NA VENEZUELA, RESULTADOS TORNAM SUPOSTAS ELEIÇÕES FRAUDULENTAS EM LIMPAS

Publicado em 11/12/2015 - marco-regis-de-almeida-lima - Da Redação

NA VENEZUELA, RESULTADOS TORNAM SUPOSTAS ELEIÇÕES FRAUDULENTAS EM LIMPAS

Argúcia, perspicácia e sagacidade são palavras sinônimas que me levam à admiração das pessoas que as ostentam, significando sutileza, agudeza de espírito ou aptidão para aprender e compreender. Decerto que não é uma qualidade da maioria nem inerente aos mais escolarizados ou inteligentes. Mas, fundamentalmente, temos que diferenciar os argutos, perspicazes e sagazes dos astutos e dos ardilosos, pois astúcia e ardil são sinônimos de esperteza e de habilidade para a engambelação. Quem me ensina isto tudo é o meu sábio tutor intelectual, o Koogan/Houaiss – Enciclopédia e Dicionário Ilustrado, que sempre está ao meu lado nos momentos em que me torno um escrevinhador.
Pois bem, num mundo altamente manipulador em que vivemos, necessitamos cultivar os três substantivos, que dão início a este artigo, para nos atrevermos a ser razoáveis interpretadores do que lemos, vemos ou ouvimos. Ou, eruditamente, um exegeta de textos escritos, narrados, lidos ou interpretados pelos outros. Lembremos que a Exegética é uma parte da Teologia que interpreta a Bíblia Sagrada. Confesso que desde a minha infância interesso-me pelo noticiário, esforçando-me para nele formar o meu próprio juízo.
Baseado nesse intróito virei um crítico contumaz das grandes publicações jornalísticas brasileiras e estrangeiras, depois das redes televisivas que foram nascendo através do nosso território e, ultimamente, pela mídia digital. Disso decorre minha permanente discordância da informação tendenciosa disseminada por esses meios de comunicação. Pois é esse o raciocínio para o qual conclamo que façam os meus leais leitores. Não pretendo aqui exercitar qualquer raciocínio manipulador como fazem aqueles a quem critico. Apenas que atentem para o meu e, depois, deduzam livremente.
Fácil de lembrar é o que tem sido dito sobre o Regime Socialista Bolivariano ou sobre o Chavismo, martelando nossas mentes desde a subida do Coronel Hugo Chávez à presidência da Venezuela, em 1999. Prá começo de conversa, sempre com desprezo pela condição humilde da maioria do eleitorado chavista, da mesma maneira que aqui, no Brasil, sobretudo com a discriminação do voto dos nordestinos. Aliás, sobre esses nossos compatriotas, um boçal e asqueroso jornalista do “Manhattan Connection”, do canal de TV “Globo News”, fez referência a eles como “votos bovinos”, uma verdadeira discriminação racial, uma aberração fascista.
Ao longo dos catorze anos sob a batuta de Hugo Chávez, a Venezuela distribuiu de forma mais justa a sua grande riqueza, proveniente do petróleo, aumentando suas exportações do produto de US$12 bilhões, em 1998, para US$95 bilhões, em 2012, segundo publicação da revista “Exame”, em 6 -3-2013. No mesmo período, a revista em questão revela a variação de outros indicadores, tais como: desemprego, de 14% para 8%; PIB ‘per capita’, de US$3.928 para US$11.113 e redução da pobreza de 49,4% para 29,6%. Ele venceu quatro eleições presidenciais com percentuais superiores a 50% dos votos; outorgou uma nova Constituição ao país aprovada por 70% dos eleitores; convocou e venceu referendos e plebiscitos. Sucumbindo à morte por um câncer, contra o qual lutou com valentia e com ideologia, pois se tratou em Cuba, indicou e emplacou Nicolás Maduro como seu sucessor. Apesar de todas as vitórias nas urnas e a melhoria dos indicadores econômicos da Venezuela, foi torpe e violentamente criticado pelos seus opositores e pela imprensa estrangeira, inclusive a brasileira, nos melhores momentos da história da Venezuela. Para essa maioria, Chávez nunca passou de um ditador de republiqueta e um usurpador do poder. Como que todas as eleições locais, desde 1999, tivessem sido fraudadas e todas as instituições submissas ao regime bolivariano. Como que a democracia do país fosse um embuste.
