A oculta e diabólica índole de brasileiros

Publicado em 08/03/2019 - marco-regis-de-almeida-lima - Da Redação

A oculta e diabólica índole de brasileiros

Nossa existência é tão passageira que nos obriga possuir um radar constantemente em operação. Assim penso. Assim ajo. Até parece que estou reproduzindo a propaganda do canal de TV fechada, a Globo News, “que nunca desliga”. Em decorrência disso, faz pouco tempo que decidi me incursionar pelos esgotos das redes sociais, mas, decidi que os enfrentaria. Realmente, não há como não rotular de esgoto muito do que circula por lá, pelo menos no “Facebook”, no “Twitter”, pior ainda na rede fechada de “Whats App”. Tem uma maioria de gente boa, bem intencionada, carinhosa e calorosa. Mas, a minoria fedorenta polui tudo de bom que a maioria inocente e simples deseja expressar. Diálogo e debate, tudo de bom seria. Porém, o lado sórdido procura manipular e deturpar através de mentiras e invencionices, demonstrando um comportamento amoral típico dos psicopatas. Meus dias de carnaval foram de indignação e, mais do que nunca, concluí que o povo brasileiro decaiu para junto dos anjos luciferinos, perdendo aquela aura de povo abençoado por Deus, porque em nosso meio tem havido atitudes e cenas da mais cruel violência. Mas, não é somente a violência física, o comportamento amoral e cruel se estampa nas postagens das redes sociais. Certamente que isso será canalizado para a violência dos assassinatos, dos feminicídios, dos ataques aos desprotegidos moradores de rua, dos indígenas, dos homossexuais, dos negros e tantos outros. Nessas minhas idas e vindas do meu radar, durante o Carnaval, e diante do massacre impiedoso sofrido pelo indefeso e encarcerado Presidente Lula, por ocasião do falecimento de um de seus netos, Arthur, de sete anos, na verdade filho de um dos filhos da sua falecida mulher, Marisa Letícia Lula da Silva, fiz foco nesse acontecimento.

A repercussão na imprensa nacional e internacional foi intensa. Não somente pela liberação do ex-presidente para o velório, corrigindo distorção de um mês atrás, quando ele foi impedido de ir ao enterro do seu irmão Vavá. Mas. sobremaneira, pelas mentiras e ataques diretos nas redes sociais. Uma das controvérsias tem sido dirimida por advogados de todos os quilates, que afirmam o direito de prisioneiros acompanharem velórios de seus familiares, por que não um Presidente, porque “quem foi rei nunca perde a majestade”, diz um ditado popular.

Coincidentemente, no meio de tanta celeuma, no desfile de carnaval do Rio de Janeiro, a Escola de Samba Paraíso do Tuiuti, veio com um tema paralelo comparado a Lula, ou seja, o do bode Ioiô, que foi eleito vereador em Fortaleza-CE, em 1922. No livreto distribuído ao público dizia o resumo do enredo: “VCs que fazem parte dessa massa irão conhecer um mito de verdade - nordestino, baixinho, de origem pobre, amado pelos humildes e por intelectuais, incomodou a elite e foi condenado a virar símbolo da identidade de um povo”. Uma das últimas alas era denominada de “A peleja entre o bode da resistência e as coxinhas”, onde estas foram simbolizadas tendo uma arma de fogo. Mais atrás, o bode dava um coice num tanque de guerra, demonstrando sua indignação e resistência. Num dado momento do desfile as arquibancadas se levantam e gritam em coro, sob aplausos, Lula livre!  Em contraste a isso, no desfile de bonecos gigantes na pernambucana e histórica cidade de Olinda, um boneco do presidente Bolsonaro foi recebido com pedras de gelo, latas de cerveja e vaias, conforme publicado em www.gazetaonline.com.br/noticias/brasil/2019/bonecos-gigantes-de-

