DRONE: de brinquedo a arma de guerra

Publicado em 20/09/2019 - marco-regis-de-almeida-lima - Da Redação

DRONE: de brinquedo a arma de guerra

Os recentes ataques às refinarias de petróleo sauditas colocaram definitivamente em evidência a utilização dos drones. Certamente que noticiários pontuais vinham nos familiarizando com eles. Já acompanhamos notícias de filmagens feitas por drones, ou que um deles caiu nas cercanias do Palácio do Planalto, em Brasília, ou mesmo da sua aplicação em conflitos do Oriente Médio. Todavia, as labaredas das refinarias incendiadas melhor abriram os nossos olhos para o significado do seu uso.

O equipamento assim batizado é uma palavra inglesa que, literalmente, é traduzida para o português como zangão devido aos ruídos que os modelos mais simples produzem. Segundo a Wikipedia, sua invenção coube a Abraham Karem, ou Abe Karem, nascido de pais judeus em Bagdá/Iraque, em 1937, e ainda vivo. A família mudou-se para Israel em 1951, onde ele se formou em engenharia aeronáutica dada a sua vocação em construir pequenas aeronaves desde sua puberdade. Durante a Guerra do Yom Kippur, em 1973, entre Israel e árabes, Abe Karem desenvolveu seu primeiro drone para a Força Aérea Israelense. Anos depois, mudou-se para os Estados Unidos da América (EEUU) onde montou em sua própria casa uma empresa, que produziu drones cada vez mais avançados, desde o Albatross, passando pelo Amber, até o complexo Predator.

De um modelo mais simples, constituído de bateria, sensor e hélices, inspirado em brinquedos de controle remoto, a tecnologia evoluiu não somente como arma de guerra, mas, aplicável, ainda, em diversos tipos de atividade como a fotografia aérea e usos esportivo e de vigilância. Hoje, compra-se com facilidade um drone pela internet, em diferentes tipos de lojas e a preços inferiores a mil reais, em média de 2 a 3 mil reais. Os EEUU passaram a utilizar drones militarmente neste começo de milênio tendo em vista o seu seguro uso não tripulado e os riscos de perda serem infinitamente menores do que um avião de caça, que pode custar em torno de 65 milhões de dólares, enquanto que um drone sofisticado não passa de um milhão. Na linguagem oficial o drone é conhecido pela sigla VANT (veículo aéreo não tripulado), versão do inglês UAV (Unmanned Aerial Vehicle) ou UAS, quando se refere ao sistema que conecta saída e chegada, incluindo o operador em solo. No Brasil, seu uso popular é disciplinado por regras da Agência Nacional da Aviação Civil (ANAC), com imposições de limite máximo de altitude de voo, em torno de 121 metros, podendo, no entanto, ter capacidade de atingir 500 m. Em extensão, um drone comum voa por quilômetros, podendo chegar a 15 Km. A Polícia Federal brasileira já faz vigilância de nossas fronteiras usando drones. As polícias rodoviárias ganharam um novo aliado na fiscalização das estradas, porquanto os VANTs conseguem detectar não apenas a velocidade de veículos, mas, muito mais, motoristas cometendo infrações como o manuseio de celulares e dirigindo com única mão e um dos braços para fora, de acordo com uma publicação no You Tube, agora dependendo de normatizações dos órgãos de trânsito.  Aeroportos estão sendo equipados com novos tipos de radares diante do grande risco de colisões desses pequenos objetos voadores com aviões em aterrissagem e decolagem. 

Embora os EEUU e Israel tivessem tido o cuidado de zelar pelos segredos da tecnologia dos VANTs, não o fizeram com o rigor necessário, vendendo-os como arma de guerra avançada para aliados como o Reino Unido e os do Oriente Médio, como a própria Arábia Saudita, que os usa contra os rebeldes Houthis, na atual guerra civil do Iêmen. Pois, justamente os Houthis estão reivindicando a autoria dos recentes ataques com drones e mísseis às maiores refinarias de petróleo sauditas, de propriedade da ARAMCO, a principal exportadora de petróleo mundial, colocando em crise o mercado petroleiro. Nos bastidores da política mundial, entretanto, cogita-se de participação norte-americana por detrás disso. Motivos há, como sua anunciada grande reserva de petróleo, ou, como pretexto para uma intervenção militar no Irã com quem se rivaliza a Arábia Saudita, esta, aliada dos EEUU e, aquele, de China e Rússia.

Indiscutivelmente, neste princípio de século consolidou-se o uso destas aeronaves armadas e não tripuladas. Os EEUU usaram um drone de guerra pela primeira vez em 2001 contra um comboio Talebã, no Afeganistão. Conforme a revista Época/Negócios, se antes eram apenas países, hoje os drones de guerra já estão na posse de organizações não estatais como o Estado Islâmico, o Hezbollah e os Houthis. Os EEUU, além de modelos anteriores citados, já opera e também fornece para o Reino Unido um modelo maior, mais pesado e de poder destrutivo superior ao do Predator, o Reaper MQ-9. O país pioneiro, Israel, produz o Heron TP e os Hermes 450 e 900, havendo vendido até para a Rússia. A China vendeu o modelo Wing Loon para os Emirados Árabes Unidos e outros países do Oriente Médio como Iraque, Jordânia, Arábia Saudita, Egito e Argélia. O Irã, apesar de um embargo sobre armas e a sanções a que está submetido, desenvolveu capacidade de fabricar, desde 2012, o Shahed-129, usado contra alvos do Estado Islâmico na Síria e Iraque. Até a Turquia, que está impedida de comprá-los, os fabrica para atirar contra seus inimigos curdos no próprio país.

Finalmente, deve ser lembrado que drones voavam em altitudes imperceptíveis a radares. Mas, esta é uma guerra tecnológica em disputa, pois já são detectados através de alguns sistemas. O assunto é tão dinâmico que o “site” www.airway.uol.com.br noticia, em 4 de agosto último, que a Força Aérea da Rússia acabara de fazer seu primeiro teste com um enorme VANT, assim dando como manchete: “Drone invisível aos radares Sukhoi SU-70 realiza primeiro voo”. A matéria esclarece que as asas da aeronave seriam dotadas de material dotado de propriedade de absorção de raios de radares, tornando-se invisível.

O certo é que a tecnologia dos drones é do século XXI, apenas começando. Sua utilização para o bem foi tal qual o invento de Santos Dumont. Porém, seu lado sombrio já deu suas dantescas demonstrações.



*Marco Regis é médico, foi prefeito de Muzambinho (1989/92; 2005/08) e deputado estadual-MG (1995/98; 1999/2003)