A Argentina não está longe

Publicado em 16/08/2019 - marco-regis-de-almeida-lima - Da Redação

A Argentina não está longe

Apesar de não conhecer o nosso vizinho, como nada conheço além de partes do Brasil, sou um apaixonado pela Argentina. Nunca comunguei das insinuantes provocações do narrador esportivo Galvão Bueno, jogando-nos contra os argentinos como que a rivalidade futebolística sobrepusesse os laços fraternos e históricos que a eles nos ligam. Apesar da nossa origem colonial portuguesa e a deles hispânica nossas histórias evoluíram como imagens refletidas num espelho. No passado longínquo, os índios nativos nos povoavam. Pedro Álvares Cabral, em 1500 e Juan Diás de Solís, em 1516, fincam os descobrimentos. Nas lutas pela independência não há como ocultar a figura de Napoleão Bonaparte, que empurrou o casal real D. João VI e a Princesa Carlota Joaquina para esta colônia, enquanto o irmão dela, Rei Fernando VII, de Espanha e do Vice-Reinado do Prata, havia sido preso pelos bonapartistas, criando a possibilidade da dinastia dos Bourbon - os carlotistas - aqui no hemisfério sul, assumisse o poder na região, culminando na Revolução de Maio, 25 de maio de 1810, quando uma Junta Militar deflagrou o processo de independência portenha. Oficialmente, lá, 9 de Julho de 1816; aqui, 7 de Setembro de 1822, com D. Pedro I.

Entre 1825 e 1828 figura e imagem no espelho se quebram. É a Guerra Cisplatina (aquém do Rio do Prata), com anexação da Banda Oriental do Uruguai por parte das Províncias Unidas do Rio do Prata. Anos antes, ainda em época colonial, essa porção geográfica havia sido invadida por Portugal e tomada da Espanha sob o pretexto de direitos sucessórios da Princesa Carlota Joaquina. Pois bem, em 1825, D. Pedro I reage à invasão portenha e lhes declara guerra com o objetivo de recuperar o território agora declarado parte das Províncias Unidas do Rio do Prata. Vale ressaltar que essa foi A ÚNICA VEZ QUE brasileiros e argentinos guerrearam entre si. O Brasil ainda estava combalido pelas guerras da Independência e viu os argentinos avançarem sobre nosso País. D. Pedro fortalece nossa Marinha, contratando mercenários ingleses, irlandeses e estadunidenses, sitiando Buenos Aires e, ainda, tendo superioridade numérica de soldados do Exército. Mas, dá sinais de fraqueza, quando nossas tropas são expulsas da Província Cisplatina, além de contar com oposição interna brasileira, dos políticos e da população. Nesse ínterim, é feita mediação internacional em busca da paz, através de Inglaterra e França, decidindo as partes beligerantes, no Tratado Preliminar de Paz do Rio de Janeiro, abrirem mão da região cisplatina, com a criação da República Oriental do Uruguai, atribuindo-se ao líder uruguaio Juan Antonio Lavalleja a sua independência, tornando, em parte, argentinos e brasileiros nem vitoriosos nem derrotados.

Dos meados do século XX para cá, os reflexos no espelhos tornam-se mais nítidos. Getúlio Vargas assume o governo brasileiro em 1930, implantando a Ditadura do Estado Novo de 1937 a 1945. Deposto, volta ao poder em eleições livres em 1951, suicidando-se em 24 de agosto de 1954, quando viu-se acuado por forças civis, encabeçada por lideranças da UDN - União Democrática Nacional - e militares. Na Argentina acontece o Golpe Militar de 1930, chefiado pelo General José Uriburu, em seguida o restabelecimento democrático, e novo golpe, em 1943, desta vez comandado pelo Coronel Juan Domingo Perón, que pavimenta eleições democráticas para 1946, nas quais é eleito, depois reeleito em 1951. Tal qual Vargas, Perón navegou por ideologias conflitantes, mas, na administração, ambos são considerados os pioneiros nos direitos trabalhistas e sociais, além de alavancadores da industrialização.       

