CASSAR DILMA, CAÇAR LULA: EIS A QUESTÃO

Publicado em 19/02/2016 - marco-regis-de-almeida-lima - Da Redação

CASSAR DILMA, CAÇAR LULA: EIS A QUESTÃO

Passado o Carnaval, reacende-se o caldeirão da política brasileira. Antes da nossa atual e suposta estabilidade democrática, o Brasil registra dois lamentáveis e dolorosos períodos ditatoriais – Vargas, na Revolução de 1930, e Militares, no Golpe de 1964 – estando, novamente, sob ameaças visíveis e invisíveis.

            Ingredientes vêm sendo jogados nesse caldeirão desde que Dilma Rousseff recebeu mais quatro anos de mandato, através do voto popular, fazendo engolir a seco aqueles que ensaiaram uma comemoração antecipada ao contrário. A fervura vem se prolongando com a constante adição de fatos e argumentos variados. Na primeira semana, após o resultado final do segundo turno das eleições, foram usados elementos como fraude nas urnas e estelionato na campanha eleitoral, com o forte tempero de “impeachment” e intervenção militar, descabidamente. Na falta de engrossamento do caldo, outras misturas foram colocadas: caixa-dois, abuso da máquina pública, “pedaladas fiscais” (dinheiro do governo, em bancos do governo, pagando contas do governo) e, meses à frente, a deterioração da economia brasileira (claro que houve gastos demais no período eleitoral, mas não se deve deixar de lado o contexto mundial). Enquanto tudo isso acontecia, comensais esganados se esgoelavam em movimentos de rua, mais que despolitizados, golpistas.

             Nos regimes democráticos há regras para serem cumpridas. Ninguém cozinha um mandatário do jeito que entende. Nessas idas e vindas foi-se o ano de 2015, obrigando a Presidente unicamente a se defender do panelão e dos panelaços, sem as mínimas condições de concentração de esforços na administração do País. No entanto, a água da fervura foi se evaporando e muitos dos elementos ali jogados pela oposição oficial e das ruas foi se queimando. Um pajé-mor que resolveu cuidar do recipiente fervente – Eduardo Cunha – foi vítima dos próprios feitiços, sendo desnudado e provocando uma revoada dos “tucanos” ao derredor. Como consequência de tudo, a turba esgoelada que enchia as ruas foi esgueirando-se.

            Nesta 4ª. feira, 16, um grupelho tencionava achacar a Presidente Dilma e o ex-presidente Lula, quando este chegasse com a sua mulher, Marisa,  para uma audiência no Fórum, no centrão de São Paulo. Aliás, marcada por um Promotor de Justiça, Cássio Conserini, que parece ter exorbitado do seu poder, por isso mesmo barrado pelo Conselho Nacional do Ministério Público, que a suspendeu liminarmente. Sindicalistas e simpatizantes do governo da Presidente Dilma e do Ex-Presidente Lula rumaram para o mesmo local, impedindo que os opositores inflassem os já conhecidos e desrespeitosos bonecos, entrando em confronto com eles e pondo-os para correr, apesar da intervenção e do indisfarçável apoio da polícia tucana paulista aos achacadores, que bateu sem dó nos “camisas vermelhas”.

             Este mesmo dia, proporcionou importante resultado em nível nacional para o governo Dilma, que vai recuperando as forças: o deputado federal de sua preferência, Leonardo Picciani (PMDB-RJ) reelegeu-se Líder de Partido, impondo derrota no candidato do Presidente da Câmara e antigoverno (37x30 votos). O recalcado e catastrofista Willian Waack, no seu jornal noturno da Rede Globo, que tem ideia fixa na esculhambação do governo, Dilma, todas as noites, tentou minimizar esta vitória.

               Leonardo Picciani, no dia anterior, escreveu artigo para o diário “Folha de S.Paulo/Tendências e Debates”, sob o título ‘Lealdade à Democracia’, de onde extraio alguns trechos: “Depois que as eleições terminam, os derrotados devem recolher suas armas. Os vencedores governar. [...] Sinto-me muito livre para tratar disso porque é público que NÃO APOIEI a Presidente Dilma Rousseff na eleição de 2014 (apoiou Aécio Neves) [...] A oposição nunca reconheceu a sua derrota. Passou a trabalhar na tese do ‘quanto pior, melhor’, a ponto de renegar suas próprias bandeiras históricas, como a Lei de Responsabilidade Fiscal. Ao mesmo tempo que defendia a necessidade dos ajustes, votava medidas de aumento de gastos [...] É hora de permitir que o governo democraticamente eleito tenha condições de governar, enquanto é tempo, pelo bem do País”.

               Quanto à caçada a Lula, mesquinha e rancorosa, decorre do fato da progressiva recuperação da imagem e da força política da Presidente Dilma, deixando mais distante as chances do seu impedimento no Congresso ou cassação pela Justiça Eleitoral. Concordo com a assertiva de que “ninguém está acima ou à margem da Lei” e, assim, que Lula seja investigado. Mas, tem passado dos limites os vazamentos do “disse-me-disse” dos delatores da Lava Jato, ladrões comprovados, que tentam obter penas leves em troca de ‘deduramentos’. Aliás, na ânsia de pegar Lula, o Juiz Federal, Sérgio Moro, tem ampliado o leque desses delatores, que vão se beneficiando com a redução das suas condenações, além de fazer vistas grossas em tais vazamentos. A maioria deles oriunda da Polícia Federal, sediada no Paraná, que melhor denominação teria de Polícia Política Federal do Paraná, que eu temo em tempos de democracia e, então, o que seria de nós se a mesma agissse nos tempos de uma ditadura?

             Ademais, a Promotoria de São Paulo está muito detalhista na divulgação de hipóteses, antes do desfecho das investigações com relação ao apartamento do Guarujá e do sítio de Atibaia. A Grande Imprensa, também. Faz-se alarde à merreca de um barco que, em grandes represas, como aqui em Furnas, onde se vê embarcações mais chics e mais caras nas mãos de gente remediada. É uma antena de TV instalada pela Oi para agradar a família de Lula, ou alguém que ofertou um mobiliário. Quem não sabe do poder de sedução ou de bajulação de empresas e até de pessoas? Não somente entre particulares, também para um agrado a governantes e autoridades – dos municípios até a Esplanada de Brasília. Sempre foi assim e tão verdadeiro que o Presidente Fernando Henrique criou uma lei estabelecendo que o agrado, o mimo, a um servidor público poderia valer, no máximo, um salário mínimo (!me engana que eu gosto!).

               Cassar Dilma? Ou caçar Lula como um animal perigoso. A oposição quer assumir o governo agora? Ou prefere 2018, mas tá com medo da volta de Lula? Quanto a mim, quero conclusões bem apuradas, pois candidato a Presidente em 2018 já tenho definido: será Ciro Gomes (PDT).

 *[email protected] – Marco Regis é médico, foi prefeito de Muzambinho (1989/92; 2005/08) e deputado estadual-MG (1995/98; 1999/2003).