A CIVILIZAÇÃO DOS INCIVILIZADOS

Publicado em 29/04/2016 - marco-regis-de-almeida-lima - Da Redação

A CIVILIZAÇÃO DOS INCIVILIZADOS

Ainda que a humanidade tenha evoluído ao longo de milênios, convivemos num processo evolutivo desarmônico e de profundas desigualdades em todos os níveis e estágios civilizatórios. Enquanto minorias usufruem da riqueza, a maioria luta pela sobrevivência tal qual em épocas mais primitivas. De modo geral, todos nós fomos beneficiados por descobertas e inovações nas áreas de comunicações, transportes, saúde, habitação, lazer e esportes, que nos afastam desse primitivismo. Mas, a luta pela sobrevivência continua dramática e desumana para bilhões de habitantes terráqueos. Além do mais, não houve inclusão de todos, senão isonômica pelo menos parcial, no rol dos benefícios do desenvolvimento humano
As buscas inquietantes da filosofia e das utopias da vida vão dando lugar ao comodismo das curtidas e compartilhamentos em redes, que privilegiam o consumismo desenfreado e nocivo ao planeta, a gula, as vaidades e o erotismo. É a exacerbação do individualismo, que esgarça e mata os nobres sentimentos e valores humanos. Mais do que nunca vivemos a preponderância do ter sobre o ser.
Estonteantemente paradoxal é, hoje, o confronto entre o homem teleguiando artefatos complexos pelos confins do nosso sistema planetário, detectando vestígios de vida extraterrestre, com o homem subindo em árvores para a coleta de frutos, ou zingrando rios e mares, em toscas embarcações para a pesca, numa faina pela sua subsistência. Inseridos na modernidade, os catadores de materiais recicláveis amealham algum dinheiro com isso, ajudando a protelar a exaustão de alguns dos nossos recursos minerais, também contribuindo para a diminuição do enterramento do lixo orgânico e de produtos descartáveis e reutilizáveis.
Em que pese o desvirtuamento do milenar apego humano às posses e aos bens materiais, a banalização dos atos de violência, nos dias em que vivemos, é o fator mais preocupante com que nos deparamos. A impaciência e a intolerância se multiplicam por todos os lados, gerando agressões verbais e físicas. Já são acontecimentos rotineiros em lugares onde antes imperava o respeito. Como aos professores, nas escolas, e aos profissionais de saúde, nos postos de atendimentos e nos hospitais. Sem falar nos conflitos no trânsito de veículos automotores, nas ruas e nas estradas. Aqui, além da impaciência, acrescenta-se a imprudência, resultando em cinquenta mil mortos por ano no Brasil, outros milhares de feridos e mutilados para sempre, uma verdadeira estatística de guerra.
Não devemos nos omitir ante à violência contra as mulheres, ao racismo, ao preconceito pelas opções sexuais, aos ciganos, enfim aos pobres e desvalidos. Porém, não nos esqueçamos que a banalização da violência se alastra e se avoluma em decorrência do grande flagelo moderno – as cognominadas “drogas”.
Mas, no nosso País, nos últimos dois anos, desenvolveu-se a intolerância política. Na verdade houve uma recaída nesse aspecto, típico de épocas de autoritarismo. Certo tipo de gente tem se arvorado de paladino do pensamento político e filosófico e não mede consequências em atacar a outrem em qualquer lugar, fatos assim acontecidos com respeitáveis e premiados artistas como Chico Buarque de Holanda e José de Abreu, isto para citar apenas famosos simpatizantes políticos. Não tão longe daqui, em Poços de Caldas, o vereador e ex-coordenador regional do Programa Luz para Todos, Paulo Tadeu (PT), sofreu ignominiosa retaliação de uma colega (PSDB), que pediu providências ao vereador-corregedor da Câmara Municipal da cidade, por postagem ofensiva do mesmo, através de “twitter”, como ofensivo aos manifestantes de uma ofensa à Constituição, que é o Golpe do ‘Impeachment’ Parlamentar à Presidente Dilma.
Estamos muito mais diante da barbárie do que de uma civilização. Tanto no Brasil como no restante do nosso mundo. Para essa situação há muitos vaticínios ou muitas profecias bíblicas. Quem viver verá!

[email protected] – Marco Regis é médico, foi prefeito de Muzambinho (1989/92; 2005/08) e deputado estadual-MG (1995/98; 1999/2003)