Postagens insinuando o veto de Lula à vacina contra a meningite, foram esclarecidas no BOL Notícias, de  1-3-2019, pelo Prof. Demetrius Montenegro, da UFPE de que “existem vacinas para alguns dos agentes infecciosos causadores da meningite e elas são oferecidas o ano todo na rede pública de saúde”. Outras são vazias e agressivas como de uma ex-dirigente da empresa Natura, Yara Rezende, que culpa o próprio Lula pela morte do neto, no “Facebook: quantos crimes esse tra$te matou para roubar o povo? Aqui se faz aqui se paga”. Lamentável foi o ‘post’ do do deputado federal Eduardo Bolsonaro (PSL-SP) assim mencionado no jornal espanhol El País, do dia 2 de fevereiro corrente: “...tudo o que ele soube escrever na internet sobre a triste morte do neto de Lula é que este deveria estar ‘em uma prisão comum, como um prisioneiro comum’, sem uma única palavra de piedade ou, pelo menos, de respeito por seu inimigo político”. A revista Fórum reproduziu os posts de Yara Rezende e outros como o da internauta Laura Nogueira: “É esquisito. Morre irmão, agora outro familiar, uma criança, para emocionar os juízes e assim ele poder ser liberado”. Contrapondo aos ataques mediou a internauta Fábia Zorzeti: “Gente pelamor, isso não é lei de retorno nem motivo de risos. É uma vida que se foi, uma criança. Que Deus tenha misericórdia de VCs...aprendam a separar as coisas”. Outro, Edson Alves Fernandes disse: “Que país de loucos estamos nos tornando?”. E mais um, cujo nome não transcrevi: “Os vermes para mim têm mais valor dos que falaram essa barbaridade no luto da família Lula, cambada de lixos, que não respeitam uma perda humana’.

No Brasil, a maioria da mídia reproduziu a matéria produzida por [email protected] (O Estado de S. Paulo), de 2-2-2019, que cita trechos do espanhol El País, Milénio (México), Diário de Notícias (Portugal), Il Messagero (Italia), Le Figaro (França) e El Mercúrio (Chile)., e da rede britânica BBC, do canadense The Toronto Star, dentre outros. Os jornais consultados, impressos ou digitais brasileiros, que citam a mesma fonte - Estadão - são O Tempo, Belo Horizonte; Carta Capital, SP; O Dia on line, Rio; CGN, de Cascavel-PR, que recebe 500.000 visitas/dia; o “site” cuiabano GD/Gazeta Digital. O blog direitista Tribuna da Internet concluiu a mesma notícia com Nota da Redação do Blog: “o que pegou muito mal foi o comentário do deputado federal Eduardo Bolsonaro (PSL-SP) que perdeu boa hora para ficar calado. O filho de Nº03 do presidente é de um primarismo impressionante”. Alguém já os chamou de família Bolsolunática.

Contundência, desabafo e desânimo estão grafadas na página de opinião do tão mencionado El País, de Madrid, num artigo do jornalista Juan Arias. Minha intenção era reproduzi-lo na íntegra, porém não somente eu precisava opinar como reproduzir a massiva repercussão do assunto aqui e no mundo todo, faltando espaço. Os interessados devem pesquisar: “El País/A morte do inocente neto de Lula soltou os monstros do ódio”. O artigo repudia a dor de um avô pela perda de seu neto transformada em piadas baratas, em ironia e sarcasmo nas redes sociais. Concluo esta coluna desta semana com o começo do mesmo, trechos intermediários e seu final: “Sabíamos que no Brasil, majoritariamente solidário, sensível à dor alheia e que ama os seus pequenos, existiam monstros de ódio. Confesso, no entanto, que ignorava que fossem tantos. Estão revelados pelos comentários sórdidos e até blasfemos, já que invocam a Deus como motivo da morte de Arthur, de sete anos, neto inocente de Lula, condenado e preso por corrupção. [...] Aqueles que se alegram pela perda do neto de Lula como se fosse um castigo de Deus [...] estão revelando a que ponto de cegueira e insensibilidade humana pode chegar o soberbo ‘Homo sapiens’. [...] como o filho do presidente Jair Bolsonaro (que citamos atrás) [...] Como resposta a ele, Fernando Negrão escreveu que as palavras do filho do Presidente ‘eram emblemáticas do caráter, da criação, dos complexos, da falta de amor que é típica dos psicopatas, dos ‘serial killers’ e dos covardes’  [...] Tentando lembrar tempos sombrios da História em que o ser humano chegou a se degradar a ponto não só não respeitar a inocência da infância, como também fazer dela carne da infâmia. Só me vieram à memória aqueles campos de concentração nazistas onde as crianças eram queimadas vivas porque não serviam para trabalhar. [...] Houve quem escrevesse que depois dos campos de concentração do nazismo não seria possível continuar acreditando em Deus. E, depois desses insultos despejados contra Lula, por causa da sua dor por ter perdido um neto, é possível continuar acreditando no Brasil? O Brasil dos esgotos, que hoje manchou gratuitamente a alma de uma criança inocente, passará - como passou o nazismo. O outro Brasil anônimo, aquele que hoje ficou horrorizado vendo os monstros soltos, desfilando nas redes sociais - o majoritário - acabará dominando os monstros que hoje nos assustam para assim abrir caminho aos anjos de paz - ou será somente a minha esperança?”. 

Marco Regis de Almeida Lima é médico, 

foi prefeito de Muzambinho (1989/92; 2005/08) e 

deputado estadual-MG (1995/98; 1999/2003)