A QUEDA DE DILMA E OS ROJÕES DOS INSENSATOS

Publicado em 23/05/2016 - marco-regis-de-almeida-lima - Da Redação

A QUEDA DE DILMA E OS ROJÕES DOS INSENSATOS

               Aprovada a admissibilidade do processo de julgamento da Presidente da República pelo Senado Federal, e seu consequente afastamento do cargo pelo período de até 180 dias, fogos de artifício estouraram por todos os lugares do País. Foi o que vimos pela televisão ou que escutamos aqui em Muzambinho. Não foi uma apoteótica comemoração de uma contenda que vinha sendo rotulada como um Fla-Flu, em alusão ao apaixonado clássico do futebol carioca, Flamengo contra Fluminense. Dada a disparidade das forças políticas, naquele instante, o foguetório esteve mais para uma vitória do Mengão em cima do Madureira, dada a inconteste supremacia da torcida flamenguista sobre a suburbana. Ainda mais que, em certos momentos, parcela da maioria vitoriosa se comporta mais comedida, denotando sentimentos mais reflexivos e apenas vê com comiseração a vitória do seu time, pois percebe que não somente contou com a fragilidade do adversário, também com o favorecimento do juiz e seus auxiliares. Eles sabem que o seu, hipoteticamente, Flamengo não está com essa bola toda, quando tiver que enfrentar clubes mais aguerridos como o Corinthians ou o Atlético Mineiro. Numa situação dessas, somente os ufanistas e recalcados chegam ao extremo do extravasamento utilizando-se do alarido dos fogos de artifício para tripudiar sobre o derrotado. Que compaixão, que nada! Para eles vale a teoria do gozo máximo nos jogos de futebol: se pudessem, gostariam que o seu clube ganhasse por um único gol de diferença, no período dos minutos de acréscimo, com um gol de mão visto e validado pelo árbitro, porque isto causa mais raiva, reclamações e ressentimentos. Para essa minoria agressiva, esse é o sabor da vida, nunca temendo o fogo do inferno.

             O processo de “impeachment” da Presidente tem transcorrido num ritmo assemelhado de time grande contra time pequeno, pois no nosso presidencialismo de coalizão quem não está habituado com o poder corre o risco de atuar como pequeno. Foi o que aconteceu com o Partido dos Trabalhadores – PT – que foi se metendo em enrascadas desde que perdeu um de seus principais companheiros, o falecido ex-Vice-Presidente, José Alencar, que fazia bem o meio de campo, aparando as inabilidades políticas do PT e abrindo-lhe os olhos para a sanha e as desmedidas ambições das elites empresariais e políticas, segmentos por onde ele teve a oportunidade de transitar na sua vitoriosa trajetória de vida. A morte ainda o poupou de ver as falcatruas cometidas por alguns de seus aliados petistas, transgressões que, antes, eram privilégio oculto e impune dos adversários do PT e convictos eleitores do “rouba, mas faz”.

            Portanto, o processo de alijamento temporário de Dilma, que tende a se converter em definitivo, não foi apoteoticamente comemorado, como dissemos no início deste artigo, porque os debates acalorados na Câmara dos Deputados e Senado da República, observados pela população através das redes de TV dessas Casas do Congresso, sem as insistentes e asquerosas manipulações de gente como Willian Waack, Renata Lo Prete, Boris Casoy, Bonner, Renata Vasconcelos e seus ancorados, clareou melhor os horizontes futuros. Impedimento, oposição, conspiração, tudo foi sendo entendido pela população como o popular “tapetão” do mundo futebolístico. Ou como escrevi na semana passada, era um baralho viciado, de cartas marcadas, sobejamente conhecidas no mundo da jogatina. O entusiasmo perdeu força e ficou restrito aos buscapés e canhões de artifício dos fanáticos de torcidas organizadas. Pois o povo foi entendendo esses meandros desde o placar dos 367 votos dos deputados federais, e claríssimo nos 55x22 dos senadores, quando já se especulava sobre o “futuro novo governo Temer”. Afinal de contas o Governo corrupto foi trocado por outro que fez parte dessa corrupção.

            Notícia veiculada pela revista “Carta Capital”, de 12-5-2016 aponta: “Sete Ministros de Temer são citados na Lava Jato”, listando Romero Jucá, Geddel Vieira, Henrique Eduardo Alves e quatro outros da lista da Odebrecht. Vale lembrar que o atual Ministro-Chefe da Secretaria de Governo, Geddel Vieira Lima, além de citado na Lava Jato, esteve envolvido anos atrás no chamado escândalo dos Anões do Orçamento. Diante disso, manifestam sua preocupação segmentos como a OAB, no portal G1, de 14-5-2016, e a Associação Nacional dos Delegados da Polícia Federal, conforme o repórter de política Fausto Macedo, de “O Estado de S.Paulo”, de 16-5-2016.

