CORAGEM PARA OPINAR

Publicado em 31/05/2019 - marco-regis-de-almeida-lima - Da Redação

CORAGEM PARA OPINAR

Não pense o leitor que a gente vem tranquilamente a este espaço do jornal opinar sobre as mais diversas questões, mormente sobre política nacional e internacional. Posso usar o jargão popular que se traduz pela conhecida atitude de “dar a cara a tapa”. Opinar pelos cantos das ruas e nos botequins é muito simples, pois as palavras são levadas pelo vento. No entanto, a escrita não se apaga. Tanto é que desde os tempos da extinta língua latina havia a expressão: “verba volant, scripta manent”, que é uma síntese do que até agora foi dito, ou seja, a palavra voa e a escrita permanece. Muito mais grave estes nossos tempos de internet no qual tudo pode ir para um aparente sumidouro, mas reativa-se instantaneamente pela inteligência da sua criação. Muito diferente dos buracos negros do Universo, descritos pela ciência nos quais os mistérios são ainda incógnitos.

Por que digo isto? Eu mesmo devo responder: porque a vida tornou-se um imenso “reality show on line”, tudo vigiado por câmeras ou programas de computadores, presentes no nosso trabalho, na nossa casa ou andando conosco pelas ruas, inclusive no nosso aparelho celular. Tudo foi mais ou menos previsto no livro “1984”, escrito por George Orwell, em 1949, onde ele falou no Grande Irmão (“Big Brother”), na língua do futuro (novilingua), no crime de ideia (crimideia) e um governo dotado de ministérios da Verdade e do Pensamento, num ambiente dominado pelo medo e pela repressão. Antes de tomar posse no meu 2º mandato de prefeito de Muzambinho, compareci a uma entrevista agendada por uma revista guaxupeana, numa livraria  localizada  na Av. Dona Floriana, em Guaxupé, tipo cíbercafé (ou cybercoffee na futura novilingua anglicizada) onde me deixei fotografar exibindo esse livro em minhas mãos, tamanha já era a minha inquietação pelos novos momentos da sociedade humana.

A motivação para que escrevesse alguma coisa sobre este tema ressurgiu de entrevista da atriz global Regina Duarte, concedida na madrugada desta 5ª feira, 30, no programa ‘Conversa com Bial’, na TV Globo. Inevitavelmente, a  ex-”namoradinha do Brasil” veio a abordar seu posicionamento político, desabrochado com toda intensidade em 2002, ocasião em que ela gritava contra o perigo de Lula tornar-se - como se tornou Presidente, tendo como Vice o empresário mineiro José Alencar. Mas o alerta dela nada previa de corrupção, era simplesmente um pânico ideológico diante do “perigo vermelho” - que realisticamente nunca se concretizou, porquanto Lula governou dentro dos ditames constitucionais, embora estabelecendo rumos à esquerda, da mesma maneira que Jair Bolsonaro direciona os seus para a direita. Nada de catastrófico em nenhum dos dois, somente uma questão de paciência para os opositores a fim de que se cumpra e se faça a travessia do mandato presidencial de quem foi escolhido Presidente, pois esta é a regra democrática. Obviamente que Lula teve um segundo mandato, fruto de uma manobra anterior dos conservadores, a meu ver equivocada, que criaram o instituto da reeleição para a manutenção no poder do então presidente Fernando Henrique Cardoso.

Na entrevista de Regina Duarte, ela se queixou de haver sido rotulada de terrorista, em 2002, e de fascista, em épocas recentes. Aceitável a sua mágoa contra a intolerância diante de valores ou situações em que ela acredita ou se manifesta. Por exemplo, ela abordou a questão da Lei de Incentivo à Cultura, a chamada Lei Rouanet, da qual discorda, preconizando que o patrocínio dos artistas consagrados deva ser obtido diretamente dos empresários e não diante do Estado, exceto para talentos nascentes, tudo isso com rigorosas prestações de contas. Essa abordagem ela o fez através da leitura de um texto que levou, entremeando, de improviso uma enfática defesa neoliberal do Estado Mínimo. Entrementes, não ficou bem claro que ela tenha sido qualificada como terrorista, diante da sua condição de famosa e carismática, haver tentado criar medo de Lula na sociedade, de certa forma uma forma de terror desarmado. Quanto ao fascismo, pessoalmente tenho condenado essa rotulagem superficial impingida à direita. Mas, contrariamente e da mesma forma, aqueles que se colocam no mesmo espectro ideológico e conservador da atriz, deveriam parar de estigmatizar todo esquerdista como comunista. Isto não somente foi um tratamento pejorativo e comum no período da Ditadura de 1964/85. Os comunistas ou subversivos eram procurados e caçados como verdadeiros criminosos e, quando presos torturados física e psicologicamente, até assassinados.  Certamente, ainda hoje, segmentos bolsonaristas desejariam reproduzir os chamados Anos de Chumbro, não sei dizer a opinião da queixosa Regina Duarte. Particularmente, defendo valores de esquerda, mas, não posso ser chamado de esquerdopata ou comunista, porque nunca li o ideário de Karl Marx e Engels, nem entendo que deveria dele me utilizar em quadras tão diferentes da humanidade e mais de um século depois. Esta minha posição foi muitas vezes registrada nos Anais da Assembleia Legislativa do Estado de Minas Gerais.

A minha conclusão vai no sentido de que todos deveríamos ter ideias e por elas lutarmos, deixando de ser seres amorfos como hoje, sem sonhos nem ideais, movidos apenas pelo dinheiro e pelo consumismo, deixando de lado o principal, que deveria ser comum a esquerdistas e direitistas e outros “istas” - o engajamento na defesa da sobrevivência do planeta Terra. Ah! Liberdade para isso! Ela não estará disponível dentro de ditaduras de esquerda ou de direita. Nem tampouco na ditadura dos mercados.

*Marco Regis é médico, foi prefeito de Muzambinho (1989/92; 2005/08) e deputado estadual-MG (1995/98; 1999/2003)