A ELEIÇÃO PRESIDENCIAL QUE NUNCA TERMINA

Publicado em 30/10/2015 - marco-regis-de-almeida-lima - Da Redação

A ELEIÇÃO PRESIDENCIAL QUE NUNCA TERMINA

Muita gente fez ouvidos de mercador como se nada fosse acontecer neste País desde quando foi proclamada pelo TSE – Tribunal Superior Eleitoral – a vitória da Presidente Dilma Rousseff ao final do segundo turno da eleição presidencial. Sem a pretensão de ser “coruja que gaba o próprio toco”, mas com o intuito de demonstrar que enxergo os acontecimentos, relembro o artigo que escrevi para este semanário intitulado: “O Brasil reapresenta um cenário de golpe de estado”, de 31 de outubro de 2014, baseado no inconformismo dos perdedores que rolava pelas redes sociais, nos idênticos posicionamentos de âncoras do telejornalismo como William Waack, Ricardo Boechat, Boris Casoy e outros, além de entrevistas dos próprios derrotados, Aécio Neves e seu vice Aloysio Nunes Ferreira. Não foi com muita surpresa que, no sábado em que este jornal já estava nas bancas e nos endereços dos assinantes, contendo o referido artigo, manifestações de rua na Capital paulista exibiam faixas e cartazes com dizeres: “Fraude Eleitoral, ‘impeachment’, Intervenção Militar e Fora Dilma”.
Confirmada a minha observação através de tais protestos, desenvolvi o mesmo tema duas e três semanas depois: “Golpe de Estado Levado a Sério no Xororô dos Perdedores” e “Inconformados ainda querem a cabeça de Dilma”. Diante da persistência dos movimentos golpistas, dentro da minha desguarnecida e vulnerável trincheira, voltei a abordar os acontecimentos em abril, agosto e setembro deste ano, sempre enfocando os riscos de uma guerra civil que essa turba, oportunista e inconsequente, teima em fomentar.
Vejam os leitores que a pressão para o afastamento da Presidente, legitimamente eleita pelo povo brasileiro, começou pelo despropósito de fraude eleitoral, mas com apelos de “impeachment” e intervenção militar, sem qualquer embasamento legal. Nem se falava ou havia crise econômica instalada. Era motivada unicamente por dor-de-cotovelo.
A sanha ou sandice oposicionista não dá tréguas ao Governo. O epicentro é São Paulo, estado onde o antipetismo é crônico, portanto, onde o despeito é maior, pois inundou de votos, em vão, o candidato Aécio Neves, por isso mesmo, sentindo-se como a população que deve comandar o Brasil. Um grande equívoco, porque os sentimentos pátrios e libertários que construíram a nação brasileira se originaram em outros cantos do nosso imenso território. Não vai ser agora que os cifrões da Bovespa vão sobrepor aos ideais mais nobres e puros dos mineiros, nordestinos, cariocas e gaúchos. Mas é de lá e pela internet que interesses golpistas se irradiam a partir do Movimento Brasil Livre, dos Radicais ‘on line’ e o Vem Prá Rua, unidos aos partidos e aos políticos que perderam com Aécio e com outros.
Já se foi um ano como tudo começou, mas parece que eleição proclamada depende da convalidação de algo mais do que os 54 milhões de eleitores que a decidiram. Motivos para o afastamento traumático da nossa Presidente vêm sendo escarafunchados ao sabor do apetite voraz dos golpistas. Da motivação de fraude eleitoral passou-se ao estelionato eleitoral como se não fosse habitual o uso de artimanhas para ganhar eleições em todos os níveis e em todos os cantos. A crise econômica veio em boa hora para os adeptos do ‘quanto pior melhor’, porquanto levou pobres e remediados para o lado deles, fazendo despencar a popularidade de Dilma, situação esta passível de reversão, porém pregada como insustentável para a continuidade dela na Presidência. Ao mesmo tempo, a retração da economia é atribuída somente à corrupção ou à incompetência do Governo. A má fé teima em esconder que ela veio na esteira da bolha econômica que estourou nos Estados Unidos da América, em 2008, arrefecendo a economia mundial e não se dissipando de vez nem lá mesmo nem na Europa e, agora, afetando os países emergentes, que viram cair os preços de suas ‘commodities’ agrícolas ou minerais, inclusive pela redução da taxa de crescimento da China. Outros fatores concorrentes para o desequilíbrio orçamentário são os programas sociais, que beneficiam não somente os pobres com migalhas do bolsa família ou com a dignidade das moradias populares e maior assistência do Mais Médicos, mas, também a classe média favorecida com bolsas do Prouni e do Ciências sem Fronteiras, com remédios da Farmácia Popular e, lá atrás, o quase esquecido Luz para Todos.

Tudo isso ainda é pouco na obstinação de minar a resistência da Presidente. Há o embate com Eduardo Cunha e seus aliados na Câmara dos Deputados; as “pedaladas” antigas que somente agora o Tribunal de Contas resolveu brecar, oferecendo-as para o engendramento do ‘impeachment’; e as contas da campanha eleitoral que sempre acobertaram o Caixa-2, agora a serem revisadas para agarrarem Dilma na arapuca. Sem falar nas ações espetaculosas da Polícia Federal que dão medo em tempos de democracia e, então, o que aconteceria se ela estivesse ao lado de uma ditadura direitista? Nos meus tempos de integrante da CPI do Narcotráfico, em três delegacias – BH, Rio e Brasília – observei a admiração das mesmas pelos Estados Unidos, ostentando bandeirinhas desse país, ao lado da brasileira.
Causa nojo na gente, todos os dias, o drama e o cinismo promovidos por William Waack acerca do “caos” brasileiro, no ‘Jornal da Globo’. As colunas semanais e repetitivas de Aécio Neves, na “Folha de S.Paulo”, não são diferentes. Nesta 2ª feira, insistiu no choro de perdedor ao escrever: “(In)Feliz Aniversário”, em alusão ao primeiro ano da reeleição de Dilma. Então, sou interpelado: por que você perde tempo vendo isso tudo? Respondo que temos que sentir todos os fedores para ter como analisá-los. Isso implica, inclusive, possuir pulmão blindado para tolerar e para “aspirar” Diogo Mainardi e outros, no “Manhattan Connection”, ou o blogueiro e colunista Reinaldo Azevedo. No contraponto, ou melhor, em legítima defesa (da esquerda) tenho de agir de modo semelhante, sendo grato a este jornal por permitir as minhas publicações. Deveria pedir desculpas por fazer do mesmo modo, às avessas. Mas, faço-o, com todos os riscos, pela democracia.

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Marco Regis é médico, foi prefeito de Muzambinho (1989/92; 2005/08) e deputado estadual-MG (1995/98; 1999/2003).