A senha para a invasão da Venezuela

Publicado em 22/02/2019 - marco-regis-de-almeida-lima - Da Redação

A senha para a invasão da Venezuela

Essa historinha de data marcada - 23 de fevereiro de 2019 - para uma ação de ajuda humanitária à Venezuela carece de melhor interpretação. Está me cheirando um Dia D, que militarmente significa o desencadeamento de uma operação desta natureza, havendo sido celebrizada no 6 de junho de 1944, quando milhares de soldados anglo-americanos desembarcaram na Normandia, vindos pelo ar e pelo mar, para romperem o cerco nazista estabelecido na França.

Na realidade, faz uma semana que se prepara a entrada de alimentos e remédios norte-americanos na Venezuela a despeito da recusa do governo oficial desse país. Certamente que deva ser uma logística militar a serviço do governo de Donald Trump e com a ajuda de vizinhos,  melhor diria, com a cumplicidade principal da Colômbia, secundada por Brasil e as ilhas de Curaçau, Aruba e Bonaire, pertencentes ao arquipélago das Antilhas Holandesas, que ficam próximas da costa venezuelana. Enquanto isso, o verdadeiro usurpador da Venezuela, Juan Gaidó, um molecote que se autoproclamou ‘presidente’, organiza um voluntariado para receptar a parte principal do carregamento, que está armazenado em Cúcuta, na Colômbia, do lado de lá da ponte divisória entre os dois países, bloqueada simbolicamente por caminhões a mando de Nicolás Maduro. O restante entraria pela também fronteira terrestre com o Brasil, em Roraima, e por navios, quem sabe aviões, provenientes das ilhas territoriais da Holanda.

Embora o parlamentar Guaidó seja hoje reconhecido por cerca de 50 países como o novo governante da Venezuela, todos eles são aliados tradicionais e incondicionais dos Estados Unidos (EEUU), tais como a Europa e o Grupo de Lima, formado por países das 3 Américas. Não obstante as violações à Constituição promovidas por Nicolás Maduro, ainda assim ele é portador de credenciais para ser reconhecido como presidente, neste sentido se posicionando China e Rússia. Além do mais, o problema é de autodeterminação de um povo e somente ele deveria decidi-lo. A intromissão externa nessa questão mais do que afasta a possibilidade de uma solução interna, acentua a predisposição a um conflito fratricida. Exemplos recentes dessa ingerência já tivemos no Iraque e na Síria, ambos destroçados pela guerra. Foram dois desfechos diferentes diante da conjuntura mundial: no primeiro com a deposição e a execução de Sadamm Hussein com a complacência internacional; no outro, de nada valendo a pressão dos norte-americanos e seus aliados, com o aniquilamento das forças rebeldes por Bashar Al Assad, com o apoio da Rússia.

Torna-se um enigma e uma preocupação essa ação de ajuda humanitária programada para este final de semana. A despeito dos refugiados venezuelanos, que cruzam as fronteiras sul-americanas, os mais abastados do país, que se enriqueceram no passado à custa do sacrifício dos pobres e dos privilégios governamentais, continuam comendo do bom e do melhor, no bairro nobre de Las Mercedes, como nos mostrou pouco tempo atrás matéria de um jornal brasileiro.

Os fardos de alimentos e remédios podem estar sendo a senha para o desencadeamento de uma invasão estrangeira inaceitável à Venezuela. Ao meu ver, essas embalagens grandiosas não têm, verdadeiramente, o objetivo de minorar o sofrimento do povo. Seu propósito fundamental é a retomada do poder pelas elites, tendo o significado de um moderno Cavalo de Tróia.  Resta saber se o exército bolivariano está coeso com o ex-motorneiro do metrô caraquenho, ao menos com a ideologia bolivariana que tanto alardearam.  Ou, se vai oferecer a cabeça dele aos invasores, no momento personificados pelo usurpador Juan Guaidó.

*Marco Regis de Almeida Lima é médico, foi prefeito de Muzambinho (1989/92; 2005/08) e deputado estadual-MG (1995/98; 1999/2003)