Carne fraca dá fortes prejuízos ao Brasil

Publicado em 24/03/2017 - marco-regis-de-almeida-lima - Da Redação

Carne fraca dá fortes prejuízos ao Brasil

Carne fraca, mas um prato cheio. Tão cheio que transbordou dos limites do prato brasileiro e esparramou-se pelo mundo. Foi essa a conseqüência da lambança resultante de mais uma ação prepotente e espalhafatosa da nossa Polícia Federal (PF), claro que autorizada por um Juiz Federal, coincidentemente da “República de Curitiba”. A pirotecnia a que muitos se referiram ao atual episódio é o mesmo a tantos outros ocorridos em operações da Lava-Jato. Nem de longe se pensar que seja eu contrário a todos esses procedimentos investigativos, pois, se assim fosse, estaria eu conivente com a corrupção. Minha vida pública é um livro aberto a demonstrar de que lado sempre estive. O que me incomoda mesmo é a imaginação e o esmero com que são batizadas tais operações, uma reprodução tupiniquim até mais inteligente de um modelo existente nos Estados Unidos da América – para exemplificar, o quão me lembro da Operação Tempestade no Deserto, uma ofensiva bélica por ocasião da cognominada Guerra do Golfo. Além do nome de batismo, o roteiro é imutável, pois comboios são mobilizados antes do sol nascente e num vapt-vupt cidadãos fora-da-lei, ou simplesmente suspeitos, são surpreendidos de pijamas ou de cuecas, algemados sem necessidade alguma e levados pro xilindró. Os mandados judiciais têm sido expedidos para prisão temporária, que acabam durando meses ou dobrando mais de um ano, por mais que advogados competentes tentem invocar direitos constitucionais para que o acusado se defenda em liberdade. Tudo isso acaba em aplausos, seja de gente escolarizada, analfabeta, mas, principalmente pela classe média aculturada pela internet.
Se a paralisia ou a quebradeira das empreiteiras da construção civil, envolvidas no conluio com políticos e altos funcionários do governo, acabou recebendo um ‘bem feito’ por parte da população, a divulgação de supostas fraudes e corrupção dentro dos frigoríficos foi um tiro no pé das autoridades responsáveis. Num primeiro momento a receptividade foi boa, porque o noticiário maquiado pela grande mídia vitimizava os consumidores de carne. Afinal de contas estávamos comendo carne misturada com papelão, conforme editado de interceptação de ligação telefônica, ou então aditivos causadores de câncer, ou ainda carne podre. Entretanto, as reações em contrário foram surgindo. Os ministros da Agricultura e da Indústria e Comércio checaram melhor as denúncias, aprovaram as investigações, mas saíram em defesa da qualidade da carne brasileira. Blairo Maggi, ministro da Agricultura, Pecuária e Abastecimento (MAPA) adentrou um frigorífico denunciado, na Grande Curitiba, levando uma comitiva de técnicos e até uma repórter da televisão chinesa, concluindo mais tarde: “as falhas são apenas pontuais”. Ele tem razão, pois as denúncias envolvem apenas 21 unidades de processamento de produtos de origem animal dos 4.837 existentes no País, segundo uma das associações do setor. O presidente da Associação Brasileira de Proteína Animal (ABPA) qualificou a ação de “exagerada”. Também o presidente da Associação Brasileira das Indústrias Exportadoras de Carne (ABIEC), prevendo a magnitude do estrago que estava sendo feito num setor que vinha crescendo a passos largos, desde os governos de Lula e Dilma, afirmou que provocaram uma “crise desnecessária”. O engenheiro de alimentos e professor da Universidade Estadual de Campinas- SP (UNICAMP), Pedro Felício, declarou: “ a polícia agiu mal com a maneira com que divulgou tudo”. A professora da Escola Superior de Agricultura ‘Luiz de Queiroz’ (ESALQ), de Piracicaba-SP, Carmem Castilho, ponderou: “não é problema usar esses ingredientes, o problema é não respeitar os níveis permitidos”. Sabe-se que utilizavam ácido ascórbico além do previsto, mas ele nada apresenta de nocivo, pois é a própria Vitamina ‘C’, usada em todo o mundo para tirar a tonalidade marrom da carne, segundo o Prof. Pedro Felício. Deputados e senadores, principalmente os da Bancada Ruralista repudiaram a maneira como o assunto foi tratado pela PF. Em nota de 19 de março, o presidente Michel Temer, em um dos trechos, diz: “somente em 2016, foram expedidas 853.000 partidas de produtos de origem animal do Brasil para o exterior e apenas 184 foram consideradas, pelos importadores, fora de conformidade, muitas vezes por causa de temas não sanitários, como rotulagem e preenchimento de certificados”.
As investigações relativas à carne brasileira começaram dois anos atrás a partir de denúncias de que estudantes de Curitiba estavam comendo salsicha de peru sem a presença desta carne, ou seja, havia mais proteína de soja, fécula de mandioca e carne de frango, ingredientes comuns nos embutidos, mas, no caso, em excesso, não nocivas, porém uma fraude. Os desvios de qualidade existentes têm sido esclarecidos como pontuais, porém divulgados de maneira precipitada e generalizada, causando pânico no mercado interno, que consome 80% da nossa carne (7,6 milhões de toneladas) e cancelamento de contratos por parte de países importadores, que consomem os 20% restantes (em torno de 2 milhões de toneladas). Medidas de restrição às importações de carne brasileira partiram da União Europeia, do Chile (6º maior comprador), Japão, Egito, Argélia, México, China e seu território autônomo, Hong Kong. A Coreia do Sul, que chegou a entrar no rol dos embargantes, deu-se por satisfeita com as explicações de nossas autoridades, suspendendo sua decisão inicial. Os prejuízos com as vendas externas já afetam a nossa cambaleante economia e tendem a se agravar caso a nossa diplomacia e nossas autoridades sanitárias não revertam a situação em curto prazo. No plano interno, milhares de empregos estarão sob risco; ocorrerá a desestruturação de pequenos granjeiros, que produzem para empresas como Perdigão, Seara e Sadia. Conforme LCA Consultores, nesse diapasão o Produto Interno Bruto (PIB) do Brasil poderá sofrer uma queda de 1% em função da atual crise da carne.
Se fosse eu uma alta autoridade enquadraria com mais rigor os subordinados em questões sanitárias como essa. Aliás, na condição de prefeito dei uma enquadrada na vigilância sanitária municipal nos idos de 2005, que estava a jogar no lixo produtos sem ou mal rotulados. Como deputado, combati os absurdos dos fiscais sanitários do Estado que confiscavam e jogavam fora os tradicionais queijos da Serra da Canastra ou o mel embalado fora das rigorosas regras estabelecidas por burocratas sanitários. Nessa gritaria do resto do mundo contra a nossa carne – de elevada qualidade, convenhamos – fico a matutar que tem tanta gente nos cutucando, mas que come escorpiões, cachorros e outros bichos. Não é lá muita hipocrisia? Ah! Rebatizaria a operação como Tempestade num Copo d’Água!

[email protected] – O autor é médico, foi prefeito de Muzambinho (1989/92; 2005/08) e deputado estadual-MG (1995/98; 1999/2003).