Discurso fanatizado na ONU confunde boca no trombone com trombeta do Apocalipse

Publicado em 27/09/2019 - marco-regis-de-almeida-lima - Da Redação

Discurso fanatizado na ONU confunde boca no trombone com trombeta do Apocalipse

Ao longo dos anos, nesta coluna, já tive a oportunidade de escrever sobre a fundação da ONU - Organização das Nações Unidas -, sobre a carreira de Osvaldo Aranha e sua importância na fundação desse organismo internacional e na criação do Estado de Israel. A trajetória de Osvaldo Aranha esteve intimamente ligada com Getúlio Vargas e a Revolução de 1930 a quem serviu como ministro e como embaixador nos EUA - Estados Unidos da América - culminando por chefiar a delegação brasileira na 1ª Assembleia Geral da ONU, por ele presidida, em 1947. Nessas resumidas pinceladas, dá para se entender a deferência da ONU em conceder ao Brasil a primazia do discurso de abertura das suas assembleias gerais, que ocorrem uma vez por ano. O fato é relevante, porque é um momento de visibilidade para o nosso país. Nessas circunstâncias, o nosso atual Presidente, Jair Bolsonaro, discursou na abertura da sua 74ª Assembleia Geral, nesta 3ª feira, 24, na sede da instituição, em Nova Iorque/EUA, que tem uma das suas dependências emolduradas por dois grandes painéis do renomado artista paulista e mundial, Cândido Portinari, para lá doados.

Havendo tido a atenção de acompanhar esse pronunciamento pela TV, que durou 31 minutos, apressei-me em fazer uma postagem no “Facebook”, antes de ser influenciado pelos telejornais que viriam, com o seguinte texto: “Tô aqui matutando no discurso de ‘candidato a Presidente da República’ e não  de ‘um estadista na Presidência da República’ feito hoje por Bolsonaro na abertura da 74ª Assembleia Geral da ONU. UM FIASCO. A torcida organizada dele, aqui no Brasil, está a comemorar porque ainda não caiu na realidade. Vamos aguardar a repercussão internacional”. Claro que rendeu apoios e contestações.

Porém, não sabia eu que antes da reunião da ONU, o portal norte-americano de notícias, POLITICO, segundo a revista VEJA, publicara no seu original a manchete: “IT’S ‘DITACTOR DAY’ AT THE U.N. - WITH TRUMP IN THE MIDDLE” (É o ‘Dia dos Ditadores’ nas Nações Unidas - com Trump no meio). A alusão se devia à coincidência da ordem dos oradores do dia: Brasil/Bolsonaro, EUA/Trump, Egito/Abdel Fattah al Sisi e Turquia/Recep Tayyip Erdogan. O portal estadunidense comenta na matéria, segundo Veja: “ Ele (Bolsonaro) se refere ao período ditatorial de 1964/85 como ‘glorioso’, o qual foi marcado pela repressão e tortura. Mais tarde, a Veja digital, na Seção Mundo, trazia a manchete do jornal “LE MONDE”, de Paris, assim traduzida: JAIR BOLSONARO DISPARA CARGA DE INTOLERÂNCIA NA ASSEMBLEIA GERAL DA ONU, analisando que ele fez “uma mistura de digressões retóricas e confusas”. O também francês “LE FIGARO” contestou o discurso do presidente brasileiro assim: “o desmatamento quase que dobrou desde a chegada ao poder de Jair Bolsonaro em janeiro deste ano, num ritmo de 110 campos de futebol por dia”, ainda enfatizando importante frase dita por ele para ressaltar a soberania brasileira: “L’Amazonie n’appartient pas au patrimoine de l’humanité” (A Amazônia não é um patrimônio da humanidade).

O portal YAHOO Notícias reproduz o colunista de relações internacionais da norte-americana BLOOMBERG, James Gibney, que disse “que o presidente brasileiro mentiu sobre o bom trabalho que tem feito para preservar o meio ambiente”. Também coloca que “a britânica BBC repercutiu ambientalistas os quais afirmaram que as políticas dele (Bolsonaro) aumentaram os incêndios florestais neste ano, pois, ocorreu incentivo aos pecuaristas a limpar grandes áreas da floresta desde a sua eleição’”. Esta mesma interpretação eu havia feito na minha coluna, neste semanário, em 30-8-2019, quando aqui escrevi que “incentivo ao desmatamento, e consequentes queimadas, no afã de estender nossas fronteiras agrícolas em direção à floresta e ao desejo de reduzir territórios indígenas, provocando a ação invasiva de garimpeiros, grileiros, posseiros e grandes fazendeiros”.

