AS ESTAÇÕES DA MINHA VIDA

Publicado em 26/02/2016 - marco-regis-de-almeida-lima - Da Redação

AS ESTAÇÕES DA MINHA VIDA

Abençoado por uma vida longa e, também, atenta aos acontecimentos dessa trajetória, fiz da minha existência um permanente palco de emoções. Desde criança, vivi as eventualidades mais simples com intensidade; as mais adversas e trágicas as transpus com serenidade e como aprendizado; enfrentei os momentos polêmicos com ardor; e os felizes com lágrimas incontidas.
Não sei se algum escritor ou poeta teve a iniciativa de dividir a nossa vida analogamente às estações do ano. Na minha concepção, a primavera corresponderia ao período entre o nascimento e a adolescência; o verão, dos vinte aos quarenta anos de idade; o outono entre a partir dos quarenta até aos sessenta anos; finalmente, daí em diante, entramos no inverno, cada vez mais frio quanto mais se alongam os anos.
Mas, na realidade, o que desejo expressar como estações da minha vida estaria sintetizado dentro da primavera que acabo de classificar. Assim é que na primavera do meu existir, literalmente, habitei estações – prédios ferroviários. Foram muitas, todas modestas, mas confortáveis na sua estrutura física. Em muitas delas o conforto interior inexistia, pois ainda não havia interior a fora os eletrodomésticos como a geladeira e a televisão. O fogão era a lenha. Nem imaginar fogões queimando gás liquefeito. Enfim, minhas moradias foram estações ferroviárias. Não nasci numa delas como se poderia deduzir, pois, nasci em uma casa da Rua da Aparecida, em Guaxupé, nestas paragens do sudoeste de Minas Gerais, sob a assistência do Dr. Coragem – Antonio dos Santos Coragem – cercado pelo zelo das minhas tias-avós, Francisca Bonelli Maciel e Hercília Bonelli Bufoni, e da prima em segundo grau, Cotinha. Sou fruto do casamento de um modesto telegrafista da Companhia Mogiana de Estradas de Ferro, Antonio Silveira Lima, com a jovem professora formada pela antiga Escola Normal de Muzambinho, Hilda Boneli de Almeida. Eles se conheceram em Monte Belo, uma das estações da ferrovia em que meu pai cobria folgas semanais de colegas, no extinto ramal de Juréia.
Posteriormente, começaria minha saga pelas estações da minha vida. Meu pai foi promovido a Chefe-de-Estação, iniciando essa carreira no Posto Telegráfico de Anil, na área rural de Uberaba, cidade e região onde moravam seus familiares, eis que ele era natural de Conquista, nas mesmas vizinhanças. Nessa localidade, onde eu começara a andar, lembro-me da primeira surra e do primeiro castigo a mim impostos, em decorrência da perigosa peraltice de escapar do controle dos pais e atravessar de um lado para outro debaixo do vagão de um trem, que ali estava em breve parada.
Veio nova remoção, vindo a família se estabelecer na estação de Jaboti, de novo nos limites territoriais de Guaxupé, no curto ramal de 30km que ia até Biguatinga, município de São Pedro da União, trecho que servia de escoadouro da produção cafeeira desse município, bem como de Jacuí, Juruaia e Nova Resende. Eu tinha medo da minha casa, pois, além do lugarejo ser desprovido de energia elétrica, durante a noite, com o resfriamento do madeiramento da estação, ele provocava sonoros e assustadores estalos. Foi um tempo de estreitamento dos liames familiares, pois o tempo parecia passar muito devagar. De modo geral o trem de passageiros, com um ou dois vagões cargueiros, ia e vinha apenas três vezes por semana. Nas épocas de colheita às vezes circulava algum reforço. Meu pai aproveitava o tempo livre de vários modos: ora cultivando arroz às margens da linha férrea ora procurando moradores rurais, usando um chapéu de abas largas para se proteger do sol, carregando um tronco de árvore horizontalmente nos ombros, em cujas extremidades se dependuravam balaios, um de cada lado, os quais voltavam quase sempre cheios de ovos, que comprava e, depois, revendia para fregueses de Campinas, despachando-os, regularmente, como encomendas. Lembro-me do meu pai sempre a dizer que essa atividade extra lhe rendia economias para os futuros estudos dos filhos, que seríamos seis. Vez ou outra íamos de charrete até Guaxupé, sempre passando pela casa de uma família de sobrenome Prudente. Foi em Jaboti que tomei conhecimento do primeiro grande furto na minha vida: certa manhã, a venda defronte à estação amanheceu com um buraco em uma de suas paredes, por onde um andarilho entrou e surrupiou parte do estoque do comerciante.
Nos anos de 1950/51, fomos morar em Juréia, ocasião em que “seu” Antonio, futuramente, o da farmácia do Cassinho, em Muzambinho, licenciou-se da Mogiana para tocar uma farmácia no distrito, em sociedade com meu avô, Antônio Bueno de Almeida, farmacêutico em Monte Belo. Foi então que iniciei meus estudos primários, tendo o orgulho de ser aluno de minha própria mãe – na única oportunidade que ela exerceu sua profissão. Do lugar, não há como esquecer a movimentação que representava ser ali um entroncamento ferroviário entre a Mogiana e a Rede Mineira de Viação, sendo que esta fazia a ligação com Cruzeiro-SP e com a Capital Mineira. Cada uma delas se utilizava de um dos lados da estação de madeira e de um viradouro em comum. Foi o apogeu de Juréia, hoje, felizmente, em fase de recuperação do progresso.
