DEPOIS DE FORDLÂNDIA E BELTERRA, O NOVO ADEUS DA FORD AO BRASIL

Publicado em 15/01/2021 - marco-regis-de-almeida-lima - Da Redação

DEPOIS DE FORDLÂNDIA E BELTERRA, O NOVO ADEUS DA FORD AO BRASIL

A forma digital da BBC Brasil, de 4-11-2018, deu este título a certa reportagem: ‘Fordlândia, a Utopia Industrial que Henry Ford Queria Construir no Meio da Amazônia’. Em apresentação de um de seus livros publicados, ‘Fordlândia – Ascensão e Queda da Cidade Esquecida de Henry Ford na Selva”, de autoria do historiador norte-americano, Greg Grandini, a Editora Rocco descreve: “Não tinha objetivos puramente econômicos transplantar para a América do Sul uma típica cidade norte-americana. Ford tencionava recriar um projeto de América que, sob seu ponto de vista, se deteriorava nos Estados Unidos da América”. Trechos da matéria da BBC Brasil corroboram essa tese: “Mas as aspirações da Fordlândia iam além. Desencantado com a sociedade grosseira que havia emergido do Capitalismo Industrial, que ele mesmo havia ajudado a criar, Ford sonhava em construir um lugar de acordo com o que considerava ‘valores americanos’. Isto compreendia certos hábitos que incluíam uma dieta rigorosa, a proibição de bebidas alcoólicas e uma jornada de trabalho das 9h às 17h – apesar do ritmo diferenciado exigido pelo calor amazônico – e como passatempos incentivava-se a jardinagem, o jogo de golfe e danças ‘country’ americanas”.

Destaca, ainda, a BBC Brasil que em 1928, aos 65 anos de idade, o magnata Henry Ford ia além do posto de um dos homens mais ricos do mundo, sendo “um ícone da era industrial cujo nome evocava uma revolução tecnológica como o que fariam muito mais tarde personagens como Steve Jobs”. Na realidade, em 1903, ele fundou a Ford Motors Company, que se transformou numa das mais eficientes e lucrativas empresas do nosso mundo. Nela, ele criou uma nova dinâmica de trabalho na produção de automóveis, uma linha de montagem em série na qual o operário parado era responsável pela fabricação de determinada parte do veículo. Esse novo modelo de produção passou a ser chamado de fordismo, colocando seu produto ao “alcance da classe média e uma futura revolução produtiva”. 

“Na década de 1920, a Ford Motors Company controlava todas as matérias-primas utilizadas para a fabricação de automóveis, desde o vidro até a madeira e o ferro”. Porém, a borracha (dos pneus, válvulas, mangueiras e juntas) estava nas mãos de ingleses, desde que um britânico, num ato de biopirataria, levou para colônias inglesas do sudeste da Ásia milhares de sementes das seringueiras amazônicas, que cresciam de forma selvagem e durante anos produziram o látex suficiente para suprir as indústrias de borracha europeias e dos Estados Unidos. Por falta de compradores houve queda vertiginosa da produção brasileira, enquanto crescia o fornecimento dos asiáticos. Tal situação levou Henry Ford a ter ideia de aqui se instalar e de plantar grandes extensões de seringueiras a fim de se livrar de fornecedores ingleses e holandeses. Ao mesmo tempo desenvolveria seu sonho de implantação dos ‘valores americanos’. Assim nasceu Fordlândia, às margens do rio Tapajós, no sudoeste do Estado do Pará, município de Aveiro, região de Santarém e Itaituba. Nessa época, governo paraense oferecia terrenos a empreendedores rurais ou industriais, mas Ford foi iludido por um brasileiro de quem comprou milhares de hectares, sendo essas terras pouco apropriadas para o cultivo de seringais, que ainda foram atacados por pragas. Foi então que a Ford Industrial do Brasil se transferiu para Belterra para melhor manejo agroindustrial. Foi um período de prosperidade para a região. Porém, diversos obstáculos foram surgindo fazendo com que, após a morte do patriarca dos Ford, a família tenha desativado seus projetos e negociado uma indenização junto do governo brasileiro, que ficou com a posse das terras e benfeitorias. O prejuízo com essa aventura foi calculado em 9 milhões de dólares (US$9.000.000,00).

Essa aventura da família Ford não poderia ser esquecida neste momento em que a montadora de automóveis Ford encerra suas atividades automobilísticas no Brasil. Ano passado, sua principal e mais antiga unidade, a de São Bernardo do Campo, no ABC paulista, já havia fechado suas instalações, onde fabricava caminhões e seu carro de maior sucesso, o Fiesta. Desta feita, nesta 2ª feira, 11 de janeiro de 2021, o anúncio foi amplo e dramático. A Ford abandona o Brasil, fechando suas outras três unidades fabris: Taubaté-SP, Camaçari-BA e Horizonte-CE, cada uma delas com a produção de veículos diferentes. A dramaticidade maior fica por conta do contingente de cerca de 5.500 empregados diretos que irão ficar sem os seus postos de trabalho, em plena época atípica e ameaçadora da Pandemia do Corona Vírus. O momento é de mais de 14% de desempregados brasileiros. Entidades sindicais de metalúrgicos afirmam, no entanto, que o número indireto de desempregados atinge 50.000 pessoas, se levarmos em conta as fábricas de autopeças, transportadoras, revendedoras e outros setores próximos.

