Justiça ou Jagunçada?

Publicado em 05/07/2019 - marco-regis-de-almeida-lima - Da Redação

Justiça ou Jagunçada?

Devo me interpretar como uma pessoa de boa fé. Nunca um ingênuo. Creio que muito da minha personalidade foi forjada na leitura e na escuta radiofônica. Desde os 11 anos de idade era ávido leitor da assinatura do diário paulistano ‘O Estado de S. Paulo’,  à disposição de todos no balcão da farmácia do meu avô, na nossa vizinha Monte Belo. Por inexistência do 4º ano primário, numa localidade rural paulista, Tanquinho, entre Campinas e Jaguariuna, onde meu pai era o chefe-de-estação,  vim cursá-lo aqui no sul de Minas, onde morei com meus saudosos e queridos avós, o farmacêutico prático, Antonio Bueno de Almeida, e a professora primária, Hortência Bonelli. Todos os dias,  tendo chegado da tradicional escola “João Evangelista dos Anjos” e almoçado, lia esse jornal matutino, que nem sempre chegava no mesmo dia, lendo seu noticiário nacional, internacional, político, policial, esportivo e cinematográfico (nas ultimas páginas havia uma que reproduzia belíssimos e criativos cartazes alusivos aos filmes que rodavam nos cinemas da pauliceia, atualizando-nos no melhor meio de diversão daqueles tempos).

Acredito que ouvindo as mais diversas emissoras de rádio brasileiras, desenvolvia o meu espírito crítico, afastando-me do conservadorismo propagandeado pelo ‘Estadão’ dos Mesquitas. Nunca me esqueço da estrondante vinheta que anunciava o Repórter Esso, ficando em mim gravados seus acordes e as notícias dos desdobramentos do cessar-fogo - que até hoje perdura - da Guerra da Coreia, provenientes da zona desmilitarizada de Panmunjon, palco de histórico encontro no último 26 de junho, entre os governantes do sul e do norte, que, finalmente, prometeram dar fim a essa guerra, inacabada desde julho de 1953.

Vejamos a minha boa fé. Em artigo de minha autoria intitulado “Na Lava Jato, Justiça prende milionários e políticos corruptos”, que circulou neste semanário no dia 27 de novembro de 2015, assim me expressei sobre o Juiz Federal, Sérgio Moro, e o então Presidente do STF - Supremo Tribunal Federal - Joaquim Barbosa: “[...] as condenações impostas por ambos, nos processos antes citados, podem parecer irrelevantes ou modestas, porém aplicadas dentro dos parâmetros legais. Será que algum inconformado já parou para pensar que muitos receberam penas superiores a 15 anos de cadeia - por apropriação indébita, fraude, lavagem de dinheiro ou suborno - penas estas às vezes maiores do que aquelas recebidas por muitos assassinos que mataram covardemente e por motivação fútil? [...] Será que os mesmos inconformados já avaliaram de fato o que significa para gente refinada e abastada ver a sua imagem enxovalhada, a perda dos seus cargos e passar algum tempo atrás das grades, mesmo com certas regalias que muitos propalam?

Fui generoso em elogios ao então Juiz Sérgio Moro dizendo do regozijo com a sua “severidade e serenidade”. Dei exemplos da gente rica condenada no Mensalão e na Lava Jato: os 25 apenados do Mensalão do PT, dentre eles Marcos Valério (40 anos); a dona do Banco Rural, Kátia Rabelo (15 anos); os deputados José Dirceu e Valdemar da Costa Neto; e o ex-dirigente do Banco do Brasil, Pizzolato; além daqueles da conta de Moro, empreiteiros da Odebrecht, Engevix, Camargo Correia e Mendes Júnior, o doleiro Yousseff, os funcionários da Petrobrás, Nestor Cerveró e Paulo Roberto Costa, os deputados Pedro Correia (20 anos) e Luís Argolo, mais o banqueiro André Esteves, do BTG Pactual (futuramente o Presidente Lula, que era o “ás de ouro” da caçada). Ainda escrevi nesse artigo de 2015: “Do Mensalão à Lava Jato, indiscutível é que a espada da Justiça tem se abatido sobre aqueles que surrupiaram o patrimônio da Nação, levando-os à prisão, ao pagamento de pesadas multas e à restituição de parte ou do todo do ilícito. Não podemos deixar de considerar o avanço obtido com a promulgação e regulamentação da Lei Anticorrupção, paradoxalmente pela Presidente Dilma Rousseff, a Lei nº12.846, em vigor desde 20-1-2014. Graças a esta ferramenta legal foram adotados em nosso meio o ‘acordo de leniência’ e a ‘delação premiada’, permitindo identificação mais ampla da teia criminosa”.

Exposta a minha boa fé, passo a afirmar que não sou ingênuo. Naquele mesmo artigo, alertei: “Dizem que os brasileiros têm memória curta, mas, frente aos escândalos do Mensalão e da Petrobrás, mais me parecem sequiosos de serem justiceiros, porque, pelo que escutamos, pelas mais diversas regiões que circulamos, o anseio de muitos é o de que esses larápios do dinheiro público sejam linchados em praça pública e surrados até a morte. Afinal de contas, vivemos num Estado Democrático de Direito e atitudes como estas nada mais seriam do que o império da barbárie”. Em artigos futuros, fui percebendo a arbitrariedade das longas “prisões provisórias” e a pressão física e psicológica sobre os presos, visando o único e principal objetivo da Força Tarefa da República de Curitiba: a amortização dessas prisões, com a consequente condenação à prisão domiciliar de grandes delinquentes, em troca da delação, aceleração de processo e condenação do Presidente Lula, sem provas evidentes, afastando-o da condição de favorito à sucessão presidencial. Os diálogos obtidos e divulgados pelo “The Intercept” vieram a desmascarar esta farsa. Não me interessa se tenham sido obtidos por meios lícitos ou ilícitos. Os “hackers” ainda devem ser saudados como fontes da inteligência humana no combate à opressão da espionagem e conluios governamentais, como foram as figuras de Julian Assange, Edward Snowden e, não sei se Greenwald.

Lá atrás, quando me referi àqueles sedentos de justiça com as próprias mãos, caso pudessem ou caso venham a poder, porque não estamos imunes ao apoderamento do Estado por parte deles, chamei-os de justiceiros, porque usual através da imprensa. Mas, meus três dicionários  definem assim: “que ou quem se empenha na aplicação da justiça; imparcial, inflexível, rigoroso; enérgico; zeloso em fazer justiça.”    Minhas pesquisas me levaram a editora Marvel, criadora de heróis ou anti-heróis de quadrinhos que viraram filmes de cinema, onde tais personagens se notabilizaram em fazer a sua própria justiça, fora-da-lei. Não é o mesmo desses manifestantes conduzidos para as ruas no último domingo pelo cabresto de movimentos radicais como o Brasil Livre (MBL) ou o Vem Prá Rua? Os cartazes e “slogans” que costumeiramente, exibem são de apologia, de incentivo à ditadura, pregando “impeachment” para ministros do STF, ou Lava-Toga, fim dos deputados e senadores e intervenção militar. Ao invés de justiceiros, doravante vamos declará-los, além de golpistas, capangas ou jagunçada do autoritarismo.

*Marco Regis é médico, foi prefeito de Muzambinho (1989/92; 2005/08) e deputado estadual-MG (1995/98; 1999/2003)