Percebendo que uma aposentadoria pela antiga profissão seria mais segura e confiável, meu pai retorna às lides ferroviárias, sendo designado como chefe em Tanquinho, a 20km de Campinas, onde estudei os 2º e 3º anos primários. Era uma estação rural pertencente à linha-tronco, que demandava as mais variadas direções de São Paulo e Minas Gerais, partindo da sede campineira. Tinha a peculiaridade de ser o lavatório dos vagões de gado, que enchiam tanques de esterco animal, vendidos ou doados pela própria companhia. Já em quatro irmãos – eu, Carlos, Milton e Leda – nos divertíamos com o intenso movimento de trens de passageiros e de cargas que, muitas vezes, se cruzavam na estação. A gente passou a conhecer melhor tipos de locomotivas a vapor – algumas por combustão de lenha, a maioria, as “alemãs”, por queima de óleo cru – e as primeiras e modernas diesel-elétricas. Passavam longas composições de vagões-tanque, com gasolina; vagões rasos transportando a bauxita de Poços de Caldas para as indústrias paulistas de alumínio. Trens de passageiros com as plaquetas laterais indicando os mais diferentes destinos: Jaguariúna, Amparo, Serra Negra, Socorro, Casa Branca, Ribeirão Preto, Araguari, Igarapava, Poços de Caldas, Guaxupé, e até Biguatinga, veja só. Havia um trem noturno de ida que passava em torno das 22h e o que chegava ao amanhecer com passageiros de quase todas essas cidades, passando velozes. Nunca vou me esquecer dos trens regulares e especiais, lotados de romeiros, que iam e vinham de Tambaú, em visita ao milagroso Padre Donizete. Também nunca me esqueci do dia em que meu pai se dirigiu ao desvio para receber o “estafe” (apetrecho tipo argola, que era trazido com a mensagem autorizativa de circulação da estação precedente, trocado por outro para ser deixado na procedente) de um trem cargueiro lento e barulhento, enquanto outro trem de passageiros procedente de Ribeirão Preto surgiu na linha principal do lado oposto, rápido. Num momento de distração, meu pai estende o braço direito para a recepção do tal estafe e, sem ouvir meus gritos e do meu tio Haroldo Boneli, que nos visitava, vira-se para retornar à plataforma e é colhido pela composição de passageiros que, felizmente, fazia parada normal em Tanquinho. Quando o trem pára, corremos por entre os trens imaginando encontrar meu pai “picadinho”. Eis que ele é trazido para o vagão do guarda-trem, com olhar estático, mas vivo, sem qualquer mutilação, mas com um dos lados do boné de chefe ainda preso à cabeça e cortado em um dos lados, bem como cortado o bico de um dos sapatos e o ombro de um paletó. Safou-se milagrosamente, mas foi levado para Campinas, onde passou uma noite em observação hospitalar.
Finalmente, em 1955, atendendo os anseios de minha mãe de voltar para Monte Belo e havendo vagado esta estação, retornamos de mudança para o nosso meio familiar. Era uma estação de muito movimento de cargas, principalmente pelo açúcar da Usina Monte Alegre. Era a única da região que possuía um estratégico embarcadouro para gado e eqüinos nem sempre utilizado. Foi nesse embarcadouro que idealizei e promovi campeonatos de futebol, com Liga, venda e troca de jogadores, que era o deleite da molecada de Monte Belo. Foi tanto o sucesso que tive de transferir tudo para o Estádio Municipal e ampliando para todos os jogadores da cidade. Nunca me esqueci dos times que organizei e que polarizavam as torcidas: Guanabara, Guarujá, Cruzeiro e o meu – o pior, para que ninguém reclamasse, o Municipal, uma homenagem a um clube peruano.
Sempre que posso ou tenho saudades, passo nas imediações da velha estação de Monte Belo, agora transformada em Rodoviária. Ali, eu mais meus pais e meus irmãos vivemos anos modestos, mas felizes, com o acréscimo da querida irmã Sandra e a perda do ainda lactente Luís Sérgio, devido a uma broncopneumonia. Nela um dia peguei um trem que simbolizaria a minha ruptura com um passado jovial e descompromissado em busca do sonho de me tornar médico. Bons vaticínios e rezas de “Sá” Licota Tranches, na hora da partida do trem, me confortaram. Antes, de todos me despedi em Muzambinho e Monte Belo, como que nunca mais fosse voltar em definitivo para esta região. Intangível é o futuro, pois recebi as bênçãos da volta, retornando ao convívio das minhas “três terras natais”: Guaxupé, Monte Belo e Muzambinho.

*[email protected] – Marco Regis é médico, foi prefeito de Muzambinho (1989/92; 2005/08) e deputado estadual-MG
(1995/98; 1999/2003)