GUAIDÓ GOLPISTA QUER SANGUE E COMOÇÃO

Publicado em 03/05/2019 - marco-regis-de-almeida-lima - Da Redação

GUAIDÓ GOLPISTA QUER SANGUE E COMOÇÃO

Desde o começo deste ano, com o reconhecimento de umas 50 nações, dentre elas o Brasil, instalou-se um governo paralelo na Venezuela, quando o deputado Juan Guaidó, tão somente com a sua votação para a Assembleia Nacional, que veio a presidir, intitulou-se “presidente encarregado”, passando a medir forças com o verdadeiramente eleito para o cargo, Nicolás Maduro, através de uma eleição havida como ilegítima pela oposição. Diante dessa situação o país passou a ser visto por uma banda mundial como um governo usurpador. Porém, essa mesma banda, que congrega o “xerife planetário”, Tio Sam, e seus aliados ricos ou mendigos, jamais admite que também usurpador é esse falso estadista - Guaidó - que todos apoiam e usam para a derrubada do outro. As pessoas aqui do nosso meio, que não entendem de política, neste caso de política internacional, são levadas pela manipulação dos mais diferentes tipos de mídia - rádios, jornais, televisões e internet - quase tudo dominado pelo poderosos e insensíveis tentáculos do grande empresariado, que exaltam um lado e depreciam o outro. Trocando em miúdos: torcem pelo lado que defende o dinheiro, a posse, o mercado, o sistema financeiro, enfim pelo capitalismo ou liberalismo político-econômico, à direita; ao mesmo tempo, condenam e demonizam o lado de lá, que na sua origem chavista, preconizava melhor distribuição de renda e menor desigualdade social, traduzindo-se por uma nova ideologia que fundia o patriotismo de Simon Bolivar com o socialismo, construindo a nova marca do socialismo-bolivariano, à esquerda.

Embora a verdadeira “guerra fria” tenha tido fim com a decomposição do artificial império soviético, ela renasceu, promissoramente, com o atual multilateralismo, principalmente com o crescimento da China e o ressurgimento da velha Rússia, em oposição aos Estados Unidos da América (EEUU) e seu progenitor Reino Unido, bem como dos seus aliados do pós-guerra como França, Alemanha, Espanha, Itália, Japão.

Não é outra causa principal senão a ideológica, a raiz do conflito venezuelano. Os que defendem a prosperidade através do capitalismo nunca poderiam aceitar que uma nova Cuba surgisse em plena América do Sul, continente sempre submisso à orientação dos EEUU, desta feita não somente uma ilha dele separada por poucos quilômetros e considerada seu quintal de turismo e de economia dependente do cultivo de cana de açúcar.  Agora, era um país rico em petróleo, hoje com reservas superiores a da Arábia Saudita, famoso por inúmeras conquistas em concursos de beleza feminina. Esta é a insolência a ser detida, a ser derrubada. Tenho sido repetitivo - para ser didático - que já com maciça vitória democrática do fundador do bolivarianismo, o saudoso Coronel Hugo Chávez, na década de 1990, e mesmo com seus inúmeros procedimentos de consulta popular, tipo referendos e plebiscitos, ele já era mentirosamente rotulado como ditador. Contra ele se intentou um golpe de Estado, em 2002, ocasião em que os rebeldes cantaram vitória durante três dias até serem rechaçados. Com a sua morte esperava-se o fim do regime que criara, tal como se esperava com a morte de Fidel Castro. Em ambas as situações o regime não mudou. Se em Cuba vem acontecendo uma abertura política e econômica fruto dos novos tempos, novos governantes,  e da sua própria consolidação, na Venezuela houve um fechamento, um endurecimento do governo, justamente pelas constantes ameaças e interferências estrangeiras, patrocinadas, principalmente, pelos diversos governantes norte-americanos. É o caso atual da desfaçatez dos EEUU, de países europeus e do Grupo de Lima aqui nas Américas, inclusive do governo de Jair Bolsonaro, de reconhecer um subversivo, um agitador, um disseminador da discórdia, como “presidente encarregado da Venezuela”.

