Assunto sério no Brasil somente depois do carnaval

Publicado em 05/02/2016 - marco-regis-de-almeida-lima - Da Redação

Assunto sério no Brasil somente depois do carnaval

Estou de volta, com a permissão deste incansável e imprescindível  semanário.  Daqui prá frente, vou precisar do interesse e da paciência dos leitores. Na boa, eu mesmo concedi um janeiro inteiro de repouso para os meus neurônios escreventes e seus respectivos circuitos neurotransmissores. Eles andavam demasiadamente aquecidos de tanto uso nas minhas escrivinhações semanais. Portanto, uma pausa dessas deve ter sido suficiente para o seu resfriamento. Ainda mais que, tendo chovido bastante, uns bons pingos d’água na cabeça ajudaram nesse processo de desaquecimento.

          Mas, enganam-se aqueles que acham que estive hibernando durante esse sumiço. Pois, é isso que fazem certos animais que vivem em regiões extremamente frias. Certas épocas eles somem porque, sem alimentos ou presas no seu território, eles reduzem ao máximo a sua respiração e os seus batimentos cardíacos, enfim o seu metabolismo corporal, entrando em um sono profundo, um estado letárgico, onde reduzem ao mínimo o gasto de suas reservas orgânicas.

          Longe disso, pois não vivo em regiões árticas nem necessito desse ócio biológico. Afinal de contas, sou um setentão e o tempo que me resta de (sobre)vida não me parece suficiente para saciar a minha fome de aprendizado e de conhecimento e, muito menos, para economizar minhas energias nas intermináveis batalhas terrenas.

          Feitas tais considerações, torna-se fácil a dedução de que me aproveitei desse descompromisso mental para cultivar o lado familiar, visitar amigos, conhecer pessoas e lugares situados no mapa da minha vida. Nada de viagens turísticas, muito menos internacionais, pois, para mim, passaporte continua sendo documento desnecessário e inexistente.

          Nesse janeiro, o noticiário midiático do nosso País transitou pela violência apocalíptica dos tempos atuais – ou finais? – e pelos estragos humanos e materiais causados pelas – ainda assim – benditas chuvas. Segui a minha rotina, lendo jornais, revistas e livros pelas metades; ouvindo rádio em certos momentos; vendo TV;  e conectando-me à internet sem a submissão que tentam nos impor, mas, no estritamente necessário – como neste momento,  em que me encontro nos confins da divisa Minas-Rio, nas entranhas da serra da Mantiqueira.

           Devido às justas férias do Congresso Nacional e dos tribunais superiores de justiça, nesse pedaço de tempo, não surgiu “frisson” algum proveniente de Brasília. Mas, o vazio político e judicial se tornou fértil “para o plantio de notícias” por parte da grande imprensa empresarial. Mais interessante para esse setor foi o cultivo do lixo dos vazamentos da chamada Operação Lava Jato, ao que tudo faz crer, da lavra da polícia “política” federal do Paraná. Claro que, nestes casos, com uma ajudazinha do laborioso e kafkiano Ministério Público Federal sediado no mesmo Estado. Esdrúxulo é que isto esteja acontecendo diante de quem manda nessa Polícia – o ministro José Eduardo Cardozo – sendo os atingidos seus velhos companheiros.

           Nesta semana, ocorreram sessões solenes de reabertura do ano legislativo para todos os níveis parlamentares no Brasil, bem como no Supremo Tribunal Federal. Dos ministros deste augusto Tribunal, dos deputados federais e senadores poderão vir novas emoções para nós brasileiros depois do Carnaval.

          O janeiro deste novo ano, felizmente, transcorreu sem o impacto de grandes tragédias mundiais, que alimenta certos meios de comunicação. O corriqueiro – que já nos parece bastante trágico – parece pouco satisfazer aqueles de idéias mórbidas. Pois, continuou morrendo gente nas guerras fratricidas do Iraque, Afeganistão, Síria e Líbia – que viveram tempos senão gloriosos pelo menos habituais à humanidade até serem desestruturados por intervenções dos Estados Unidos da América. Chuvas por aqui e nevascas por lá também         mataram neste começo de ano.

            Além disso, o noticiário nacional e internacional do primeiro mês do ano nos ofertou temas interessantes para quem gosta de polêmica – como eu. Na verdade não tenho o gosto pela polêmica, mas tornam-se polêmicas os fatos como eu os vejo. Por exemplo, o crescimento de uma candidatura socialista à presidência dos Estados Unidos; as acusações recentes contra Vladimir Putin pela morte do espião duplo russo, Alexander Litvenenko, em 2006, em Londres; o confinamento há mais de três anos do australiano Julian Assange, um dos fundadores do Wikileaks, por revelações que mancham a democracia ocidental; a vinda para o domínio público do famoso livro de Hitler, “Mein Kampf”, censurado durante 70 anos por quem “defende” a liberdade de pensamento e de imprensa; o silêncio do governo brasileiro ao indicado, Dani Dayan, como embaixador do Estado de Israel no Brasil, desde outubro do ano passado, em face o mesmo ser morador e líder dos territórios árabes anexados pelos israelenses,  através de guerras e sob condenação das Nações Unidas; as ameaças do “deus-mercado” ao governo brasileiro, através dos recados da imprensa empresarial; e a tentativa de desconstrução dos governos Lula e Dilma. Todos estes assuntos foram noticiados isolados ou sistematicamente durante o mês passado. Vendidos ao público como uma espécie de notícias ou “alimentos” saudáveis. Do jeito como a grande imprensa sabe e gosta de manipular.

 Eis que estou de volta para demonstrar a falsidade e a toxicidade dessas notícias!

*[email protected] mail.com – Marco Regis é médico, foi prefeito de Muzambinho (1989/92;

2005/08) e deputado estadual-MG (1995/98; 1999/2003).