“IMPEACHMENT” DE DILMA – O VENENO DOS ESCORPIÕES

Publicado em 22/04/2016 - marco-regis-de-almeida-lima - Da Redação

“IMPEACHMENT” DE DILMA – O VENENO DOS ESCORPIÕES

Tendo a convicção do entendimento da política, amanheci o dia da votação do impedimento da Presidente Dilma, na Câmara dos Deputados, com o coração apertado pela chegada da hora em que assistiria à consumação do golpe. Havia dias que vinha externando esse sentimento nas oportunidades em que o assunto, imperiosamente, vinha à baila. Diante dos que eram favoráveis ou contrários a um ato dolorosamente agressivo e traumático sempre tentava expor meus argumentos, realçando a defesa da democracia, da observância às regras do jogo. Mas, nesses últimos dias, já o fazia com a resignação daqueles que caminham resolutos e altivos para o patíbulo, para o cadafalso, para a forca ou para a guilhotina. Minha última parada, também minhas últimas palavras sobre o tema, foi no Restaurante do Paulão, no distrito de Moçambo, na margem da BR-491, onde preparei duas marmitex para o almoço, que, na realidade, meu filho Cristiano e eu somente as comeríamos lá pela meia noite. Dos contendores e amigos – Miltinho Martini e Nelma – aceitei e bebi dois copos de cerveja, numa celebração de divergência civilizada, enquanto o proprietário do estabelecimento me provocava com minhas próprias palavras ditas dias antes: se Dilma cair, caio junto, arrematando ele que “então teremos um candidato a menos para prefeito de Muzambinho”.

            Sintonizados ora na TV Brasil ora na TV Câmara, ainda assim teimávamos em dar chances à Globo ou à Bandeirantes. Porém estas não arredavam o pé da manipulação, cortando a veemência de alguns discursos contra o “impeachment” por comentários de seus repórteres, ou âncoras. Entretanto, as transmissões ao vivo fogem do roteiro, surpreendem, como aconteceu no voto do deputado Cabo Daciolo (PTdoB/RJ), que votou “sim”, mas a todos espantou quando se voltou para o setor de imprensa e esculhambou com a Rede Globo, imbuindo-se de dons proféticos para decretar o aniquilamento desse império da comunicação.

            Os partidários do golpe cometeram a bizarrice de endossá-lo das mais diversas maneiras, além do necessário “sim”. Poucos se utilizaram das duas reais acusações, que eram as chamadas pedaladas fiscais e a abertura de créditos suplementares em suposto desacordo com a lei orçamentária.  Em uníssono o faziam pelas respectivas mulheres, pais, filhos, tios, enfim, pela família e o futuro dela; também pelas suas cidades e estados. Apenas uma minoria tinha a consciência de invocar o povo brasileiro. Para ficarem bem com os milhões que acompanhavam as transmissões televisivas, apelavam, também, para problemas atuais como o desemprego, a inflação e a violência, enquanto poucos governistas foram capazes de refutá-los, contrapondo que milhões saíram da miséria, ou tiveram acesso à energia elétrica, ou receberam moradias dignas, ou adentraram em cursos técnicos, tecnológicos e universitários, ou mesmo, que tivemos períodos de baixa inflação e notas favoráveis do envolvente e maldito mercado.

            A declaração bizarra de votos foi apenas o emolduramento de um conluio e de uma conspiração arquitetada pela Oposição, que não engoliu a derrota nas urnas (PSDB-DEM-PPS-SD) e pelo PMDB do Vice-Presidente da República, Michel Temer, dos ex-ministros Moreira Franco e Eliseu Padilha e do Presidente da Câmara dos Deputados e verdadeiro réu da Lava Jato, Eduardo Cunha, que durante a votação foi chamado abertamente de corrupto, ladrão, gângster e palavras correlatas por 48 deputados votantes, tanto do “sim” como do “não”.

            Respeitando ou não o posicionamento dos deputados, não há como extirpar o caráter de ódio ao PT nas manifestações de grande parte dos votantes, chegando aos extremos por parte dos Bolsonaros, pai (PSC/RJ) e filho (PSC/SP), que defenderam a ditadura militar de 1964 e, especialmente, o cruel torturador Brilhante Ustra. Nem daria para se engolir o voto favorável ao “impeachment” de Alfredo Nascimento (PR/AM), que usufruiu cargo de Ministro dos Transportes, muito menos de Mauro Lopes (PMDB/MG), que até a antevéspera ocupou cargo de Secretário Nacional (com status de ministro) e que, cínica e vergonhosamente, virou a casaca com falso ar de nobreza. Muito confuso e incoerente foi Weliton Prado (PMB/MG), que militou no PT, votando “sim”, embora exaltando o primeiro mandato de Dilma e os dois de Lula. Por outro lado, três deputados federais mineiros devem ser reconhecidos por sua coragem de votarem contra o “impeachment”, expondo-se quando o resultado quase estava definido pela derrota de Dilma: Aelton Freitas (PR/MG), Brunny (PR/MG) e Pastor George Hilton, este, ex-ministro do Esporte, que se filiou ao PROS/MG para ter a liberdade de ser leal ao Governo, desfiliando-se do fanatismo religioso de seus companheiros do partido da sua religião – de Edir Macedo – o PRB. Outro voto que contrariou a maioria dirigente da sua religião, a católica, foi o do “carismático” Eros Biondini (PROS/MG). Aliás, foi lamentável o voto “em nome de Deus” de muitos parlamentares, mormente os dos evangélicos pentecostais, colocando-se a favor do golpismo e do “deus mercado”, que norteia a ideologia desse possível novo governo, com maçons à frente, em discordância com os princípios cristãos.

             Admitido o “impeachment” pela Câmara dos Deputados, o verdadeiro julgamento se fará no Senado Federal, onde a Presidente terá mais chances de defesa, inclusive de apresentação de provas e testemunhas. Mas os meandros conspiratórios continuam bem urdidos sendo remotas as chances de reversão. Até porque, não há dúvida, que, embora as opiniões continuem divididas, dois terços da população aprovam o golpe em face à crise econômica e pela orquestração golpista comandada pelos meios de comunicação, que é dominada pelo grande empresariado. Como na fábula do sapo e do escorpião, onde o dito anfíbio se negava a transportar o escorpião sobre o seu dorso, de um lado para o outro do rio, para não ser por ele picado, o que acabou acontecendo, apesar das promessas negativas do animal peçonhento, Dilma e Lula foram vítimas do PMDB e outros aliados, que, assim, também se comportaram.

            Resta a nós democratas – porque não somos do PT – o amparo do mesmo tipo de imprensa de outros cantos do mundo, como Europa e Estados Unidos. Paradoxalmente, a imprensa internacional taxa de golpe o que aqui ocorre e externa preocupação ao caráter corrupto daqueles que estão a engendrar este processo. Em assim sendo, ainda me resta o conforto de eu ter tido a clareza de haver publicado um artigo, quatro dias depois da vitória em 2º turno de Dilma Rousseff, neste semanário, com o título de: O BRASIL REAPRESENTA UM CENÁRIO DE GOLPE DE ESTADO (31-10-2014). Creio ter sido dos primeiros, senão o primeiro, que usou a expressão ‘golpe’ para a truculência que ora se tenta consumar. 

[email protected] – Marco Regis é médico, foi prefeito de Muzambinho (1989/92; 2005/08) e deputado estadual-MG (1995/98; 1999/2003).