Deixem a gente em paz espíritos do Halloween

Publicado em 01/11/2019 - marco-regis-de-almeida-lima - Da Redação

Deixem a gente em paz espíritos do Halloween

Minha implicância com as comemorações do Halloween são permanentes. Neste começo de semana já as ataquei em zap da minha família. Sei que me insurjo como D. Quixote na sua luta contra os moinhos de vento. Neste jornal já faz anos que não amplio minha arena de combate. Precisamente, faz quatro anos, ocasião em que pelo menos duas manifestações de apoio recebi de leitores, através de correspondência digital.

Sinceramente, qual é a graça do estabelecimento de uma data para a implantação desse êxtase coletivo? Entendo como lamentável que hoje, 31 de outubro, crianças saiam mascaradas ou produzidas, no cair da noite, pedindo doces ou cometendo travessuras, sob incentivo de professores, escolas ou pais. Além do mais, se as famílias são católicas ou evangélicas deveriam zelar por sua religiosidade. 

Como o recado ainda serve para hoje, 31, pois este semanário estará chegando às mãos de assinantes, ou nos costumeiros pontos de vendas depois do meio dia, quero ser mais sintético do que fui da outra vez a fim de estimular esta leitura. Para não me dar trabalho, vou transcrever opiniões religiosas, que adicionei no artigo aqui publicado da última vez, para demonstrar que não estou sozinho nesta empreitada.

Na página digital do Clube de Evangelização da Canção Nova, às vésperas do Dia das Bruxas de 2011, 26, extraio uma afirmativa curta e grossa:  “O ‘HALLOWEEN’ É CONTRÁRIO À FÉ CATÓLICA. Anos atrás, o jornal oficial do Vaticano, L’Osservatore Romano, cita a opinião do Perito Litúrgico Joan Maria Canals: “O DIA DAS BRUXAS É UMA CORRENTE DO OCULTISMO E COMPLETAMENTE ANTICRISTÃO”.  Na revista distribuída pelas Testemunhas de Jeová, que não está enquadrada entre as religiões evangélicos, como muitos supõem - a Despertai - editada em Setembro de 2013, encontrei a seguinte afirmativa: “ESSA CELEBRAÇÃO ESTÁ EM CONFLITO COM A BÍBLIA”. A interpretação vem do Livro de Deuteronômio 18 : 10 - 14, assim escrito: “Não se achará entre ti quem faça passar pelo fogo o seu filho ou a sua filha, nem adivinhador, nem prognosticador, nem agoureiro, nem feiticeiro, nem encantador, nem necromante, nem mágico, nem quem consulte os mortos, pois aquele que faz tal coisa é abominação ao Senhor”. No meio evangélico, repleto de denominações, nossas pesquisas encontraram uma tendência maior de rejeição à data, sendo que as que consentem, de modo geral são oriundas dos Estados Unidos para onde irlandeses a levaram quando para lá migraram no século XIX.  Os colonos primitivos, primeiros colonizadores dos Estados Unidos, Puritanos/Calvinistas não aceitavam o Halloween.

Será que pessoas, professores, escolas e pais sabem de fato a origem do Dia das Bruxas? Extraímos e resumimos leitura que fizemos de diversas fontes, tais como www.historiadomundo.com.br/curiosidades/halloween ou www.guiame.com.br/gospel/mundo-cristao/eu-estou-chocado-que-existam-cristaos-celebrando-o-halloween-diz-ex-bruxo-htm e outros. Os celtas habitaram parte da ilha da Grã-Bretanha, principalmente a região da Escócia, a ilha da Irlanda e pequena parte da Europa continental.  Por ocasião de 31 de outubro, alguns séculos antes de Cristo, havia três fatores apontados para que os celtas pagãos tivessem essas comemorações: o fim da colheita, o início do inverno no hemisfério norte e o Ano Novo celta. Era uma data única durante o ano em que se acreditava que, na noite do dia 31 para1º, os mortos vinham visitar suas famílias e cabia aos sacerdotes, os druídas, participarem do estabelecimento desse canal de comunicação entre vivos e mortos. Entre o século VIII e IX, depois de Cristo, com a expansão do cristianismo para a Grã-Bretanha, a Igreja Católica, como fez em outras partes com o Carnaval e o próprio Natal, dentro de um sincretismo religioso, criou um dia para os seus santos e mártires, denominando essa noite da véspera como “All Hallows Eve” (Dia da Véspera de Todos os Santos), dando “Halloween” através dos tempos.  Antecedia o que foi criado como Dia de Todos os Santos (All Saints Day), seguindo-se o Dia dos Mortos, ou das Almas (All Souls Day). Para a espera da visita dos mortos era tradição antiga deixarem bolos e bebidas para que os espíritos não somente se servissem como se acalmassem. O acendimento de fogueiras, ou uso de lanternas e máscaras seriam modos pelos quais se afugentariam os maus espíritos, ou uma ocultação das pessoas mascaradas.

Em suma, essa é a origem do controverso Dia das Bruxas. Muitas especulações encontrei, tal como o regozijo de um dirigente de uma seita satânica com a utilização de crianças para venerarem o diabo, ou de que as crianças sem consciência disso estão perpetuando antigos rituais da magia celta. Uma autora evangélica questiona que o significado de bruxa é sempre para o mal; que do bem seriam as fadas, nunca mencionadas nessas comemorações.

Além de todas essas explicações ou controvérsias, firmo meu ponto de vista de condenação à importação de culturas com as quais nada temos a ver diretamente. Temos inúmeras tradições luso-brasileiras a serem rememoradas para o avivamento da nossa cultura e o fortalecimento do nosso civismo. Infelizmente, a internet, em que pese o seu lado positivo, é um convite ao esquecimento de nosso próprio passado e o incentivo ao florescimento da linguagem e cultura alienígenas.      

*Marco Regis é médico, foi prefeito de Muzambinho (1989/92; 2005/08) e deputado estadual-MG (1995/98; 1999/2003)