Ainda no século passado, não podemos olvidar das ditaduras civis-militares brasileira e argentina. Lá, de 1976/83; aqui, de 1964/85. Inquestionável foi o alinhamento delas com a política norte-americana e a sua inter-colaboração com os chamados países do Cone Sul, juntamente com Chile, do sanguinário Pinochet, e Uruguai. A ferocidade e transgressão aos direitos humanos foi traço comum a todas, cabendo a cada leitor analisar quem foi pior ou menos cruel, se é que isso merece comparação. Restauradas as democracias, tanto Argentina como Brasil viveram sob o delírio do período neoliberal, pondo fora ativos importantes e até estratégicos, sob a batuta de Carlos Menen e Fernando Henrique Cardoso, que rezavam pela Cartilha do Consenso de Washington.

Claramente, o peronismo - ou justicialistas - influem até hoje nos destinos do nosso vizinho e irmão. Haja vista que até o atual Presidente, Maurício Macri, sentindo-se desgastado para a disputa da sua reeleição, nas eleições de 27 de outubro vindouro, tem como seu candidato a Vice-Presidente um parlamentar do Partido Justicialista. Da mesma forma, os outros dois concorrentes contêm militantes dessa corrente partidária. Numa espécie de prévia com barreiras, no último domingo, saiu-se vencedora a chapa “puro sangue” dos justicialistas/peronistas formada por Alberto Fernándes/Cristina Kirchner, em oposição ao atual governo, meio que sinalizando a retomada do poder pela esquerda kirchnerista, que foi contemporânea do petismo lulista no Brasil, padecendo dos mesmos defeitos e virtudes. A despeito disso é injustificável o veneno odioso derramado sobre Néstor, Lula, Cristina e Dilma, todos perseguidos pelas elites de ambos os países.

Na música as duas nações têm sua marca: samba e tango. No futebol, a despeito da rivalidade sadia, que muitos insistem em brutalizar, o intercâmbio sempre foi positivo. Paulinho Valentim, o amor de Hilda Furacão, Dino Sani, Heleno de Freitas, Domingos da Guia, Petronilho, Waldemar de Brito, o flamenguista e campeão mundial de 1958, Moacyr e Almir Pernambuquinho, ex-companheiro de Pelé, no Santos FC, foram brasileiros que atuaram no Boca Juniors. River Plate ou San Lorenzo de Almagro. Pelo contrário, argentinos se tornaram ídolos dos brasileiros. O goleiro vascaíno Andrada, que tomou o 1.000º gol marcado por Pelé; Guiñazu, no Inter/RS e Vasco; Carlito Tevez e Mascherano, no Corinthians Paulista; Pablo Sorín, Lucas Romero e Ariel Cabral, no Cruzeiro. No voleibol não tem sido diferente: William, da seleção brasileira, foi muitas vezes campeão no voleibol do Bolívar, onde foi apelidado de ‘Mago’. Marcelo Mendez há anos fatura títulos nacionais e internacionais no Sada/Cruzeiro. González, Toro e Facundo Conte, engrandecem essa lista.

Como no mundo de hoje o que conta mesmo é o dinheiro, vamos à Economia. Nesse item, a Argentina é o 3º maior parceiro comercial do Brasil, vindo atrás de China e Estados Unidos, seguindo-se Holanda, Chile, Alemanha e México, até o 7º lugar. A divulgação é oficial, feita pelo COMEX, órgão do Ministério da Economia, Indústria, Comércio Exterior e Serviços, relativamente ao lapso de janeiro a julho de 2019. Para lá exportamos automóveis de passageiros, veículos de carga, tratores, pneus e autopeças. Importamos trigo, farinha de trigo, vinhos, naftas, também autopeças. O crescimento comercial veio com o MERCOSUL, fundado em 1994 e dinamizado a partir do ano seguinte. A sua concepção nasceu destes dois gigantes da América do Sul - nós e eles, mais Paraguai e Uruguai, que são países membros efetivos, tal qual a Venezuela, está suspensa do bloco por período indeterminado em face ao não cumprimento de regras democráticas e de direitos humanos. O mercado Comum do Sul - MERCOSUR, em espanhol – está aberto aos membros convidados, que não têm direito a voto.  São eles a Bolívia, Chile, Colômbia, Equador, Guiana, Peru e Suriname, sendo que a Bolívia está com seu processo de adesão como membro efetivo quase concretizado.

