ALGO A VER ENTRE PARIS E A MINEIRA MARIANA

Publicado em 20/11/2015 - marco-regis-de-almeida-lima - Da Redação

ALGO A VER ENTRE PARIS E A MINEIRA MARIANA

          Para os estrangeiros nada deve sugerir que haja conexão entre a capital francesa, Paris, e a primeira capital de Minas Gerais, Mariana. Eles não devem estar nem aí para o Brasil, ainda mais para o desconhecido interior brasileiro. No entanto, dos meus tempos de adolescente, lembrei-me não propriamente de um parisiense, mas de um francês, que veio viver, pesquisar e ensinar naquelas paragens: Claude Henri Gorceix. Sobre ele se referia a sábia e inesquecível Professora de Geografia, Alice Cerávolo Paoliello, do decantado Colégio Estadual de Muzambinho, atualmente “Salatiel de Almeida”, que, se hoje consultada, talvez possa nos esclarecer qual livro didático dessa disciplina, e o respectivo autor, que trazia a famosa frase de Gorceix: “Minas Gerais é um coração de ouro num peito de ferro”. Eu gostava tanto desta expressão que a reproduzi, naquela época, para uma francesa de Aix-en-Provence, com quem me correspondia por cartas na linguagem espanhola.

Por certo que o citado mineralogista, geólogo, físico e matemático francês, trazido pelo Imperador D. Pedro II para fundar uma escola de minas em Ouro Preto, nos moldes da Escola de Minas de Paris, conhecendo melhor a região central do nosso estado – Nova Lima, Santa Bárbara, Mariana, Ouro Preto, Sabará, São João Del Rei e outros municípios – e encontrando jazidas de ferro e restos do ciclo do ouro, sintetizou tudo isso sobre Minas Gerais na célebre frase acima enunciada. Foi ele uma figura extraordinária na nossa formação educacional e científica que, embora tenha morrido no seu país natal, teve seus restos mortais trasladados para o prédio antigo da Escola de Minas de Ouro Preto, cidade que também abriga o Instituto Henri Gorceix.

Esse belíssimo cenário de fundo, unindo povos irmãos, vai ligá-los, nos dias atuais, particularmente para nós mineiros e brasileiros, por tragédias humanas. Os críticos mais simplistas dirão nada haver entre os acontecimentos de Paris e do município de Mariana. Questionarão eles como estabelecer uma comparação entre um ato deliberado, premeditado e insano – o atentado de Paris – com outro, uma fatalidade da natureza, no máximo um erro de cálculo humano – a ruptura de barragens contendo rejeitos de mineração.

Continuarei me atrevendo a estabelecer um elo entre Mariana e Paris. Se o terrorismo ceifou mais de uma centena de vidas, alheias à política e à religião, que se divertiam em casa de espetáculos e restaurantes, pode parecer muito, confrontada com duas dezenas de gente simples e trabalhadora, que morreu no distrito de Bento Rodrigues, município de Mariana. Entretanto, as dimensões daqui se equivalem ou suplantam as de lá, porque a lama, de início tsunâmico, além de matar pessoas aniquilou o povoado em que viviam. Mais do que isso, exterminou todo tipo de vida vegetal e animal que encontrou pelo caminho. A natureza indefesa não escapou do mar de lama por onde ela passou. Imagine essa lama matando e quase que cimentando seres humanos, vegetação rasteira, musgos, cogumelos, arbustos, árvores, animais domésticos, insetos, anfíbios, répteis e aves nos seus ninhos. A seguir, tomou a calha do Rio Doce, poluindo-o 500 km à frente e com o sacrifício de peixes e viventes das águas, inclusive e provavelmente, na sua chegada ao oceano, no estado do Espírito Santo. Sem se contar os transtornos para o abastecimento de água para consumo humano e de animais em dezenas de municípios às margens do Rio Doce e seus afluentes. Talvez tenha havido a extinção de muitas espécies da fauna e da flora.

 De um lado, o atentado terrorista destruiu e mutilou vidas humanas, projetos pessoais e a impressão utópica de liberdade, na França. Em artigos anteriores, já tive a ocasião de me manifestar a respeito da “cegueira e do ódio vingativo do Estado Islâmico”; ao jogo do faz de conta dos franceses, americanos e outros aliados no combate ao mesmo, muito mais preocupados com outros interesses no Oriente Médio; da entrada prá valer da Rússia no conflito da Siria; e até das raízes do Estado Islâmico (ou ISIS ou ISIL), assuntos para releitura. Apenas acrescento que no programa “Globo News Painel”, apresentado após os atentados de Paris, cientistas políticos e professores de Direito ou Relações Internacionais como Gunther Rudzit, das Faculdades Rio Branco; Salem Nasser, da Fundação Getúlio Vargas; e Heni Ozi Cukier, das Escolas de Propaganda e Marketing, em debate, pareciam chancelar o que publiquei. Ressalvo que este último, em entrevistas ao Jornal da Globo e ao Jornal do SBT, no mesmo dia da ocorrência em Paris, opinava que a devastação do Iraque,  quando da ocupação americana, a partir de 2003, não seria motivação para as ações violentas do Estado Islâmico, ao que, daqui retruco que ele não deve ter tido parentes próximos torturados ou chacinados como aconteceu com Saddam Hussein e a minoria sunita iraquiana. Digo isso na busca de entender o comportamento atroz e bárbaro do Estado Islâmico, que não é a interpretação geral da sua religião, como afirmam outras correntes muçulmanas. Pessoalmente, repudio as atrocidades e a barbárie de quem quer que seja.

 Aqui, a antiga multinacional estatal – Companhia Vale do Rio Doce – privatizada por micho valor no Governo Fernando Henrique (veja o livro “Privataria Tucana), recebeu acionistas graúdos, que defendiam a sua desestatização, tornou-se apenas VALE, que ajuda sustentar com publicidade os grandes meios de comunicação. Todas essas manobras privatizantes eu denunciava nos idos de 1996/97, na Assembleia Legislativa de Minas Gerais. A VALE, que, segundo um leitor da ‘Folha de S.Paulo’, antes aboliu Rio Doce do seu nome, agora erradicou de vez o Rio Doce. Ela é a segunda maior mineradora do planeta e dona de 50% da SAMARCO, a empresa das barragens rompidas. A outra dona dos outros 50% é a BHP Billiton, a maior mineradora do mundo, anglo-australiana, que atua na Austrália e África. Ambas, então, são sócias na SAMARCO. Analistas sabem do caráter predatório das empresas de mineração e seu objetivo principal, o lucro desmedido, nem sempre dando a necessária atenção à vida humana e ao meio ambiente.

 Dessa maneira, vislumbro algo em comum e irrefutável nas tragédias humanas de Paris e de Mariana – a insensatez e o desprezo pela vida. Insensatez na forma capitalista de obtenção do lucro, colocando a vida humana e o meio ambiente em segundo plano. Da mesma forma, insensatez política e religiosa como forma de causar terror e pânico na população civil indefesa. A isso tudo se denomina de civilização humana.

*[email protected] – Marco Regis é médico, foi prefeito de Muzambinho (1989/92; 2005/08) e deputado estadual-MG (1995/98; 1999/2003).