A oração no amanhecer da treva

Publicado em 13/05/2016 - marco-regis-de-almeida-lima - Da Redação

A oração no amanhecer da treva

Após vinte horas de uma sessão ininterrupta do Senado Federal, o amanhecer desta quinta-feira, 12 de maio de 2016, conheceu oficialmente o resultado pela admissibilidade do processo de afastamento da Presidente Dilma. Sim, conheceu oficialmente, porque às 6:32h o painel eletrônico dessa Casa do Congresso Nacional foi aberto para o conhecimento do voto de cada um dos senadores e a apuração dos números finais – 55 votos favoráveis e 22 contrários – sem o cômputo do sufrágio de Renan Calheiros pela sua condição de presidente da instituição.

Assim sendo, foi aceita a admissibilidade pelo plenário do Senado do relatório preliminar elaborado e aprovado em comissão especial pelo senador Antonio Anastasia (PSDB/MG), redundando no afastamento de Dilma, ainda temporário, pelo prazo máximo de 180 dias, até o julgamento definitivo. Com isso, entra em cena para dirigir o País o Vice-Presidente Michel Temer (PMDB/SP), cognominado pelo ex-ministro e ex-governador do Ceará, Ciro Gomes (PDT/CE) como o ‘Capitão do Golpe’, que nos brinda com um ministério de figurinhas carimbadas, algumas com acusação de envolvimento na Operação Lava Jato e com os mesmos vícios de contemplar os partidos aliados, neste caso, no golpe parlamentar, que foi abençoado por alguns ministros do Supremo Tribunal Federal.

          Nada de surpreendente foi essa decisão, pois desde o seu começo, na Câmara dos Deputados, o “impeachment” era aguardado como um jogo de cartas marcadas, independentemente do desempenho da defesa presidencial. Fatores como a baixa popularidade de Dilma, em decorrência da crise econômica, e a sua perda de sustentação política, provocada pela arrogância e inabilidade política do Partido dos Trabalhadores (PT), bem como o envolvimento desse partido em corrupção, concorriam para esse desenlace.

           Claro que poderia haver saídas mais democráticas e menos traumáticas para esse jogo de poder. Havia a esperança de que alguma parcela dos contendores pudesse ter um lampejo de consciência no cultivo democrático.  Mas, em toda jogatina desenfreada os interesses pessoais sobrepujam os interesses mais nobres. Então, o que se esperar de jogadores, me desculpem, de deputados e senadores que juram em vão fidelidade à democracia e à Constituição?  Para esses, isso equivale à exímia manipulação das cartas de um baralho viciado. Ainda mais quando a recompensa se mostra consagradora aos olhos de uma plateia fanatizada e alheia às consequências de uma jogatina, mancomunada às fraudes nas regras do jogo. Porém, mais grave, é a imprensa que passa as informações desse jogo sujo com aparência de isenção, mas, no fundo, está comprometida com os seus resultados, porque seus interesses empresariais, portanto, do empresariado em geral, também estão em jogo.

           Não venhamos com a hipocrisia de que todos lutam pelas causas do povo. Mesmo porque a maioria da população não é tão boazinha como se diz para o agrado geral. Há tantos detalhes que poderiam medir o caráter das pessoas. Mas, convenhamos que essa medição moral e ética deveria ser avaliada desde pequenos detalhes como furar filas, desrespeitar normas de trânsito, saquear carga de caminhões acidentados e tantos outros – com o que o PT no governo também se desnudou e com a maioria se nivelou.

          O que dizer então da índole humana para a violência, seja verbal, comportamental e física. A escravidão é milenar, ainda hoje existe. Até pouco mais de cem anos, negros africanos eram arrancados das suas comunidades para servir aos europeus aqui no Novo Mundo, onde eram explorados, torturados e assassinados pelos seus donos. No velho oeste dos Estados Unidos a própria população promovia o justiçamento de culpados e inocentes, enforcando-os em praça pública. Não muito distante do Brasil de hoje, que tem assistido a linchamentos em suas ruas.

          Mediante tudo isso, parece natural e aceitável a violação do mandato da Presidente Dilma, ignorando-se a soberania das urnas, destituindo-a de forma pacífica e dissimulada e ofertando-lhe o conforto do ‘direito de defesa’ como se fosse o atendimento ao último pedido de um condenado à morte, mas que de jeito nenhum vai impedir de que ele seja executado.

          Se o “impeachment” não fosse uma vingança pela derrota de Aécio Neves nas eleições de 2014, ele não teria sido reivindicado desde aquela época. Pedaladas e créditos suplementares, violações bem desmanteladas pela defesa, são pretextos e a chave encontrada pela conspiração para a consecução do seu ardil.

          Nesta 5ª feira, 12 de maio, às 6 da manhã, ao invés da Ave Maria, pela TV se fez ecoar uma prece veemente, pungente e comovente. Era o discurso ágil, improvisado, preciso e demolidor de fantasias e falsos enredos, proferido pelo Advogado-Geral da União, ministro José Eduardo Cardozo. Tão pungente que soava como uma oração religiosa. Uma oração não somente pela Presidente, mas pela Democracia. Mas, como em todos os templos, de todas as religiões, seria ouvida mas não seria assimilada pela maioria dos ouvintes. Pior ali, um templo político, menos fervoroso nas orações, muitos reprovados nas medições de moral, ética e índole. Mas, não deixou de ser uma oração da manhã, num dia de treva para a democracia. 

*[email protected] – O autor é médico, foi prefeito de Muzambinho (1989/92; 2005/08) e deputado estadual-MG (1995/98; 1999/2003).