           Estamos diante de uma situação qual seja o desmascaramento lento e progressivo de uma farsa. Do uso da Constituição e suas brechas legais para a consumação de um golpe de estado, através de um mecanismo simplista, cujo precedente foi aberto no Golpe contra Collor, o golpe parlamentar, onde os Executivos eleitos pelo voto popular, em minoria nos legislativos, podem ser derrubados pelo conchavo das maiorias, enfim o estupro da Democracia. Agora, um novo governo, de pretensa salvação nacional, foi trocado por outro, de coalizão da conspiração, manchado de corrupção.

            Apesar da minha insignificância como articulista, e da dimensão regional deste semanário, sinto-me envaidecido de AQUI bradar minha voz de alerta contra este golpe desde 30 ou 31 de outubro de 2014. Posteriormente, adquiri o livro dos jornalistas Palmério Dória e Mylton Severiano, escrito depois das manifestações de rua em São Paulo, em 15 de março de 2015, “Golpe de Estado – O Espírito e a Herança de 1964 ainda Ameaçam o Brasil”, da Geração Editorial, 1ª edição, Junho de 2015, em cuja ‘orelha’ o Editor, Luiz Fernando Emediato, escreve: “Este livro é um  sinal de alerta. Ao relembrar como uma elite financeira, industrial e agrária conservadora levou a classe média à histeria no início dos anos 1960, preparando o terreno para o golpe militar de 64, ele lança luz sobre os dias de hoje, quando jornais, rádios e TVs clamam aos céus contra a corrupção, levando com eles os desinformados que desfilam nas ruas e batem panelas de suas varandas. A “corrupção” foi sempre a palavra de ordem dos golpistas nos anos 50 (para derrubar Getúlio Vargas, que se matou) e, aliada à ameaça comunista, também nos anos 60, para seduzir os militares fiéis aos norteamericanos. Claro que nenhum de nós, cidadãos honestos, podemos aceitar a corrupção – mas quando as denúncias vêm daqueles que sempre a praticaram, aíh é bom desconfiar”.

            Portanto, dói nos golpistas serem rotulados de golpistas. Por isso, tentam contra- atacar chamando de golpistas quem jogou a “nova classe média na miséria” (fato que ainda não se consumou, mas que hum ano e meio de oposição contribuiu para o “quanto pior, melhor); invocando o desemprego (esquecendo-se de que com Lula e Dilma, chegamos quase que a uma situação de pleno emprego); de inflação de 10% ao ano (em fase de declínio, esquecendo-se que Sarney, presidente, a inflação batia 80% ao mês); queda do PIB e recessão (diante de uma série de fatores, desde a paralisia política imposta pelos golpistas à da debacle da economia internacional, que derrubou o preço das “commodities” como soja, ferro e petróleo). Dói tanto neles, que não se contentam de usurpar o poder de Dilma, mas ainda a interpelam junto ao Judiciário para lhes explicar o porquê de “golpe”, animados por algumas entrevistas inoportunas e intempestivas de alguns ministros do Supremo Tribunal Federal.

             Dos insensatos, compreendo e perdôo os rojões pelo golpe contra a Presidente Dilma, pois o tempo e a História os situarão nas regras do jogo democrático. Entretanto, o meu repúdio, a minha repulsa, aos ressentidos e inconformados com as urnas de 2014 e o meu desprezo aos conspiradores e aos ingratos. Em especial aos ingratos de Muzambinho, que não tiveram pelo menos o respeito de considerar o progresso da cidade em função da transformação da então estagnada Escola Agrotécnica Federal em Instituto Federal, que hoje move a nossa construção civil, o nosso comércio e as nossas pequenas indústrias, em função dos milhares de alunos que hoje aqui estudam, pelos professores e servidores que se multiplicaram. Não vou falar dos benefícios do Luz para Todos, do Bolsa Família, de moradias populares, de maquinários e veículos que beneficiaram as duas últimas administrações municipais. Mas quero falar, sim, daquilo que sempre foi o maior orgulho de Muzambinho, a Educação, vocação que Lula e Dilma nos trouxeram de volta, através da multiplicidade de cursos técnicos e tecnológicos e dos cursos universitários. 

 *[email protected] – O autor é médico, foi prefeito de Muzambinho (1989/92; 2005/08) e deputado estadual-MG (1995/98; 1999/2003).