Justiça deve ser feita a algumas publicações e documentários de TV, inclusive um da Rede Bandeirantes, anterior à morte de Hugo Chávez, mostrando o avanço do país nesse período. Porém o mais emocionante de todos foi feito pelo cineasta estadunidense, Oliver Stone, intitulado “A mi amigo Hugo”. Após a morte do polêmico governante, um caderno especial do diário “FOLHA DE S.PAULO”, publicado justamente no dia 6 de março de 2013, grafou esta sentença: “HUGO CHÁVEZ INSCREVEU A VENEZUELA NA GEOPOLÍTICA MUNDIAL”. Em sítios eletrônicos recomendaria que o caro leitor acessasse opiniões antagônicas ao que se acostumou a ler e a escutar no Brasil a respeito do socialismo bolivariano. Por exemplo, o DCM – Diário do Centro do Mundo – do jornalista Paulo Nogueira, www.diariodocentrodomundo.com.br, especialmente temas como: “Por que Chávez foi tão odiado pelos conservadores?” ou “Chávez fez a Venezuela deixar de ser quintal americano”.
Infelizmente, Maduro, que veio a sucedê-lo, demonstrou inaptidão administrativa e enveredou por um populismo barato. A crise internacional, com a queda dos preços das ‘commodities’ minerais e agrícolas atingiu em cheio países como Venezuela e Brasil. O valor do barril de petróleo despencou de mais de cem dólares para menos de cinquenta, minguando a receita venezuelana. A inflação do país – que era de 30% ao ano quando Chávez foi eleito pela primeira vez – nunca foi controlada, subindo aceleradamente nos tempos de Nicolás Maduro. Sem recursos para importar, instalou-se o desabastecimento de alimentos e outros produtos de consumo popular, gerando filas permanentes e vendas por cotas. Desemprego e violência vieram por conta disso. Era tudo que a oposição elitista desejava, atraindo a classe média e setores mais pobres para o seu lado (mera coincidência com a ação da oposição de hoje no Brasil ???).
As eleições parlamentares do último domingo, transcorridas dentro da normalidade, foram precedidas de muitas críticas, com pedidos de observadores internacionais por parte da oposição, sob denúncias de possíveis fraudes eleitorais e todo tipo de demonização do governo. O mundo ocidental previa turbulências no processo e no resultado eleitoral, ao mesmo tempo em que torcia desesperadamente contra o governo de Maduro. Aqui no Brasil, então, a imprensa não deu refresco, continuou passando o rolo compressor no bolivarianismo, aliado do Brasil de Lula/Dilma. Ainda mais com a derrota do kirchnerismo na Argentina, uma semana antes. O fim das esquerdas sulamericanas sempre foi desejo da imprensa empresarial e das elites destes países, embora falem com convicção que o socialismo acabou, porque têm medo dele.
Abertas as urnas venezuelanas, revelou-se uma fragorosa derrota do regime de Maduro, o que é natural no regime democrático. O Presidente, humildemente, reconheceu a derrota. A partir daí, já não se falou mais de fraudes e de má fé. Imagens do regozijo desta festa da democracia correram o mundo. Era tudo que o capitalismo enfurecido queria para a Venezuela. A mesma coisa que quer para o Brasil, porém aqui, à custa de um “golpe branco”, pois a democracia para essa gentalha só vale quando serve aos seus interesses.

*[email protected] – Marco Regis é médico, foi prefeito de Muzambinho (1989/92; 2005/08) e deputado estadual-MG (1995/98; 1999/2003)