BRASIL 2017 – ou vai ou racha

Publicado em 15/09/2017 - marco-regis-de-almeida-lima - Da Redação

BRASIL 2017 – ou vai ou racha

Falar em crise no Brasil é chover no molhado, pois os desfrutantes de senhas prioritárias, em decorrência da quilometragem, ouvem falar em crise desde a barriga de suas mães. Ah! Estava me esquecendo de que entre 1930/45 e 1964/82 não existia crise, ou melhor, não se falava nela, porque as respectivas ditaduras proibiam essa palavra. Num contexto mundial, nossa crise seria endêmica o que os profissionais da saúde poderiam melhor esclarecer como uma espécie de epidemia localizada e quase que permanente. Trocando em miúdos seria como que se a malária pudesse ser contraída na região amazônica ou a esquistossomose ou a doença de Chagas, em algumas regiões brasileiras. Mas, a propaganda de um candidato, em horário político gratuito, falava através de uma voz estridente: “a crise é de caráter”!  Coincidentemente, esse candidato e eu fomos eleitos em 1994 e convivemos durante quatro anos na Assembleia Legislativa de Minas Gerais. Ele apenas filosofava e se indignava com a falta de caráter, eu ia um pouco mais além: denunciava e partia para a briga. Ambos sucumbimos, ele com um e eu com dois mandatos, enquanto que muitos desse “sem caráter” sobrevivem, pois são os eleitores “sem caráter”, que lhes dão mandato, pois admiram suas “bondades e benemerências” da mesma maneira que certas pessoas admiram e louvam certos traficantes nos morros cariocas – só para exemplificarmos uma jurisdição do país.

Se a localização planetária do Brasil nos tem poupado de cataclismos como vulcões, furacões e terremotos, o caráter de parte da nossa população convergiu seus perfis para que, na atualidade, se produzissem faíscas, estrondos, choques e rupturas, que estão a repercutir em todas as instituições brasileiras, não fazendo diferença se públicas ou particulares, muito menos se da classe política, do judiciário, de funcionários públicos de carreira ou carreirista da política. Nem tudo acontece de uma vez, de momento. Vejam que furacões devastadores, que chegam ao Caribe e aos Estados Unidos, tiveram sua formação na costa oeste da África, como um simples redemoinho, que vai Atlântico adentro, chupando água e acelerando sua velocidade, até atingirem grandes porções de terra aonde causam destruição e perdem força, a exemplo do último, o furacão IRMA, cujo ápice atingiu um diâmetro de 600 km, somente o seu olho, 40 km, e ventos de 300 km/h.

Depois do julgamento do Mensalão, veio a Operação Lava Jato,  iniciada em 17 e 20 de março de 2014. Na verdade, ela foi a fusão de quatro operações: Op.Dolce Vita/Nelma Kodama + Op.Bidone/Alberto Youssef + Op.Casablanca/Raul Srour + a própria Lava Jato/Carlos Habib Charter. Na verdade, escutas telefônicas de Habib Charter, autorizadas pela Justiça desde 2013, investigavam crimes de lavagem de dinheiro envolvendo o ex-deputado federal José (Mohamed) Janene, ex-Líder do PP – Partido Progressista, já falecido, com uma rede de postos de combustíveis, daí o nome da operação. Tais escutas revelaram a estreita ligação entre as quatro organizações criminosas, uma delas envolvendo Alberto Youssef, que dera um carro de luxo como presente a Paulo Roberto da Costa, Diretor da Área de Abastecimento da Petrobrás, puxando-se um fio de meada que parece não ter fim, mas que precisa ser limitado sob pena dessa parafernália criminosa perder sua força a maneira dos furacões (mas existe na Força-Tarefa de Curitiba uma obsessão pela condenação de Lula, que vai pondo uma cambada de ladrões em casa com tornozeleiras eletrônicas, até sem elas como era o caso do contumaz ladrão Gedel Vieira Lima, o homem dos 51 milhões, que delinque desde os 25 anos de idade).

Em abril de 2014, o substituto do cearense Roberto Gurgel como Procurador-Geral da República, o mineiro Rodrigo Janot Monteiro de Castro, monta uma Força-Tarefa de Procuradores Federais para atuar na chamada Lava Jato, ao lado da Polícia Federal do Paraná e do Juiz Sérgio Moro, da 13ª. Vara Criminal Federal, de Curitiba-PR. Temos de considerar que ambos os procuradores-gerais, indicados para um mandato de dois anos e mantidos por mais dois anos, são frutos dos governos petistas, que obedeceram ao primeiro nome de uma lista tríplice tirada em eleições do ANPR – Associação Nacional dos Procuradores da República – cuja lista o Presidente da República não tem a obrigação de seguir nem mesmo dela escolher. Há de confrontar que na segunda feira (18), tomará posse a sucessora de Janot, Raquel Elias Dodge, escolhida por Michel Temer e que foi a segunda colocada na última votação da ANPR. Segundo especulações da imprensa nacional o primeiro mais votado era o preferido de Rodrigo Janot, detestado por Temer, acusador da chapa Dilma-Temer no julgamento pela cassação da mesma no TSE, além de ser irmão do governador do Maranhão, Flávio Dino (PC do B-MA). Antes dessa nova era, não era bem assim. Temos que rememorar que nos tempos do Governo FHC, houve um Procurador-Geral apelidado de “Engavetador-Geral da República” – e não foram poucos os escândalos.

São inumeráveis tais escândalos desde os anos 1990, nada a ver com o Engavetador na minha listagem, apenas para uma exemplificação de crimes e autores. Eis alguns: Banespa; Jorgina Freitas/INSS; PC Farias; Pasta Rosa; Anões do Orçamento; Construtora Encol; SIVAM; Bingos; Senador Luís Estevão; Juiz Federal Nicolau Santos e o Fórum do TRT-SP; PRIVATIZAÇÕES DO FHC; Bancos Econômico, Nacional, Panamericano e Bamerindus; Fundos de Pensão; Máfia das SANGUESSUGAS; Fundos de Pensão, etc.

Outrora, lá na Colônia, outros escândalos: o suborno dos índios com bugigangas; os governos-gerais; as capitanias hereditárias; a mineração do ouro e diamantes, a ESCRAVIDÃO NO BRASIL. Hoje, juízes vendendo sentenças, vereadores envoltos em escabrosas diárias de viagens, enquanto se vendem a deputados estaduais e federais por migalhas parlamentares “para o bem do povo e do município”.  Tudo se confunde. Tudo se avoluma. Não há sonhos nem utopias. O dinheiro é o deus oculto de uma sociedade sem princípios nem ética. As drogas são uma conseqüência dessas desilusões, de uma falta de perspectiva de vida, levando a outro tipo de bandidagem diferente da que abordamos, estampando uma violência quase que banal e recheada de frieza. Mas, os bandidos desse tipo de violência entendiam que os bandidos ricos, os de colarinho branco estavam impunes e eles buscavam a mesma impunidade. Oxalá que o quadro atual desnudado, com empresários, políticos, juízes, promotores, sendo desmascarados, presos por quaisquer períodos que sejam, com ou sem tornozeleiras eletrônicas, que tudo recoloque a atual sociedade brasileira dentro da realidade de uma vida tão passageira.

*Marco Regis é médico, foi prefeito de Muzambinho (1989/92; 2005/08) e deputado estadual-MG (1995/98; 1999/2003) – [email protected]