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Publicado em 26/03/2021 - marco-regis-de-almeida-lima - Da Redação

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Passado um ano da primeira morte no Brasil, causada pela pandemia do Novo Corona Vírus, os números estatísticos de infectados e de recuperados atribuídos a essa enfermidade são elásticos e crescentes. Muitos desalmados e fanatizados chegam a comemorá-los no afã de confundirem um falso êxito que se sobrepõe à catástrofe dos mortos, num enganoso confronto de dados. Todavia, por maiores que sejam as cifras de casos da doença e os daqueles considerados dela curados, os números que estampam o título deste artigo representam algo de pesado, de insuportável, uma sobrecarga numérica de mortos. Se cravássemos uma cruz a uma pequena distância de um metro uma da outra, teríamos uma serpejante sinalização de uma estrada de trezentos mil metros, ou trezentos quilômetros, materialmente exemplificando como o espaço que separa Varginha, no sul de Minas Gerais, à Belo Horizonte, rodando pela Rodovia Fernão Dias, incluindo o acesso a esta. Imaginemos, ao invés das cruzes, nossos irmãos mortos, de mãos dadas e com esvoaçantes vestes brancas fotografados de algum satélite artificial orbitário da Terra, num cenário dantesco. Daria à gente a impressão de uma fila para o Juizo Final.

Poderíamos, numa dimensão real, utilizando estimativas populacionais do IBGE – Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística – imaginarmos que aqueles que tiveram suas vidas ceifadas pela maligna virose, fossem todos os habitantes de cidades do porte de 300.000 habitantes, um pouco menos ou um pouco mais, como as metropolitanas de São Paulo, Taboão da Serra ou Suzano; ou Mossoró, a capital das salinas, no Rio Grande do Norte; ou a industrial Camaçari, na Bahia; ou a imperial Petrópolis, no Rio de Janeiro; ou Palmas, a capital do Estado de Tocantins; ou mesmo Limeira, no Estado de São Paulo. Os mortos brasileiros pela CoViD-19 seriam como se fossem toda a população de cidades como essas. Um verdadeiro horror imaginarmos que as perdas humanas para a pandemia, no Brasil, tivessem a proporção da morte de todos os habitantes de uma dessas progressistas cidades. Entretanto, pelo ritmo acelerado da mortandade existe a perspectiva de logo a se chegar a ser do tamanho de toda uma Taubaté-SP, ou Guarujá-SP, ou São José dos Pinhais-PR, ou Praia Grande-SP, ou Cascavel-PR, ou Paulista-PE, ou às mineiras Uberaba ou Ribeirão das Neves, quem sabe, chegando à proporção de Vitória da Conquista-BA ou Pelotas-RS. Nenhum de nós está livre de compor essas estatísticas, muito menos eu que estou com a 1ª. dose da Coronavac agendada para o amanhecer desta noite em que este texto escrevo.

No “Facebook” já argumentei, como profissional da saúde, que nenhuma das doenças que mais matam no Brasil, chegam a matar 3.000 pessoas por dia como aconteceu nos últimos dias com a CoViD-19. Todas as doenças cardiovasculares, juntas, incluindo os “derrames” gastam 4 dias para matar 3.000 pessoas; todos os tipos de cânceres gastam 5 dias para levar três mil pessoas à morte; e as Doenças Respiratórias, 13 dias; Violência, 19 dias.  Revendo estatísticas do IBGE, Data SUS e até de um telejornal da CNN constatamos que o extermínio provocado pelo CoViD-19 com essas 300.000 mortes em um ano é muito mais do que se morre em um ano da soma de Infarto do Miocárdio junto com outras Doenças Isquêmicas do Coração, as principais causas de morte dos brasileiros, seguindo-se os óbitos por todos os tipos de cânceres, de AVCs, de acidentes de trânsito e outras formas de violência. A temível AIDS – Síndrome da Imunodeficiência Adquirida – uma virose que até hoje não tem vacina para contê-la, também uma pandemia, foi contida como uma doença sexualmente transmissível, através de métodos preventivos e de medicamentos antivirais desenvolvidos desde a década de 1980, quando ela surgiu, matando 281.156 brasileiros no período de 1996/2019.

Lamentavelmente, o Brasil chegou a essa carnificina, assemelhada à dos Estados Unidos da América, coincidentemente em épocas governadas por presidentes negacionistas, um deles – Donald Trump – com mandato encerrado. Na minha pequenez de analista, tenho relutado em lhes condenar como causadores de mortes. Todavia, não há como deixar de lhes imputar responsabilidade indireta pelos seus maus comportamentos e maus exemplos, que vieram a influir na população quanto ao uso de máscaras, no isolamento social e até nas indecisas aceitações e aquisições das vacinas. Nesta semana mesmo, numa inevitável guinada quanto ao conceito de máscaras e vacinas, o Presidente Bolsonaro, em reuniões oficiais, insistiu num assunto que não é do bico nem do conhecimento dele, preconizando o questionável “tratamento precoce” com o “kit Covid”, com o uso de Cloroquina e Ivermectina. O uso dessas substâncias tem sido rechaçado pela Ciência e pela própria OMS – Organização Mundial da Saúde -, mas, defendido e prescrito por médicos ou no âmbito de empresas particulares de saúde, numa inaceitável conduta política e ideológica. Nos últimos dias, médicos de UTIs do Hospital das Clínicas da USP, em São Paulo, e do Hospital da UNICAMP, em Campinas alertaram contra tais remédios, um deles ironizando os mesmos como “kit ilusão”, afirmando que pacientes que o usaram, por indicação médica ou por conta própria sofreram severos danos hepáticos, levando alguns à necessidade de transplante de fígado. Já o jornal Zero Hora, de Porto Alegre noticiou que o CRM-RS está investigando as mortes de três pacientes, supostamente provocadas por arritmia cardíaca, devidas ao uso de nebulizações com cloroquina.

Infelizmente, a compreensão humana é limitada. A despeito do que tem sido amplamente noticiado em telejornais de todas as emissoras de TV do Brasil, exaltando o heroísmo do nosso pessoal da Saúde, batalhando há mais de um ano contra a CoViD, estando à exaustão física e psicológica, fui questionado esta semana em rede social, por um empresário local e ex-assessor da Adm.Municipal do Dr.Sérgio Esquilo, sobre o seguinte: “Será que somente o Presidente está sendo negacionista neste momento ou é a Medicina que está sendo NEGACIONISTA? Se existe outras alternativas que ajudam a diminuir estes sofrimentos pq Dr. que a medicina não está fazendo? E pq não estão tomando frente? [...] o final da história vem sendo contado da forma que estamos vivendo, não estão fazendo de tudo para combater o vírus, muitos ainda negam a alguns os tratamentos que vem dando e muito bem certo, poderíamos ter poupado muitas mortes, mas infelizmente querem criar o caos [...] não aceitaram que Bolsonaro é o Presidente”. Não bastam já ter morrido mais de 500 médicos e mais de 500 pessoas da enfermagem no Brasil, em combate como prova de luta? E as vacinas em tempo “record”? 

 E neste cabo de guerra entre Ciência e Política que já passamos de 300.000 mortos, uma carnificina. Ou é a mão de Deus agindo em cima de inocentes e culpados para transformar a humanidade, no chamado Final dos Tempos? 


Marco Regis é médico, foi prefeito de Muzambinho (1989/92; 2005/08) e deputado estadual-MG 

(1995/98; 1999/2003) *[email protected]*