GOVERNANTE QUE FRAUDA A HISTÓRIA NÃO MERECE CREDIBILIDADE

Publicado em 05/04/2019 - marco-regis-de-almeida-lima - Da Redação

GOVERNANTE QUE FRAUDA A HISTÓRIA NÃO MERECE CREDIBILIDADE

Semana passada me estendi em longo artigo que mais pareceu um ensaio literário. Meu texto se inspirou na celeuma provocada pela recomendação do nosso Presidente de que os quartéis comemorassem a data de 31 de Março de 1964, orientação revertida - diante da repercussão nacional negativa - para que a rememorassem através da leitura de uma ordem do dia. Pensei comigo: comemorar a instauração de um ‘golpe’, que truncou o regime democrático, que torturou e matou quem dele divergisse? Ou seria mentira que passamos por um longo período em que se fingia de democracia tendo em vista a alternância dos ditadores de plantão a cada quatro anos? Mas o regime autoritário foi instalado com aparências de obediência à Constituição Federal de 1946, composto por um Comando Supremo da Revolução, que nunca constou da mesma e que baixou o Ato Institucional nº1, com a finalidade de que o Congresso Nacional elegesse pela via indireta o Presidente da República e seu vice, além de determinar a cassação arbitrária de uma centena políticos no pleno exercício de mandatos recebidos nas urnas, dentre eles o senador e ex-presidente Juscelino Kubitcheck, que já se articulava para disputar a presidência com o ‘slogan’ JK-65. Os atos “legais” de força iam se sucedendo ao sabor das circunstâncias, ou dos casuísmos como eram vistos naquela época. O de Nº2 cancelou a eleição prevista para a sucessão do Marechal Castelo Branco, acabou com o pluripartidarismo e instituiu um bipartidarismo artificial, com a ARENA - Aliança Renovadora Nacional - abrigando no mesmo teto antigos inimigos que se dispunham a apoiar o governo, e o MDB - Movimento Democrático Brasileiro - para aqueles que ajudariam a legitimar o sistema, na oposição, mas, frequentemente punidos com a perda do mandato se ousassem passar dos limites de críticas toleráveis. Os atos institucionais continuaram: o de Nº3 tornou em indiretas as eleições de governadores, prefeitos das capitais, de cidades turísticas, por escolhas tuteladas pelo governo central; uma nova Constituição foi outorgada em 1967; um dos senadores de cada estado da federação passou a ser “nomeado”, os chamados senadores biônicos; até que AI-5, em 13 de dezembro de 1968, fechou o Congresso Nacional; suspendeu o direito ao “habeas corpus”; aposentou ou demitiu quase cinco mil funcionários públicos, enfim, aumentou as prisões políticas, fez vistas grossas para não dizer que incentivou a tortura desses presos políticos. Nessa época, a resistência à ditadura aumentava e setores mais radicais estabeleceram a guerrilha urbana, partindo para o confronto armado, sequestrando diplomatas estrangeiros para usá-los como moeda de troca por encarcerados políticos, além de promoverem assaltos a instituições bancárias para o financiamento da sua luta - o que era chamado de expropriações do sistema financeiro.

Da mesma maneira que o presidente João Goulart deixou de resistir aos que o derrubaram a fim de evitar derramamento de sangue entre irmãos, o regime ditatorial, vinte anos depois, percebeu que estava enfraquecido e decadente, observando, pacificamente, os movimentos da Anistia, das Diretas Já, enfim da transição para a democracia. Para os historiadores dos dias de hoje, para os meios políticos e para a mesma imprensa que deu sustentação a esses governos, o 31 de março resta definido como um “golpe”.  Porém, devo extrair de um documento insuspeito, que é o ‘Relatório da Comissão Municipal da Verdade sobre os Crimes e Graves Violações de Direitos Humanos Cometidos na Cidade de Petrópolis-RJ entre 1964 e 1985’, que diz o seguinte: “O golpe expressou-se por ampla aliança política dos partidos PSD, UDN, PSP e outros, pelas associações de classe de industriais, fazendeiros, banqueiros, comerciantes, a maioria da Igreja Católica e da grande imprensa. O apoio das chamadas classes médias viabilizou a ‘base de massa’ para o sucesso do golpe, que se manifestou na Marcha pela Família com Deus pela Liberdade, em São Paulo, em 19 de março de 1964”. Diante disso deduzo que a responsabilidade da ditadura deve compartilhada entre civis e militares, terminologia atualmente usada até nos livros didáticos como “golpe civil-militar”. Isto não exime que esse prolongado período de exceção seja reconhecido como ditadura. Este é o embate ideológico que se trava com o Presidente Bolsonaro, com setores saudosistas das Forças Armadas e com demais adeptos que teimam em não aceitar o rótulo ditatorial, inclusive pelo entendimento que a transição para o poder civil se deu sem traumas.