A falta de investimentos da Ford no Brasil vinha sendo sinal de afastamento. O próprio fechamento da unidade de SB do Campo, ano passado, bem como a queda de vendas dos seus veículos foram outros fatores. Entretanto, a controvérsia dessa decisão se dá pela razão da Ford optar por permanecer na Argentina e Uruguai, deixando o Brasil. Noticiário da CNN Brasil revela que os portenhos, mesmo sob crise econômica, já haviam sido privilegiados com investimentos de R$3 bilhões, um indício do fortalecimento deles. Esse mesmo noticiário comenta que o declínio de vendas de automóveis da Ford no Brasil vinha se dando pela atual preferência mundial por veículos tipo picapes e SUVs, sendo que esses são os modelos fabricados na Argentina, sendo exemplo disso o Ranger que importamos de lá. Nossas plataformas de carros compactos, populares, perdeu competividade. Independentemente da Pandemia, a Ford vinha perdendo espaço em nosso país. Em 2015 ela abocanhava 10,24% do nosso mercado, posicionada em 4º lugar; em 2019 foi a 7ª e em 2020, a 5ª com 7,14% de participação no mercado de automóveis.

Estudos feitos pela Anfavea – Associação Nacional de Fabricantes de Veículos Automotores – mostram que carros nacionais são onerados entre 48% e 55% por taxas e impostos como Cofins, PIS, ISS e ICMS. Por conta disso, a Grande Mídia Empresarial, parlamentares como o próprio Presidente da Câmara dos Deputados, Rodrigo Maia, analistas econômicos a serviço do Capitalismo, bradam por reforma tributária para aliviar a carga das empresas. Mas, em hora alguma, apontam as injustiças tributárias cometidas contra assalariados, que pagam pesado e na fonte, bem como outras camadas da classe média, enquanto se calam diante da cobrança de mais impostos sobre a renda dos mais ricos, nas grandes fortunas e nos casos de grandes heranças. A palavra de ordem deles é Reformas para melhorar o emprego e o País, o que não é bem verdadeiro, pois, foram feitas reformas trabalhistas e previdenciárias, cujos benefícios não vieram. Pelo contrário, prejudicaram os pobres e as classes trabalhadoras.

Nos costumeiros encontros do Presidente da República, Jair Bolsonaro, com apoiadores e jornalistas, na frente do Palácio da Alvorada, nesta semana ele foi incisivo e, nisso devo com ele concordar, mesmo sendo seu crítico contumaz nas questões ideológicas e no apoio à ditadura, à tortura e à liberação de armas de fogo: “Lamento pela perda de cinco mil empregos, mas a Ford pretendia mais subsídios para aqui permanecer. Nos últimos anos ela foi beneficiada com mais de 20 bilhões de reais fora 300 milhões de empréstimos ativos do BNDES. É dinheiro seu, do povo brasileiro. Num ambiente de negócios se você não tem lucro, não aguenta a concorrência, fecha o seu negócio”.

Anos atrás, quando a Ford fechou sua fábrica no Estado do Rio Grande do Sul e se transferiu para a Bahia, o então Governador Olívio Dutra (PT) não se sujeitou às exigências de “ajuda” à Ford. Na época ele disse: “Não tem ajuda, querem ir embora, tchau”. Devo concordar com Bolsonaro e com Olívio Dutra: não dá pra subsidiar grandes montadoras de veículos em troca de chantagens por empregos. Chego a imaginar que 20 bilhões de reais, se forem bem distribuídos com pequenas e médias empresas, ou em ajudas sociais ao próprio povo, seriam mais benéficos para o Brasil, manteriam uma boa média do nosso consumo interno. Segundo o SEBRAE – Serviço Brasileiro de Apoio às Micro e Pequenas Empresas – em seu Portal de Desenvolvimento Local, de 27/02/2020 (ANTES DA PANDEMIA), essas representam 99% do total de empresas do Brasil, sendo responsáveis por 54% dos empregos formais brasileiros. Então, tudo para os pequenos e médios empreendimentos da indústria, do comércio e dos serviços em todo o nosso território nacional. Cautela com as grandes empresas multinacionais, sugadoras do nosso dinheiro, que vai embora para o Exterior.


Marco Regis é médico, foi prefeito de Muzambinho (1989/92; 2005/08) e deputado estadual-MG  (1995/98; 1999/2003) *[email protected]*