DE VOLTA AOS LATINOS NUMA FRASE SOLTA

Publicado em 27/05/2016 - marco-regis-de-almeida-lima - Da Redação

DE VOLTA AOS LATINOS NUMA FRASE SOLTA

Aos primeiros minutos desta véspera de feriado de Corpus Christi, deparei-me com o dilema de cumprir a missão de entregar a este jornal o meu texto semanal ou sucumbir ao sono que me convidava para a cama. Justamente por razão deste feriado religioso, eu deveria despachar o conteúdo desta coluna para a redação dentro das primeiras horas do sol raiado, de um dia que já nascia. Nenhuma multa haveria nem mesmo alguma reprimenda. Mas estaria eu fugindo de um compromisso entre cavalheiros e deixando um espaço vazio a ser preenchido numa ação de improviso pela editoria do semanário. Foi então que me surgiu um novo obstáculo: eu mesmo estava enfarado de tanto escrever sobre o terremoto que abalou os pilares da democracia brasileira. Foram tantas as semanas insistindo em argumentos pela democracia que eu estava me sentindo condicionado somente para isso. Mas, há dias eu decidira que não abusaria da paciência, tanto do jornal e tanto daqueles que me honram na leitura desta coluna. Ainda mais que o golpe foi dado e minha luta não passara de uma repetição de D. Quixote e os moinhos de vento.

            Não sei por que, nesses minutos de conflito de pensamentos, fui levado a sentimentos de frustração com a própria vida. Eis que me lembrei de uma frase latina, transcrita por mim, no branco e grosso papel que encapava os meus cadernos escolares, nos meus saudosos tempos de estudante do curso científico do então Colégio Estadual de Muzambinho: “Debemur morti nos nostraque”. Eram pensamentos célebres, como este, que encimavam cada um dos meus cadernos, ajudando-me na melhoria dos meus conhecimentos gerais e na identificação das disciplinas que eles continham. Apareciam acompanhados, entre parênteses, da tradução, quando em outra língua, e da identificação do autor. No caso em questão: (“Estamos destinados a morrer, nós e tudo quanto é nosso” - Horácio, Quintus Horatius Flaccus, 65-8 a.C.).

            Depois de tantas décadas passadas, num instante depressivo e em busca de um tema literário para desenvolvimento, descolo-me de uma restrita e rasa interpretação filosófica, que carreguei comigo por toda esta minha existência. Tendo a felicidade de sobreviver até à era da internet, recorro ao Google para entender mais amplamente o poeta latino. Em vôo livre e imaginário chego, enfim, à terra de Quintus Horatius Flaccus, Venúsia, na Península Itálica, onde ele viveu no primeiro século antes de Cristo (65 a 8 a.C.). Junto com Virgílio e Ovídio, teve seu nome ligado à fase clássica ou áurea da Literatura Latina. Registram que ele era filho de um liberto, assim chamados os escravos que ganhavam a liberdade por testamento dos seus senhores.

              Em publicação contida na revista Organon, 2014, do Instituto de Letras da UFRS, intitulado Ars Poetica de Horácio – O Texto Original -, da Profª Lúcia Sá Rabello, ela define que a obra literária dele tem três fases, sendo que a primeira delas abrange ‘Epodi’ e as ‘Satirae”. Nos Epodi “há o desabafo do escritor contra as guerras civis e contra equivocadas figuras da vida pública, visando por em evidência os erros e os vícios, com sábios conselhos morais”. Observemos um texto de Horácio:

Para onde, para onde, sacrílegos, vos precipitais?

Ou por que, em vossa destra, se colocam espadas há pouco embainhadas?

Foi pouco, sobre o campo de batalha e o mar de Netuno,

O sangue latino derramado?

(Epodi, VII, 17 – tradução: Vasconcelos, 1992, pág.l07)

              Acerca daquela época, na mesma dissertação, diz a estudiosa professora gaúcha: “A história de Roma é a história da civilização moderna que encontra na civilização latina a sua base mais sólida. Segundo Enzo Marmorale ‘as experiências das civilizações anteriores, incluindo a grega, teriam ficado sem efeito, ou pior, teriam caído na obscuridade da lenda, se Roma não as tivesse recolhido, completado e coordenado, fundindo-as no sopro animador da genialidade latina’ (Marmorale, 1974, pág.9). Do mesmo modo, a literatura latina não é apenas a história da expressão literária do povo romano; é uma literatura que compreende a história do mundo antigo”.

              Debrucemos mais profundamente na reflexão de Horácio sobre a transitoriedade da vida, na extensão maior da frase por ele cunhada e que marcou minha adolescência, na nossa língua-mãe e respectiva tradução, apresentada por Aschar, [email protected] literatura UFMG-lírica e lugar comum–literatura-16-Passeidireto.

Ut silvae foliis pronos mutantur in annos,

prima cadunt: ita verborum vetus interit aetas,

et juvenum ritu florent modo nata vigentque,

debemur morti nos nostraque...

 

Ou, como traduzido em Aschar:

 

Como as florestas mudam de folhas no declínio dos anos,

as primeiras caem, assim a velha geração das palavras perece,

e à maneira dos jovens, florescem e viçam as há pouco nascidas,

nós e as nossas obras nos destinamos à morte.

             Creio ter podido compartilhar algo da cultura latina com os caros leitores. Da mesma maneira que acredito que os leitores possam transmitir os mais diversos aspectos do conhecimento humano para os seus contemporâneos e futuras gerações. Antes que morramos com tudo quanto é nosso, como refletia o latino Horácio. 

*[email protected] – O autor é médico, foi prefeito de Muzambinho (1989/92; 2005/08) e deputado estadual-MG (1995/98; 1999/2003).