Mais ecos de gritos de socorro do nosso planeta

Publicado em 13/09/2019 - marco-regis-de-almeida-lima - Da Redação

Mais ecos de gritos de socorro do nosso planeta

Cada vez mais as ideias opostas se afastam e as pessoas se dividem. O talento humano e sua espiritualidade não evolui homogeneamente. Nem os benefícios do seu desenvolvimento atingem sua maioria. Seguramente, não retrocedemos aos conflitos primitivos da Antiguidade, que matavam com pedradas, flechadas, estocadas de lanças e golpes de espadas, mas que, entretanto, construíram impérios ou “civilizações” que foram consideradas florescentes para a humanidade. Não omitamos a obscurantista Idade Média, também conhecida por Idade das Trevas, delimitada lá atrás pelo colapso do Império Romano no século V d.C, que, apesar de tudo, não deixou de ser um período em que a pessoa humana começou a entrar no foco sob a influência religiosa do cristianismo, então consolidado, e do islamismo nascente. Antes que transcorressem os dez séculos medievais a humanidade passa por uma transição que é a Renascença, onde o mundo se transforma pela intervenção do homem na arte, na cultura e na ciência, assim entrando na Idade Moderna, que tem como referência o fim do Império Bizantino e a conquista de Constantinopla pelo Império Turco-Otomano, em 1453, até a Revolução Francesa de 1789. Foi uma época em que se reconheceu e se tentou restaurar o apogeu cultural vivido pelas civilizações grega e romana. Fomos, então, transpondo o Renascentismo, as Grandes Navegações, o Iluminismo e a Reforma Protestante. De lá para cá aportamos na contemporaneidade. Nela carregamos as mesmas beligerâncias dos tempos bíblicos, agora com ampliação dos poderes mortíferos. Foi nessa índole bélica que o século XX viveu duas guerras de amplitude mundial, que ceifaram milhões e milhões de vidas, incluindo soldados e civis. A Idade Contemporânea se caracteriza pelo frenesi e aceleração das transformações tecnológicas. Elas acontecem e tomam conta de todos os campos da atividade humana neste início de milênio. Ninguém é capaz de vaticinar onde vá dar esse paradeiro. O homem já escapou dos limites terrestres, adentrando o cosmos com artefatos teleguiados ou com as próprias pegadas cravadas na Lua. Procura até novos planetas onde possa dar continuidade à espécie humana, no caso de uma falência terrestre. No entanto, e apesar de novos e potentes telescópios, inclusive espaciais, há somente indícios de outros planetas compatíveis com a nossa vida, todos distantes milhões de anos-luz, ainda inacessíveis diante da velocidade das nossas naves cósmicas.  

Diante de tão volumoso histórico à nossa disposição nos velhos livros, nas diversas mídias e na instantaneidade atual da informação, a maioria da raça humana não deu conta da sua efemeridade e fragilidade cósmica, insistindo nas ideias de posse, poder, vaidades e outras tantas superficialidades. A cada dia aumenta o contingente daqueles que se dedicam a aprender e a ensinar que a vida planetária está ameaçada pelo ainda incontrolável crescimento populacional humano e pela extinção iminente e progressiva de outras espécies animais e vegetais. Porém, esse grupo ainda não consegue frear os impulsos de uma massa faminta e desempregada, muitas vezes errante, cujo objetivo único e imediato é a sobrevivência. Ao menos poderia dispor da solidariedade e do despojamento de uma minoria que detém a riqueza mundial, presumindo-se que essa tenha uma consciência planetária e precisa contribuir na sua conservação. Todavia, de um lado, os que lutam pela sobrevivência movem-se atônitos, enquanto os abastados não abrem mão do seu luxo e conforto, nada fazendo para diminuir a necessidade dos esfaimados, muito menos os danos à natureza que sua avidez e cegueira pela riqueza os insensibiliza.

O resultado de tudo isso nos é mostrado rotineiramente em noticiários audiovisuais, em depoimentos e nas próprias catástrofes da natureza. Tudo passou a ser descartável, muito pouco reaproveitável e reciclável, como que nessa toada nossos recursos naturais não venham a se acabar. O lixo se espalha e se acumula por terra e pelas águas, exterminando plantas e animais. Incêndios florestais têm sido registrados não somente na Amazônia sul-americana, também nos Estados Unidos da América e países europeus, não apenas matando pessoas diretamente, mas lançando toneladas de dióxido de carbono (CO2) na atmosfera terrestre, que vão reter o calor pelo chamado efeito estufa, interferindo no aumento da temperatura planetária e no nosso clima. O CO2 também é produzido pela queima de combustíveis derivados do petróleo e do carvão mineral usado nas indústrias. Além disso, os gases de CO2 tornam mais ácidas as águas dos oceanos e mares, afetando negativamente muitas espécies animais e vegetais que vivem nessas águas, consequentemente, retirando-as do ecossistema com danos irreparáveis ao mesmo. Outros gases gerados por diversas atividades humanas vão causar o efeito estufa e, consequente, aquecimento global, como o monóxido de carbono (CO) decorrente dos derivados do petróleo, o metano (CH4), produzido pela digestão dos animais herbívoros tal como o gado bovino, criado para alimentar o mundo, ou pelo lixo orgânico dos lixões e aterros apenas controlados e, ainda, o clorofluorcarbono (CFC), produzido pelos aerossóis e sistemas de refrigeração, hoje gradativamente diminuído em uso em face aos acordos climáticos das nações.

Enquanto os cientistas avançam no desvendamento e nas propostas de resolução dos nossos problemas, ainda perduram guerrinhas endêmicas no Oriente Médio e na África, os idólatras do “deus Mercado” continuam pressionando com seus capitais voláteis, os governos se digladiam pelo poder mundial e as pessoas se matam por motivos fúteis. Agora, ainda, renascem obscurantistas que, a despeito de irrefutáveis provas, acreditam que a Terra é plana, enquanto outros, empiricamente ou pelo prazer de ser do contra, negam a eficácia das vacinas, trazendo de volta doenças que haviam sendo erradicadas.  Quando me deparo com todo esse tipo de noticiário e com as mortandades das tais guerras endêmicas, dos desastres naturais, da violência e  dos grandes acidentes originados pelas máquinas inventadas pelo homem, fico a matutar como um reles pensador se tudo é uma ação da própria Natureza atuando num processo de seleção natural.         


*Marco Regis é médico, foi prefeito de Muzambinho (1989/92; 2005/08) e deputado estadual-MG (1995/98; 1999/2003)