DE MORDOMO DE FILME DE TERROR A VAMPIRO DA DEMOCRACIA

Publicado em 01/04/2016 - marco-regis-de-almeida-lima - Da Redação

DE MORDOMO DE FILME DE TERROR A VAMPIRO DA DEMOCRACIA

Não há como alimentar este espaço com assunto diverso que não seja a atual política nacional. Multiplicidade para enfoque mundial é o que não falta. São as primárias das eleições presidenciais nos Estados Unidos; o drama dos refugiados na Europa; a retomada de Palmira, cidade síria e patrimônio histórico da humanidade; o alastramento do vírus zika pelo nosso continente; os jogos olímpicos que se avizinham; e tantos outros temas a preencherem o propósito desta coluna. Mas, não há como abandonar a seriedade e gravidade do momento político brasileiro, que vai encurralando a presidente Dilma Rousseff e ameaçando o desmoronamento de um período democrático, que se acreditava pudesse ser duradouro.
Dizer que a busca do impedimento da presidente segue os ditames da Constituição pode até parecer verdadeiro. Na realidade, tudo é falso e um indevido uso da nossa Carta Magna. Pedaladas fiscais, conversas grampeadas, delações ainda não comprovadas, tudo foi sendo escarafunchado e urdido desde que o Tribunal Superior Eleitoral proclamou o resultado do segundo turno presidencial. Não há dúvidas que o “impeachment” é um dispositivo constitucional, conforme afirmam seus defensores, sejam eles juristas, jornalistas, políticos e, mesmo, e lamentavelmente, a OAB – Ordem dos Advogados do Brasil – quase que um repeteco dos mesmos setores que apoiaram o Golpe de 1964 e os primeiros anos da ditadura então instalada. No âmago da questão, aqueles que o invocam estão sedentos de vingança, simplesmente por terem sido derrotados nas quatro últimas eleições presidenciais.
Posso dizer, efetivamente, que tenho o olfato apurado, pois senti o cheiro do golpe, quatro dias após a reeleição de Dilma, quando, políticos e eleitores ressentidos com o fracasso nas urnas principiaram seus protestos, pedindo a recontagem dos votos, alegando fraude eleitoral e exibindo faixas alusivas ao “impeachment” e intervenção militar – sem que ainda a crise econômica estivesse instalada e a “Operação Lava Jato” se estivesse aprofundada. Com as primeiras incongruências entre a plataforma eleitoral dela e sua administração, no segundo mandato, surgiram acusações de estelionato eleitoral. Não posso me esquecer dos artigos que publiquei neste semanário: “O Brasil reapresenta um cenário de golpe de estado” (31/l0/2014); “Golpe de estado levado a sério no xororô dos perdedores” (17/11/2014); “Inconformados ainda querem a cabeça de Dilma” (22/11/2014); e “Inconsequencia do golpismo pode ser uma guerra civil” (26/2/2015). Isso tudo, anteriormente às grandes manifestações de rua de março de 2015, onde violência e danos ao patrimônio público foram cometidos por manifestantes mascarados.
Desse princípio, aparentemente imperceptível e inocente, as ações se tornaram organizadas e orquestradas, em várias frentes: movimentos concatenados em redes sociais, partidos políticos, Tribunal de Contas da União, juízes, promotores, polícia federal, maçonaria, algumas denominações religiosas, o grande empresariado, sobretudo a grande imprensa empresarial, que detém o monopólio da informação e da manipulação. Há mais de um ano o Governo está imobilizado, pressionado e esmurrado, pois o povo e o País não lhes importam. Vale tudo para derrubá-lo.
A resistência acordou tardiamente, mas tem defendido nem tanto a Presidente, mas a Democracia. Chico Buarque encabeçou um manifesto de quase dois mil artistas e intelectuais. Nesta terça-feira, professores universitários mineiros, comandados pelas escolas federais de direito e de medicina fizeram o mesmo. Brasileiros que vivem no exterior também manifestaram apoio ao Governo, inclusive hostilizando um congresso acadêmico em Portugal, idealizado por golpistas brasileiros, encontro esse que também não encontrou guarida por parte das autoridades portuguesas. Nas ruas e nos recintos fechados o governo tem amplo apoio dos movimentos sociais e da União Nacional dos Estudantes e de secundaristas.
Enquanto isso, a comissão da Câmara dos Deputados que vai “analisar” e votar a admissibilidade do processo do “impeachment”, desenvolve suas reuniões regimentais com o objetivo de montar o cadafalso e colocar a corda no pescoço da Presidente. Este procedimento será apreciado pelo Senado Federal, instituição que poderá ou não instaurar o devido processo e julgamento da Presidente. Todos os golpistas se baseiam na Constituição para dar um golpe sem fuzis, para dar fim a um “governo corrupto”. Curiosamente, quem comanda esse julgamento é o verdadeiro réu na Operação Lava Jato, o presidente da Câmara, Eduardo Cunha, que, segundo o noticiário, esconde e gasta dinheiro de propinas da Petrobrás no estrangeiro, enquanto sobre Dilma não pesa acusação alguma de corrupção, apenas de questionáveis crimes de responsabilidade por usar dinheiro público, “emprestado” do Banco do Brasil e da Caixa Econômica, para pagamento do “Bolsa Família” e do “Minha Casa Minha Vida”.
Mais deprimente e condenável foi o “desembarque” do PMDB – Partido do Movimento Democrático Brasileiro – do barco governamental, nesta semana. Pura safadeza e olho gordo da Bancada e do Vice-Presidente da República, Michel Temer, que costuraram acordo com os golpistas partidos da Oposição (Tucanos, Democratas, PPS e Solidariedade) para afastarem Dilma e a entrada do Vice no lugar dela. Viajando Estado por Estado do nosso País, Michel Temer defendia, descaradamente, o divórcio com o Governo e, veladamente, o “impeachment”. Tal posicionamento foi adotado em sua passagem por Belo Horizonte, conforme relatado em “off” por gente presente ao encontro. Partido detentor de sete ministérios no atual governo, houve dirigente que teve a desfaçatez de declarar que o rompimento foi para demonstrar que o PMDB não tem responsabilidade pelos erros do Governo.
Razões como essas, levaram o presidenciável Ciro Gomes (PDT) se referir a Michel Temer como “O Capitão do Golpe”, meses atrás. O célebre e contundente político baiano, Antonio Carlos Magalhães (ACM), do antigo PFL, hoje Democratas, em 1999, fez piada sobre Temer, chamando-o de “Mordomo de Filme de Terror”. Discursando em sessão da Câmara dos Deputados, na terça desta semana, o Deputado Davidson Magalhães (PC do B/BA) acusou Michel Temer de conspirador e serviu-se da frase do conterrâneo falecido para dizer: “Se ACM o taxava de ‘Mordomo de Filme de Terror’ eu acrescento que hoje ele é o Drácula da Democracia”.

*[email protected] – O autor é médico, foi prefeito de Muzambinho(1989/92; 2005/08) e deputado estadual-MG (1995/98; 1999/2003)