CONTINUA O ALERTA DOS PROFETAS DO CLIMA

Publicado em 04/12/2015 - marco-regis-de-almeida-lima - Da Redação

CONTINUA O ALERTA DOS PROFETAS DO CLIMA

Paradoxalmente, o progresso humano vem nos confrontando com os riscos da nossa sobrevivência terráquea. O aumento da população terrestre e, por conseguinte, a satisfação das necessidades da mesma, através da oferta de alimentos, meios de transporte, moradias e de conforto em geral, tem provocado desequilíbrios na harmonia ambiental. Se a revolução industrial significou uma etapa transformadora nos nossos modos de produção e de consumo, hoje também é apontada como o começo de uma era poluidora da atmosfera devido à utilização de energia fóssil – carvão e petróleo – responsável pela emissão de gases de efeito estufa – GEE – que estão relacionados com o aquecimento planetário.
Desde os primeiros vestígios da nossa civilização sabe-se da interação do homem com a natureza. Na escalada lenta e progressiva da história, foram sendo registradas as buscas e as explicações para os fenômenos naturais, despontando os primeiros filósofos, astrônomos, matemáticos, físicos, biólogos, alquimistas e químicos. Na segunda metade do século passado, bem dominada a aeronáutica desenvolve-se a astronáutica, vindo o homem a dar voltas ao redor da Terra, em vôos orbitais, logo escapando das nossas forças gravitacionais e chegando até ao nosso satélite – a Lua.
Concomitantemente à ida lunar, e ao envio de artefatos teleguiados a planetas vizinhos, surge uma consciência cósmica nos diferentes segmentos populacionais que, aliando-se aos meios científicos, fortalece a preocupação com a nossa morada espacial, a Terra, maltratada pelo ‘progresso humano’ e pelos interesses econômicos.
Desse comprometimento entre cientistas, governantes e militantes ambientalistas acontece em 1972, em Estocolmo, a Primeira Conferência das Nações Unidas sobre o Meio Ambiente, com a presença de 113 países e 250 Organizações não-governamentais – ONGs. Vinte anos depois, entremeados por reuniões isoladas de ONGs e instituições governamentais, ocorre a Segunda Conferência das Nações Unidas sobre o Meio Ambiente, que ficou conhecida por Rio-92 ou Eco-92, com a presença de 180 chefes de estado ou de governo mais 9.000 jornalistas, segundo o jornal “o Globo”.
Desses dois grandes encontros mundiais podemos citar documentos e outras entidades delas decorrentes, no âmbito da própria ONU – Organização das Nações Unidas, tais como: o Relatório Bruntland (“Nosso Futuro Comum”, livro que me foi emprestado pelo ambientalista e professor Marcos Navarro Milliozzi, na década de l990); a Conferência de Toronto de Mudanças Climáticas (1986), a Agenda 21 (1992), as COPs (desde 1995) – Conferência das Partes da Convenção-Quadro das Nações Unidas sobre Mudanças Climáticas – e o IPCC (desde1988), sigla em inglês para Painel Intergovernamental para Mudanças Climáticas, além das próprias declarações de princípios de Estocolmo e do Rio de Janeiro.
Anualmente, desde 1995 (Berlim), entre novembro e dezembro, têm sido realizadas as COPs, Neste momento, as atenções mundiais dos ambientalistas estão voltadas para a capital francesa, Paris, onde ocorre a COP-21. Mas, foi a COP-3, de Kyoto, no Japão, a de maior destaque, sendo que o documento lá produzido até hoje é o mais importante e mais conhecido – o Protocolo de Kyoto, com validade até 2012 – que estabeleceu metas para as emissões de gases causadores do efeito estufa –GEE- para os países signatários e que o ratificaram, menos Estados Unidos e China, os principais países emissores de GEE – que, repetimos, não o ratificaram. Anteriormente a Paris, em ordem decrescente no calendário, as convenções se deram em: Lima, Varsóvia, Doha, Durban, Cancún, Copenhague, Poznan, Bali, Nairóbi, Montreal, Buenos Aires, Milão, Nova Delhi, Marrakesh, Haia, Bonn, Kyoto, Kyoto, Genebra e Berlim. Curioso é dizer que a COP-18, em Doha/Qatar, prorrogou o Protocolo de Kyoto até 2020, chamado de ‘kyotinho’.
O que está em discussão em Paris/2015? As propostas iniciais de Brasil e França, que não têm sido novidade em anos anteriores, desde 2011/Durban/África do Sul – que é a tentar tornar o acordo, que sai ao final da conferência, de ‘vinculação jurídica’ e não meramente ‘vinculação política’, o que tem desobrigado países como Estados Unidos e China a não cumprirem metas de emissão de GEE; a efetivação do Fundo Verde, idealizado na COP-15/2009/ Copenhague, com aportes de países desenvolvidos e emergentes que deveriam somar US$100 bilhões entre 2013/20, mas que somente arrecadou a décima parte disso; o REDD+ (Redução de Emissões por Desmatamento e Degradação de Florestas) ao qual o Brasil faz críticas pela tendência de se incluir créditos de carbono para o financiamento dos projetos, pois significaria incluir compensações por emissões de GEE; a busca de um acordo global, mesmo que mais fraco, estaria mais próximo do multilateralismo preconizado; melhoria da Chamada de Lima para Ação Climática, documento final da COP-20/2014/Lima, que ficou genérico e confuso; enfim, estabilizar o aumento da temperatura global no máximo em 2°C até o final deste século, evitando, assim, dentre outros problemas, o aumento do nível do mar que pode submergir muitas regiões litorâneas, ilhas e arquipélagos.
Finalmente, quero reproduzir aqui um trecho do que escrevi para este semanário, em Dezembro de 2009, por ocasião da então badalada COP-15 de Copenhague, que acabou fracassada: “Ninguém poderá desconhecer ou negar o papel transcendental para a sobrevivência da humanidade desses verdadeiros profetas do clima (os cientistas que participam das conferências climáticas)”. Mas, melhor é o arremate com a opinião do ator e ex-governador da Califórnia, Arnold Schwarzenegger, a respeito de uma das COPs: “não foi sucesso mas fez o mundo pensar diferente”!

*[email protected] – Marco Regis é médico, foi prefeito de Muzambinho (1989/92; 2005/08) e deputado estadual-MG (1995/98; 1999/2003).