COREIA DO NORTE MANDA MUNDO LIVRE ÀS FAVAS

Publicado em 08/09/2017 - marco-regis-de-almeida-lima - Da Redação

COREIA DO NORTE MANDA MUNDO LIVRE ÀS FAVAS

Na época da Guerra Fria, o chavão mais cansativo usado pela imprensa ocidental era o bendito “Mundo Livre”. O termo era uma referência fantasiosa aos países livres, democráticos, que se contrapunham ao regime ditatorial da então União das Repúblicas Socialistas Soviéticas – URSS –. Não somente dos países do entorno da Rússia, mas daqueles de regime assemelhados como a China, o Vietnam, Cuba, a própria Coreia do Norte e outros simpatizantes do comunismo como o Congo, de Patrice Lumumba, a Argélia de Ben Bella, a Etiópia, pós-ditadura de Hailé Selassié.

             O “Mundo Livre” é exaltado como uma espécie de paraíso terreno, porém é cheio de contrastes e mentiras, “dignificado” pela liderança dos Estados Unidos da América – EUA ou EEUU – e seus aliados. Nem sempre a liberdade foi sua principal característica nesse alinhamento, bastando que fosse um aliado ou subalterno dos americanos. Assim foi com a ditadura franquista da Espanha e outras ditaduras latinoamericanas e africanas. Assim, ainda o é com a monarquia absolutista da Arábia Saudita e com a atual ditadura militar do Egito que se seguiu à invencionice da Primavera Árabe.

              Diante de tudo isso, adquiri uma consciência e clareza política desde a minha puberdade, nunca arredando o pé desse meu posicionamento a despeito de ser massacrado e manipulado por informações em contrário dos nossos bem conhecidos meios de comunicação como Organizações Globo, Rede Bandeirantes de Rádio e TV, Editora Abril, Estadão e Folha de São Paulo e tantos mais.  Por isso, não será a crise política da República Bolivariana da Venezuela que vai me fazer mudar de lado. Muito menos a ameaça de uma guerra nuclear a acontecer com a República Democrática Popular da Korea – RDPK – ou, Coreia do Norte.

             Um exemplo recente de contradição e manipulação do “Mundo Livre” e seus meios de informação é o caso do Irã, a antiga e gloriosa Pérsia, que é uma república subordinada a um conselho religioso – uma teocracia.  Enquanto esse país foi governado por um convicto antiamericano, Mahmoud Ahmadinejad, eleito e reeleito pelo voto do povo iraniano, era ele rotulado de ditador, que vencera eleições por meios fraudulentos. Mas, a questão era a sua intransigência com os Estados Unidos e a sua determinação de levar adiante um projeto nuclear, com fins pacíficos segundo autoridades do Irã, mas uma ameaça de bomba atômica para o “Mundo Livre”.  No momento em que o Ahmadinejad não emplacou o seu sucessor, havendo sido eleito Hassan Rohani, que firmou um acordo nuclear que satisfez o Ocidente, o “Mundo Livre” está a viver em lua-de-mel com aquele país e este com o esporte mundial, pois sua seleção de futebol foi classificada dentre os asiáticos para ir à Copa do Mundo da Rússia e seu quinteto de voleibol masculino tem se destacado nas competições mundiais. No programa Globo Repórter, da Rede Globo de TV, semana passada e, talvez desta, a veterana e competente Glória Maria mostrou a pujança, a alegria e a hospitalidade desse povo persa, registrando a sua história de mais de dois mil anos. Para quem criticava o Irã como um paiseco qualquer, até parece que essa tão velha nação tivesse surgido depois de Ahmadinejad.  Gostaria que os caros leitores pudessem reler a minha defesa desse governante e do seu país feita neste jornal, em 26-9-2009, através do artigo “O Irã tem história e merece respeito”, acessando: afolharegional.com/artigos Marco Regis.