O jornal ‘O Globo’, digital, também desta 3ª feira, 24, tem como manchete: “Imprensa internacional reage ao discurso de Bolsonaro”. Na matéria cita o “site” da inglesa ‘BBC’, que escreve: “O presidente brasileiro assumiu um tom  desafiador ao abordar a questão de que a Amazônia pertence ao Brasil”, enquanto acrescenta, sem menção da fonte que “Diplomatas avaliam discurso de Bolsonaro como o mais agressivo já feito por um presidente brasileiro junto à ONU”. Em outra parte diz que o inglês ‘THE GUARDIAN’ designou seu correspondente para a América Latina, Tom Phillips para o acompanhamento da reunião da ONU, o qual fez a seguinte interpretação: “Aparentemente escrito por seus assessores mais radicais da extrema direita, ofereceu ao mundo um vislumbre de um governo introvertido e obcecado por conspirações e profundamente arrogante, um deleite para os seus apoiadores pentecostais”. Finaliza Phillips: “Os aplausos meramente protocolares não deixaram dúvidas de que muitos representantes não podiam esperar para se verem livres do líder do Brasil”.

A Fórumpodcast, o “podcast” da Revista Fórum faz outras menções internacionais. Do “site” PÚBLICO”, de Portugal, pinçamos: “Havia muitas expectativas sobre o que diria Jair Bolsonaro na ONU. Mas ele foi igual a si próprio”. O ‘SUDDEUTSCHE’, “um dos principais da Alemanha, compara Jair Bolsonaro com Donald Trump”, resumindo: “É impressionante como os dois soam parecido”. Para a agência francesa noticiosa RFI (Rádio França Internacional), “Bolsonaro usou o seu tempo para atacar o socialismo, Cuba, Venezuela, a imprensa e o ambientalismo radical, defendendo sua política ambiental, o ministro Sérgio Moro e a criação de uma nova política indigenista. A propósito, inserimos aqui o um pronunciamento de líder indígena, que participou da Cúpula do Clima da ONU, dois dias antes da sua assembleia geral, exibido pela TVT, TV Trabalho, mantida pelo Sindicato dos Metalúrgicos do ABC e pelo Sindicato dos Bancários e Financiários de S. Paulo. A representante da nação Guajajara, Sônia, afirma que a índia Ysani Kalapalo, integrante da comitiva brasileira na assembleia da ONU, exaltada no discurso do Presidente Bolsonaro, “não tem apoio da grande maioria indígena”, que o discurso presidencial “foi feito para agradar setores econômicos que são nossos inimigos históricos como mineradores, madeireiros e o agronegócio”, além de fazer a defesa do Cacique Raoni, ferozmente atacado no discurso do Presidente.

Há inúmeras outras manifestações críticas, de veículos midiáticos importantes, a exemplo do ‘The Washington Post’, do ‘The New York Times e, até do escritor brasileiro mais lido mundialmente, que admitiu perder leitores mas não poder abrir mão da crítica ao Presidente Bolsonaro que “coloca o Brasil numa fase de negação da realidade”, além de contar com um Chanceler (Ministro do Exterior) “despreparado, imaturo e sem experiência diplomática”.

A galera bolsonarista demonstra orgulho do discurso na ONU, mas, o mundo assim não o viu. Minha postagem no “Facebook” encontra afinidade dentro e fora do Brasil. A imponência de Jair Bolsonaro na tribuna internacional, misturada com a firmeza da acusação de que foi esfaqueado por um militante de esquerda, aqui comprovado tratar-se de um portador de transtorno mental (ninguém tenta matar alguém à facada no meio de uma multidão numa época de abundância de armas de fogo de precisão), de afirmações delirantes do Brasil à beira de um regime socialista (sem qualquer apoio das Forças Armadas, ao contrário da Venezuela), de críticas distorcidas aos médicos cubanos, de invocações em vão a Deus, que não poderia ser venerado junto com o “deus Mercado”, na defesa da família sem se tocar que está com uma terceira mulher, tudo isso exala contradições. Bolsonaro não vê o mundo em perigo, somente onde ele vive, o Brasil. Neste sentido foi mais um  desabafo de boca no trombone do que a previsão apocalíptica das sete trombetas. 


*Marco Regis é médico, foi prefeito de Muzambinho (1989/92; 2005/08) e deputado estadual-MG (1995/98; 1999/2003)