A greve que usou da boa fé dos caminhoneiros

Publicado em 13/11/2015 - marco-regis-de-almeida-lima - Da Redação

A greve que usou da boa fé dos caminhoneiros

Planejada antes, mas deflagrada na 2ª. feira, 9 de novembro, desta semana, a greve dos caminhoneiros veio como uma imitação barata do que foi o movimento de fevereiro, que paralisou nossas estradas e estremeceu o segundo governo Dilma, que acabara de instalar-se. Se o movimento anterior foi bem articulado, através dos poderosos sindicatos e associações profissionais, e empresas de transporte, o atual não foi de todo um fiasco, porquanto repercutiu entre nós e acabou por produzir alguns danos econômicos e sociais. Mesmo que de pouca monta são inevitáveis eis que o transporte rodoviário é fundamental para o Brasil.
Qualquer tipo de paralisação é prejudicial, mas há garantias constitucionais para a sua ocorrência. Porém, a que aconteceu nesta semana foi uma tapeação imperdoável com a finalidade de arrebanhar uma classe trabalhadora e sacrificada. Usou da boa fé dos caminhoneiros, prometendo luta pela redução do preço do óleo diesel, por facilidades no financiamento de caminhões e pela implantação do valor mínimo do frete. Mas seus irresponsáveis líderes, do Comando Nacional do Transporte – CNT – o potiguar-catarinense, Ivar Schmidt, e o gaúcho de Santa Rosa, Fábio Roque, ao se entusiasmarem com a paralisação dos caminhões, em 14 estados brasileiros, no primeiro dia do movimento, aliando-se à canalhice representada pelos ferozes integrantes do ‘Movimento Brasil Livre’ – MBL – e do ‘Vem Pra Rua’ – VPR – de cunho visceralmente político e ‘pró-impeachment’, logo declararam à imprensa seu principal objetivo. “É a renúncia ou o ‘impeachment’ (de Dilma)”, disse Roque. Por isso mesmo receberam a repulsa e o desprezo dos verdadeiros líderes caminhoneiros e das empresas de transporte, que lutam pelo setor e não por golpe político – que, aliás, pouca diferença faria para a categoria. A título de ilustração reproduzo um trecho da nota da Federação dos Caminhoneiros Autônomos: “A paralisação é uma tentativa de golpe contra a democracia e a Constituição promovida por indivíduos estranhos à classe que tentam, de todas as formas, o ‘impeachment’ da Presidente da República. [...] Em sua sanha aventureira eles tentam levar de roldão trabalhadores honrados”.
Parte da grande imprensa, mesmo aquela de posicionamento contra o Governo, também fez críticas ao movimento grevista, justamente por priorizar uma pauta golpista ao invés de defender os caminhoneiros. Sugiro para leitura, e para melhor formação de opinião, o editorial do jornal gaúcho ‘Zero Hora’, de 9 do corrente, publicado na internet: “zh.clicrbs.com.br/RS/opinião/notícia/2015/11/a-greve-dos-caminhoneiros-4896537.html”.
É verdade que atravessamos uma crise econômica, mas ela não é a pior da nossa história como querem passar para a população certos jornalistas, apresentadores de telejornais e comentaristas políticos. Nem todos eles tão jovens para não se recordarem ao menos dos últimos cinquenta anos da vida brasileira. Mas, mesmo os mais jovens, ao comentarem a este respeito, deveriam estar munidos de elementos históricos e dados estatísticos no afã de passarem suas informações. Acredito que, mais do que um despreparo neste sentido, seja uma real intenção de manipular a mente e os sentimentos do público que recebe a informação. Não fora isso, por que então esconder que a inflação no País atingiu 800% ao ano ou 80% ao mês, antes do Plano Real, do Presidente Itamar Franco? A inflação atual, menor do que 10%, no acumulado do ano, é bem mais modesta do que naqueles tempos. Por que não rememorar que o Brasil esteve à beira da “quebradeira” durante o Governo de Fernando Henrique Cardoso? Ou que os juros básicos, nesse mesmo governo FHC subiram ao patamar de 40%? Foram juros superiores aos 14,25% atuais, quando o nosso PIB – Produto Interno Bruto – nem chegava à casa dos trilhões em que se encontra. Nunca é demais refrescar a memória dos esquecidos de que, ainda na época de FHC, os trabalhadores tinham como meta que o salário mínimo chegasse a 100 dólares mensais, enquanto, hoje, mesmo com o dólar alto, é de 200 dólares.
Diante dos fatos observados em relação à greve e ao seu caráter político, o governo se fortaleceu e a esvaziou, publicando a Medida Provisória nº699, que amplia a ação da Polícia Rodoviária Federal na desobstrução das estradas e dos piquetes, se necessário com o auxílio da Força Nacional de Segurança. Elevou o valor das multas de R$1.957,00 para R$5.746,00 e a cassação da carteira do motorista infrator por um ano.
O radicalismo foi contido. Os prejuízos havidos se deram no abastecimento de combustíveis, inclusive aqui perto de nós, como Lavras e Divinópolis. Caminhoneiros que não queriam aderir à greve tiveram seus veículos depredados. Até uma morte foi noticiada pela EPTV de Varginha, que foi a de uma motoqueira, que se chocou com um caminhão que fechava a rodovia, perto de Boa Esperança.
Como reconhecemos, a crise existe, mas não é a pior de todos os tempos. Vai passar como todas passaram. O governo depende da classe política para ajustar a economia, pois nada pode ser feito sem a aprovação de leis. Durante esta semana, houve progressos no Congresso Nacional, que é movido por interesses pessoais e chantagens. Ou pelos achacadores, como bem definiu o ex-Ministro da Educação e ex-Governador do Ceará, Cid Gomes.
O comércio mundial está enfraquecido pelo baixo crescimento da economia nos principais países compradores da Europa, da China, até dos Estados Unidos. Com isso, nossos principais produtos de exportação – café, soja e minério de ferro – estão desvalorizados. Tudo concorre para o prolongamento da crise. Não é somente por causa da corrupção, como muitos dizem.
Entretanto, para a CNT, para o MBL, para o VPR e a oposição política elitista e antiesquerdista, nada disso interessa. “Quanto pior, melhor”, virou lema para todos eles, para a direita inconformada de estar fora do poder. Justamente um jogo de palavras que eles usavam no passado para combater socialistas e comunistas. Trata-se da aplicação do ditado popular: “o feitiço virou contra o feiticeiro”.
Ficou confirmado que a fracassada greve dos caminhoneiros, incitada por essas entidades golpistas, tinha fins políticos acima dos interesses de motoristas e empresas de logística. Então, não há dúvidas que eles planejam fazer no Brasil o que o bando assassino de Pinochet fez com o governo socialista e democrático de Salvador Allende, no Chile, em 1972: minar a autoridade e a resistência do Governo provocando o desabastecimento, o caos e o descontentamento da população com a paralisia dos transportes rodoviários.

*[email protected] – Marco Regis é médico, foi prefeito de Muzambinho (1989/92; 2005/08) e deputado estadual-MG (1995/98; 1999/2003)