              Na questão venezuelana, reconheço que o desembaraço e as atitudes do saudoso Hugo Chávez eram infinitamente superiores a Nicolás Maduro. Além do vazio do mito chavista, Maduro veio a se defrontar com a queda abrupta do preço de seu principal produto de exportação – o petróleo – que desestabilizou a economia da Venezuela, ao lado de um proposital desabastecimento de alimentos por parte de setores empresariais, que querem a derrubada do governo. Isso favoreceu que as elites oposicionistas conseguissem trazer para os seus lados grandes contingentes da pobreza e da classe média, incrementando os protestos de rua.  Ao contrário do Brasil do “impeachment” de Dilma, o governo da Venezuela está bem sustentado, recheado de militares, que dão apoio a Maduro e efetivo controle dos agressivos protestos.

             Finalmente, quero focar a questão coreana do norte, aonde o deboche e o desprezo da imprensa ocidental pelo país e seu governante Kim Jon-un vinham sendo a tônica da abordagem. Entretanto, nos últimos dias, percebendo todos que os testes balísticos, feitos com mísseis de pequeno e médio alcance, têm sido bem sucedidos e que, o último teste nuclear, executado no domingo passado, atingiu o grau 6,3 na escala Richter, compatível com um artefato à base de hidrogênio, portanto, mais potente que as bombas atômicas despejadas pelos EUA sobre Hiroshima e Nagasaki, ao final da II Guerra Mundial, os observadores internacionais e os jornalistas debochados têm denotado preocupação, até medo.

             Os testes nucleares da Coreia do Norte (RDPK) se iniciaram em 2006 e foram retomados com maior intensidade em 2009. Aqueles que menosprezam a inteligência e a capacidade desse país, ignoram os mísseis, as bombas atômicas em desenvolvimento e, agora, a bomba de hidrogênio. Tratam do assunto como se fosse de um país falido e, à semelhança com Cuba, sonegam informações sobre os bloqueios econômicos impostos ao país pelos EUA e seus aliados, utilizando-se das Nações Unidas (ONU). Deixam de lembrar que a RDPK sofreu danosas inundações nos anos de 1995/96 e 2006, além de haver sofrido severa estiagem em 1997. Nesse ínterim, a Coreia do Norte deixou de receber importantes subsídios da URSS, desde que a mesma foi extinta, no início da década de 1990.

            Pessoalmente, mesmo tendo ampla consciência ambiental e das consequencias de um conflito nuclear, defendo o programa atômico não somente da RDPK, mas, também do Brasil, do Irã e de outros países mais racionais e menos belicosos, pois, possuir uma bomba atômica é mais um instrumento de soberania nacional do que uma arma que vá ser utilizada a qualquer momento. Não é aceitável que EUA, Inglaterra, França, Alemanha, Israel, India e até o Paquistão as tenham e outros países estejam proibidos nesse sentido. Já defendi, como deputado estadual, que o Brasil rasgasse e jogasse no lixo o Tratado de Não Proliferação de Armas Nucleares, ao menos que todas as potencias nucleares se desfizessem totalmente dos seus arsenais atômicos

             Afinal de contas, assim tem sobrevivido o rotulado regime comunista stalinista da República Democrática Popular da Korea (RDPK). Sem esse trunfo bélico-militar esse pequeno-gigante país não passaria de um minúsculo e inexpressivo ponto da extensa geopolítica terrestre. Kim Jong-un continuaria a ser ridicularizado como “gordinho idiota, ditador desprezível, gordinho atômico” e seu povo altivo continuaria a ser mostrado como fruto pobreza dos subdesenvolvidos e dos comunistas, e nunca pelas más condições climáticas e de relevo dessa nação, nunca pela opressão e pelo desprezo dos mais ricos, nunca pela falta de solidariedade dos povos da Terra. Podem chamá-lo de louco, jamais de idiota.

Marco Regis é médico, foi prefeito de Muzambinho (1989/92; 2005/08) e deputado estadual-MG (1995/98; 1999/2003) – [email protected]