito às instituições

Para nos situarmos apenas no Brasil, vive-se uma época de caótica convivência humana. A conquista tecnológica da internet abriu a vastidão do mundo para todos. Acontece que o acesso à informação para todos não pode, ao mesmo tempo, dar às pessoas o direito de se julgarem doutas o suficiente para fazerem um enfrentamento com aquelas que se prepararam e, ainda assim, têm um domínio relativo do seu campo de atuação. Hoje em dia, por exemplo, não basta ser um advogado ou um médico. Essas profissões foram se cindindo em campos específicos. Neste sentido, na minha área profissional, posso estender os exemplos. A Ginecologia abarcava como um todo a morfologia, a fisiologia, a psicologia e as doenças da mulher. Aos poucos ela foi se subespecializando na Mastologia, que é a ginecologia mamária, dada a importância das mamas tanto na lactação como local de doenças. Não só houve a cisão como o necessário concurso do radiologista e, mais recentemente, da medicina nuclear, além da Oncologia, que trata das neoplasias ou tumores, benignos ou malignos. Diante da complexa função dos hormônios femininos surgiu a Ginecologia Endócrina, que se emancipou não somente da Ginecologia como da própria especialidade da Endocrinologia, que é o ramo que trata dos hormônios. Exímios médicos praticavam a Cirurgia Geral, hoje uma especialidade em decadência, porque foram surgindo especialistas em cirurgia dos mais diversos órgãos ou sistemas, além da nova e eficiente Vídeo-Cirurgia, menos invasiva e menos traumática. Da mesma forma, a Advocacia se desmembrou em especialistas em família, criminalistas, constitucionalistas, tributaristas, previdenciários, trabalhistas e tantos mais.

Essa introdução foi feita para que espantemos os “acadêmicos do Dr. Google”, ou seja, pessoas com formação básica, média e mesmo superior, que se julgam donas da verdade nas redes sociais, ou pretensos conhecedores disso e daquilo, que procuram um advogado ou um médico de posse de informações obtidas na rede mundial de computadores, com o intuito de confrontá-los.

Nessa escalada rumamos para o caos, porquanto parcela dessas pessoas não somente se julgam entendedoras dos assuntos, mas partidarizam ou ideologizam aquilo que conhecem por simples leitura e até mesmo por ouvir dizer. Mas, torna-se pior e mais grave quando essas mesmas pessoas se utilizam desses pontos de vista sujeitos à crítica, recheando-os com palavras chulas,palavrões e chavões, estes transformados em lacônicos grupos de palavras, compartilhadas a esmo, sob a denominação de “hashtags”.  Juntando-se pretensiosos, chulos e desbocados, com os frustrados e agressivos, atingimos o caos na desobediência às instituições e nas ações de vandalismo. Seguindo este raciocínio, vamos materializar a realidade do caos nas agressões verbais e físicas contra professores e escolas, contra as unidades de saúde, contra as forças de segurança e o sistema de justiça.

Ultimamente, temos observado o ápice da insubordinação nas agressões desmedidas ao topo do judiciário que é o STF - Supremo Tribunal Federal. Verdadeiros vira-latas latindo numa tentativa de intimidação àqueles investidos como guardiães da Constituição Federal. Conforme divulgado nos últimos dias por diversos veículos digitais, dentre eles o Yahoo Notícias e a Revista Época, o radicalíssimo movimento ‘Vem Prá Rua’, tem se utilizado das redes sociais para incitar seus adeptos a ameaçarem as ministras Rosa Weber e Cármen Lúcia Antunes Rocha, divulgando postagens com fotos das mesmas, o telefone dos gabinetes delas e a frase: “Que decepção! Vamos entrar em contato com ela?”. Tão somente pelo dever de consciência e de ofício, como ministras do STF, de haverem votado na questão de que delatados devem produzir suas alegações finais depois dos delatores, numa lógica cristalina no entendimento de juristas, sanando o vazio e a imprecisão da Lei da Delação Premiada vigente desde o Governo de Dilma Rousseff. Esta atitude, chamada pelo ministro Gilmar Mendes como “conduta criminosa”, em entrevista exclusiva concedida a Reinaldo Azevedo no programa ‘O é da Coisa’, da Rádio Band News FM, no último dia 27 de setembro, ainda revela um machismo à toda prova, porque a pressão é destinada às duas mulheres da Egrégia Corte e não aos demais ministros que votaram da mesma forma que elas.

Minha intenção para a coluna de hoje seria a abordagem de decisões próprias e independentes tanto do Congresso Nacional como do STF, mas, torna-se inadequado misturar outros temas com esta mensagem contra o desrespeito e a molecagem das ruas contra instituições e pilares da democracia. A crítica verdadeira e construtiva deve sobrepujar interesses dissimulados e malévolos.  


*Marco Regis é médico, foi prefeito de Muzambinho (1989/92; 2005/08) e deputado estadual-MG (1995/98; 1999/2003)