A dimensão de Camões que o Capitão desconhece

Publicado em 11/10/2019 - marco-regis-de-almeida-lima - Da Redação

A dimensão de Camões que o Capitão desconhece

Ao não se dispor a assinar o Diploma do Prêmio Camões, concedido este ano ao nosso célebre compositor e músico, Chico Buarque de Holanda, o Presidente Jair Bolsonaro não somente cria uma desnecessária polêmica como insiste em exteriorizar o bitolamento do seu governo. Medidas outras tomadas em desfavor da Educação e da Cultura mais expõem as limitações do nosso governante nestas áreas, principalmente porque as assenta num paranoico terror ideológico. Mais prudente e transparente ele deveria ser na lida de questões dessas áreas do que fulminá-las com impropriedades retóricas. Trocar os arroubos de sabedoria pela humildade nunca diminuem as qualidades de quem assim o faz. Na última campanha eleitoral ao governo de Minas, o então candidato Romeu Zema foi surpreendido num debate televisivo ao ser questionado sobre a FUNED. Sem perder a calma, ele indagou de um assessor o que queria dizer FUNED. Certamente que o seu distanciamento da nossa Capital e o seu envolvimento com as empresas da família, não lhe deram a oportunidade de conhecer a sigla da Fundação Ezequiel Dias, muito menos a grandiosidade patrimonial e científica dessa instituição, que há décadas fabrica soros que neutralizam ataques de animais peçonhentos, remédios e vacinas para o governo mineiro - um equivalente ao paulista Instituto Butantã, na nossa Capital. Não deixou de ser um fiasco. Entretanto, pela simplicidade e espontaneidade como Romeu Zema tratou o assunto, as chacotas resultantes não atrapalharam seu objetivo de eleger-se governador, recebendo o perdão dos eleitores.

Não há quem da mais mediana cultura não tenha ouvido falar de Camões. Luís Vaz de Camões foi um português que viveu lá pelas épocas em que o Brasil foi descoberto (1.524-1.580). Além de soldado do exército do Reino, que perdeu um dos olhos em batalha, tornou-se um dos maiores poetas da Língua Portuguesa, celebrizando-se com “Os Lusíadas”. Este poema épico possui mais de oito mil versos, sendo inspirado na Ilíada e Odisséia, de Homero, e na Eneida, de Virgílio. Ao contrário destes que falam de batalhas e personagens fictícios, Os Lusíadas retratam feitos de Portugal, seus reis, principalmente as viagens marítimas levadas a cabo por Vasco da Gama, na descoberta da rota para as Índias, consequentemente, na edificação do Reino Português no Oriente (Goa, Macau e Timor Leste)

Provavelmente, gente de proa do atual governo brasileiro não saiba que o Prêmio Camões foi idealizado ainda no Regime Militar, por acordo cultural entre Portugal e Brasil, em 7 de Setembro de 1966. Concretizado em 1988, teve o seu primeiro premiado no ano seguinte, o escritor e poeta português Miguel Torga. A escolha é feita “dentre autores lusófonos que tenham contribuído com o enriquecimento do patrimônio literário e cultural da Língua Portuguesa”. Alternadamente, ano a ano em cada um dos dois países, essa indicação é feita por uma comissão credenciada pelos governos luso-brasileiro, que arcam com a solenidade e ao prêmio de 300 euros dividido entre ambos. Desde então, foram galardoados por nacionalidade: Brasil (13), Portugal (13), Angola (2), Cabo Verde (2) e Moçambique (2). João Cabral de Melo Neto, autor do livro e peça teatral Vida e Morte Severina, foi o primeiro brasileiro homenageado, em 1990. Até chegarmos a Chico Buarque de Holanda, em 2019, tivemos outros nacionais: Rachel de Queiroz, Jorge Amado, Antonio Cândido, Autran Dourado, Rubens Fonseca, Lygia Fagundes Telles, João Ubaldo Ribeiro, Ferreira Gullar, Dalton Trevisan, Alberto da Costa e Silva e Raduan Nassar (2016). Na relação de portugueses, deve ser citado o notável José Saramago (1995).

Indagado por um jornalista, semana passada, se assinaria o diploma conferido a Chico Buarque, o Presidente Bolsonaro respondeu de pronto: “tenho até 2026 para assinar”. Com tamanha impopularidade nas pesquisas, não sabemos o porquê de tamanha confiança do Presidente em contar com sua reeleição. Além do mais, continuará o Presidente Bolsonaro a se imaginar nos tempos da Guerra Fria e um novo plantonista da extinta Ditadura Militar, promovendo e aprofundando a divisão entre os brasileiros, ao invés de adotar uma conduta conciliatória? Diante da manifestação de um de seus filhos que para fechar o Supremo Tribunal Federal bastam um cabo, um soldado e um jipe, e, de outro, que as mudanças na democracia são lentas, reforçada pelo próprio Presidente nesta semana, que aconselhou um seu adepto no Recife a esquecer do seu próprio partido, o PSL, estaria o Brasil envolvido em um plano conspiratório a partir do Palácio do Planalto? Antes desse golpe mortal à democracia, seria bom que os que assim pensam esperassem a posse do usurpador Guaidó, na Venezuela; da reavaliação do prestígio de Bibi Netanyahu, em Israel; da eleição de 27 de outubro vindouro, na Argentina; e, sobretudo, as eleições presidenciais de 2020, nos Estados Unidos.

Olavo de Carvalho, o guru da família presidencial pode entender bem de conjunção de astros, mas não deve entender de conjunção de governos nem de conjunção de poder político. Nunca se deve precipitar, pois há riscos de queda num planeta que não é plano. 


*Marco Regis é médico, foi prefeito de Muzambinho (1989/92; 2005/08) e deputado estadual-MG (1995/98; 1999/2003)