O Presidente Bolsonaro, totalmente desqualificado para a condição de estadista, julga-se no direito de se meter a cabo eleitoral em outros países. Já contou papo acerca de reeleição de Donald Trump, declarando apoio público a ele na sua visita aos Estados Unidos, até chamando o Partido Democrata de comunista. Agora, ficou inconformado com a grande possibilidade da vitória do kirchnerismo/esquerdismo na Argentina, diante dos resultados das eleições primárias de domingo passado. Jogou pesado e rosnou raivoso pelo resultado das urnas, que deram 47% para Alberto Fernándes/Cristina Kirchner, com pouco mais de 32 % para a dupla da reeleição, Maurício Macri/Ángel Pichetto e quase 9% para a chapa 3ª colocada e o restante para “nanicos”. O sistema eleitoral portenho dispõe que uma eleição se decide no 1º turno quando a chapa vitoriosa obtiver mais do que 45% dos votos, ou que a diferença do 1º para o 2º colocado passe dos 10%. Considerando a comemoração popular com os resultados, os próprios percentuais de diferença, nem com a incorporação de todos os votos do 3º colocado, o vê-se que o kirchnerismo tem grandes possibilidades de vitória no 1º turno, em 27 de outubro.

Vejamos o desespero e a ameaça terrorista do Presidente Bolsonaro, no dia seguinte às primárias, num evento no Rio Grande do Sul: “Não esqueçam mais ao sul, na Argentina, o que aconteceu nas eleições de ontem. A turma da Cristina Kirchner, que é a mesma de Dilma Rousseff, Hugo Chávez e Fidel Castro deu sinal de vida. Povo gaúcho, se essa ESQUERDALHA voltar na Argentina, poderemos ter no Rio Grande do Sul, um novo Estado de Roraima”. Já o derrotado Mácri, irritado, se expressou assim: ¨A alternativa kirchnerista não tem credibilidade no mundo, o kirchnerismo isola a Argentina no mundo”. O certo é que o Governo Mácri fracassou. Elevou os juros ao absurdo de mais de 70%, aumentou a inflação herdada de Cristina, bem como o desemprego. Mas, o pior foi afundar a Argentina no FMI - Fundo Monetário Internacional - pegando empréstimo que torna seu país refém do capital internacional (lembrem-se que Lula nos libertou dessa submissão, pagando ao FMI o que o Brasil lhe devia, após décadas de exploração).

Diante de tamanha identidade entre os povos brasileiro e argentino, da história antiga, passando pela colonização e independência, fazendo a travessia atual, nada mais alentador e emocionante que o leitor busque no seu computador, celular ou “smartphone”, no “YOU TUBE”, a melodiosa música NÃO CHORES POR MIM ARGENTINA, seja em espanhol com a cantora Paloma San Basilio, ou com a versão do original pela brasileira Claudya, que vai terminando mais ou menos assim:

Jamais o Poder ambicionei, mentiras falaram de mim

Meu lugar é do povo a quem sempre eu amei

Eu só desejo sentir bem perto o seu coração

Batendo por mim com fervor, que nunca vou esquecer.

Ouçam!  É o Hino a Evita Peron! O compositor é Tim Rice. A música é de Andrew Lloyd Weber. AFINAL DE CONTAS SÃO TANTOS OS ENCONTROS NA NOSSA IDENTIDADE COM OS ARGENTINOS. OUVINDO ESSA SUBLIMAÇÃO A EVITA, ENTENDEREMOS MAIS E MAIS QUE A ARGENTINA NÃO ESTÁ TÃO LONGE ! 

*Marco Regis é médico, foi prefeito de Muzambinho (1989/92; 
2005/08) e deputado estadual-MG (1995/98; 1999/2003)