Nesta semana houve nova tentativa de golpe de Estado, sempre na esperança de que haja um racha entre as altas patentes militares que conduzem a Venezuela. Isto já havia fracassado no “dia de ação humanitária” em que se envolveram EEUU, Colombia e Brasil. Novo desapontamento porque de novo isto não ocorreu. O auto-proclamado “presidente encarregado” começa a perceber que é um presidente sem poder. Uma ditadura de verdade já o teria eliminado desta vida. Mas, o governo bolivariano tem tido a cautela de não dar motivos para que outros governos ou a opinião pública internacional se volte frontalmente contra ele. Nesta véspera do Dia Trabalho, assim se manifestou  Samuel Moncada, embaixador da Venezuela junto à ONU - Organização das Nações Unidas - conforme extraímos do portal esquerdista brasileiro “Opera Mundi”:  “Deputado Juan Guaidó busca sangue e comoção ao incitar golpe de Estado na Venezuela - Guaidó está mandando as pessoas serem carnes de canhão nas ruas, está buscando sangue, para ver se gera algum tipo de comoção que pode ser usada nos meios de comunicação. Essa é uma ação perigosa, criminosa, apoiada pelo governo dos EEUU. Isso demonstra que o governo fantoche de Guaidó é um braço dos EEUU”.

Passei quase todo o Dia do Trabalho acompanhando o noticiário e os comentários de analistas de relações internacionais sobre esta nova tentativa de golpe de Estado. Mas, gostaria de particularizar as entradas ao vivo na programação do canal Globo News de sua correspondente em Caracas, Elianah Jorge, Suponho que suas aparições tenham sido via internet tamanhas as caretas dela. Mas o pior era a sua voz chorona, quase que um discurso de lamentos e, ao mesmo tempo mais manipulador do que informativo. Por exemplo, Elianah Jorge, mostrava-se indignada com a “truculência” da repressão governamental contra “manifestantes desarmados, ou que somente dispunham de pedras e ‘bombas’ Molotov, uma luta desigual entre manifestantes e forças de segurança”. Por aqui, o Presidente Bolsonaro invoca muito a restauração da democracia na Venezuela e o fim da ditadura, esquecendo-se de que o Brasil viveu 20 longos anos em situação semelhante, período este que ele apoiou e não aceita a denominação de ditadura.

Enquanto tudo isso se passa, a Argentina é esquecida. O Presidente Macri, que sucedeu aos Kirchiners, badalado pelos liberais, vai vivendo o naufrágio do seu país em severa crise econômica. Já pegou empréstimo no voraz FMI (Fundo Monetário Internacional) para o qual o Brasil foi devedor por muitos presidentes e somente Lula deu fim nessa dívida; seu banco central estabeleceu juros recentes e elevados de 73,9%; a inflação dos últimos três meses soma 11,8% e do ano de 2018 foi de 54,7%;  estão os portenhos sob o congelamento de preços de mercadorias em acordo feito com 16 empresas (tipo de política econômica falhou por algumas vezes aqui no Brasil).  Tudo isso sem bloqueio econômico dos EEUU e aliados, o que se faz com Cuba há 50 anos e até com o petróleo da Venezuela, atualmente.

Pela clareza de que o conflito da Venezuela é de matiz ideológico, viu-se apoio ao país em várias partes do mundo neste 1º de Maio, não somente de países ditos “comunistas’. Achei interessante os dizeres de faixas em Oslo, a capital norueguesa: “Hand off Venezuela” (Tirem as mãos da Venezuela). Investida semelhante fracassou na chamada Guerra da Síria, onde a Rússia possui base militar e impediu a derrubada de Bashar Al-Assad pelo Ocidente. Os golpistas brasileiros que torcem para a derrubada de Nicolás Maduro precisam aprender que Dilma foi presa fácil porque não dispunha de apoio militar. Na Venezuela, o babado é diferente. Nem ainda o poder chegou às mãos do duríssimo Diosdado Cabello, presidente da Assembleia Nacional Constituinte, a quem Maduro vai acabar entregando o poder.



*Marco Regis de Almeida Lima é médico, foi prefeito de Muzambinho (1989/92; 2005/08) e deputado estadual-MG (1995/98; 1999/2003) 

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