Enfim, vivi e convivi com a Ditadura de 1964/85. No meio estudantil e profissional a combati por meios pacíficos, entendendo que dela sairíamos, como saímos, através da política e do próprio povo, nunca pela luta armada. Somente os imbecis, os radicais e os de má índole a negam. Da mesma maneira que outros negam o Holocausto dos Judeus durante o período nazifascista. Ou mesmo os que defendem a Inquisição em nome de Deus. Esse foi o encadeamento de ideias que desenvolvi em artigo anterior a este, uma tríplice abordagem de inegáveis e comprovados tempos de opressão e violência.

Mas, minha estupefação continuaria por vir, embora ali tenha eu antecipado teorias concernentes ao ideário nazista. Refiro-me às posteriores declarações do ministro das Relações Exteriores do atual governo, Ernesto Araújo, de que o nazismo e o fascismo foram movimentos de esquerda. Ele já havia publicado esse entendimento em seu ‘blog’ em 2017. Mais grave é ter sido endossado pelo Presidente Bolsonaro em sua visita a Israel. Pior, ainda, por haverem repetido tamanha heresia em visita ao Centro de Memória do Holocausto Yad Vashem, local onde está registrado um breve histórico a respeito da ascensão do Partido Nazista - o NSDAP, sigla em alemão do partido político de Adolf Hitler, Partido Nacional Socialista dos Trabalhadores Alemães. Segundo diversos órgãos da imprensa, o “site” oficial desse memorial explica que as frustrações e humilhações sofridas pela derrotada Alemanha na I Guerra Mundial e a então crescente ameaça comunista criou um terreno fértil para o crescimento de grupos radicais de direita na Alemanha, gerando entidades como o NSDAP, em 1920. Em inúmeras reportagens da imprensa nacional e internacional, há depoimentos de historiadores, pesquisadores e políticos demonstrando que a visão de Bolsonaro e seu ministro representam “um absurdo”, como se expressou a Diretora do Centro de Pesquisa sobre Antissemitismo da Universidade Técnica de Berlim, Stefanie Schüler Springorum.  Para o historiador Wulf Kansteiner, da Universidade de Aarhus, autor do livro ‘Em Busca da Memória Alemã’, “nenhum especialista sério considera hoje o nazismo um fenômeno de esquerda, sendo essa declaração, da perspectiva acadêmica histórica uma asneira”. Mas, Bolsonaro argumentou lá no memorial que é só ver que o partido contém em seu nome a expressão ‘socialista’. Pois, para Paul M Rabe, do Centro de Documentação de Munique para a História do Nacional Socialismo “o rótulo socialista e o tom amigável ao trabalhador ajudaram Hitler a ganhar amplo apoio entre essa parcela da população. Estenderíamos em muito se expuséssemos outros depoimentos abalizados contra essa ideia grotesca e de intenção manipulatória.

Muito já se demonstrou que a História é escrita na versão dos vencedores. Pois, aqui, na questão nazista, passado quase um século do seu surgimento, as autoridades e estudiosos dos lados envolvidos não mais hesitam em situá-la. Texto agora publicado, na 5ª feira passada, 28, no “site” em português da principal TV pública alemã - DW - contesta a fala do ministro Ernesto Araújo, também admitida pelo Presidente Bolsonaro nesta 3ª feira, 2, em Israel, com uma frase concisa: “Há décadas não restam dúvidas, seja no âmbito acadêmico, social ou político sobre a natureza de extrema direita do nazismo”.  O historiador Antonio Barbosa, da Universidade Nacional de Brasília vai além: “Falar que o nazismo é um fenômeno de esquerda é uma fraude. Uma fraude intelectual e uma releitura equivocada da própria História”. E nós indagamos: como confiar em governantes farsantes no trato da História?

 *Marco Regis de Almeida Lima é médico, 
foi prefeito de Muzambinho (1989/92; 2005/08) 
e deputado estadual-MG (1995/98; 1999/2203)