AS CHUVAS ABENÇOADAS ESTÃO DE VOLTA

Publicado em 23/12/2015 - marco-regis-de-almeida-lima - Da Redação

AS CHUVAS ABENÇOADAS ESTÃO DE VOLTA

De repente, a água que parecia infindável e habitualmente integrante do visual do nosso cantinho sul-mineiro começou a escassear. Nos últimos três anos o Mar de Minas, como foi batizada a represa de Furnas, viu suas águas se afastarem cada vez mais das beiradas das nossas rodovias, dos restaurantes e pousadas panorâmicas que foram construídos às suas margens e de muitas cidades existentes na sua orla. Se o fenômeno atingiu esse mundão de águas, como não haveria de secar reservatórios de abastecimento de muitas de nossas cidades e nascentes por todos os cantos. Até, pela primeira vez, isto aconteceu onde brota o Rio São Francisco, no município de São Roque de Minas, no Parque Nacional da Serra da Canastra, distante uns duzentos quilômetros da sede deste jornal.

              O pânico começou a se alastrar, pois o noticiário da televisão começou a mostrar a redução dos reservatórios hídricos, que abastecem a Grande São Paulo, tornando o solo delas como verdadeiras rachaduras estampadas na aridez nordestina do Brasil. Por falar nisso, o miolão desse nordeste tem ciclos de pouca chuva e de chuva zero. Ali a seca sempre foi um algoz implacável – razão de muita pobreza, também de muita tenacidade dos seus habitantes, decorrendo um verdadeiro bordão: “o nordestino é, antes de tudo, um forte”. Na verdade, a frase verdadeira é do escritor de Canudos, Euclides da Cunha, que, em “Os Sertões”, cravou: “o sertanejo é, antes de tudo, um forte”, quando descrevia de forma magistral a paisagem e o povo do sertão do nordeste brasileiro.

             De qualquer jeito, não podemos nos esquecer que vivemos num planeta do sistema solar, cujo bem maior e responsável pela vida, tal qual a conhecemos, é a água. Se o nosso planeta tem topografia, vegetação, clima e espécies animais diversificadas, nunca é demais lembrar que ele é formado por uma parte de terra e três partes de água. Também é interessante lembrar que o homem é composto na maior parte por água, em média 65%. O que não é muito diferente em todos os tipos de animais existentes, desde a microscópica ameba até o complexo ser humano.

             Nessa viagem, quero conclamar a todos que me lêem nesta ocasião, que vão ao Google e acessem Guilherme Arantes e a sua música “Planeta Água”, no www.vagalume.com.br, verdadeiro hino da ecologia, ouvindo-a como se fosse uma oração. Empolgado que eu era com o cantor e sua música, tive a chance de usufruir de momento único, assistindo a um “show” dele em Muzambinho, na Escola Superior de Educação Física, no final da década de 1980, ocasião em que eu acompanhava minha filha adolescente, Fabíola. Como é suave meditar sobre versos dessa música, como que enlevado por acordes planetários:

 

“Água que nasce da fonte serena do mundo

e que desce um profundo grotão.

Água que faz inocente riacho

e deságua na corrente do ribeirão.

[...] Terra, Planeta Água! Terra, Planeta Água! Terra, Planeta Água!”

 

               Então quero saudar, quero cantar essa música, enquanto vejo a chuva forte e volumosa cair em cima e ao redor da minha casa. Os galhos e as folhas das duas portentosas e aromáticas magnólias, plantadas há mais de duas décadas pela Adalete, se curvam ao vento e aos incessantes pingos d’água sobre o muro que dá para a rua.

                 Que bênção ter as chuvas de volta! Há muitos anos elas não vinham com a intensidade e a freqüência deste ano, desde outubro. Até os três primeiros dias deste mês, o lago de Furnas já havia subido três metros, segundo noticiário da TV Globo Minas. Os peixes livres ou da piscicultura estarão também de volta. Com eles os pescadores, os turistas, os empregos e a renda. A caixa d’água de Minas volta a encher. Rios como o nosso Muzambo, o Verde, o Machado, o Sapucaí e o Grande vão se juntar no Mar de Minas e irão alimentar outras represas do sistema Furnas, à frente. Em outra vertente, o rio São Francisco, escorre da Serra da Canastra, recebendo tantos outros afluentes, como o Jequitaí, o Rio das Velhas, o Paraopeba, o Paracatu, o Corrente, o Cariranha e outros. Ainda em Minas, forma a represa de Três Marias, da CEMIG, cujas águas vão formar o maior complexo de reservatórios do Nordeste – o complexo de Sobradinho, Xingó e Paulo Afonso, da CHESF, a Cia. Hidrelétrica do Rio São Francisco. Ele que é o rio da unidade nacional, tendo uma extensão de quase três mil quilômetros, passa por cinco estados e mais de quinhentos municípios de Minas, Bahia, Pernambuco, Alagoas e Sergipe, aqui desembocando no Oceano Atlântico.

                  A Natureza continua a nos ofertar água, elemento fundamental à vida terrestre. Apesar de todos os maus tratos que tem recebido do ‘bicho homem’. Ainda bem que os humanos despertaram para a realidade da vida planetária. O Acordo de Paris, dentro da 21ª Conferência sobre Mudanças Climáticas – a COP-21 – foi um grande avanço neste sentido, uma empreitada de governantes e de cientistas, que vem sendo construída desde a I Conferência Mundial de Meio Ambiente das Nações Unidas, 1972, Estocolmo. Faz poucos anos que o mundo começou a agir coletivamente neste sentido. Entretanto, foi a tempo!

 *[email protected] – Marco Regis é médico, foi prefeito de Muzambinho (1989/92; 2005/08) e deputado estadual-MG (1995/98; 1999/2003).