Teimam em repetir o terror de Hiroshima e Nagasaki

Publicado em 28/04/2017 e atualizado em 28/04/2017 - marco-regis-de-almeida-lima - Da Redação

Teimam em repetir o terror de Hiroshima e Nagasaki

Apesar de décadas de uma vida intensa, ainda sintonizo com clareza os ecos de um aparelho de rádio da casa dos meus avós maternos, na querida Monte Belo, do final de 1953. Ainda me são nítidos os fortes sons musicais que marcavam início e final do Repórter Esso “a testemunha ocular da História” e resíduos de notícias da então Guerra da Coréia e a fixação mental para toda uma vida de Pyong-yang e Seul como capitais dos dois países coreanos. Nascera eu dois anos antes do final da 2ª Guerra Mundial, portanto nada entendia deste nosso mundo dividido entre as forças militares vencedoras dessa guerra. Não tinha noção de Berlim retaliada em porções norte-americana, inglesa, francesa e soviética. Muito menos que a península coreana ? uma extensão de terra a partir da China em direção ao Oceano Pacífico, ajudando a delimitar o Mar do Japão e o Mar Amarelo ? tivesse sua tutela sido partilhada entre soviéticos e norte-americanos pelo Tratado de Yalta, em 1945. Na verdade, desde 1910, essa península havia sido ocupada e humilhada pelo Império do Japão, vindo a libertar-se desse jugo e a recuperar sua identidade com a ajuda das forças aliadas combateram o Eixo. Ficou o norte, com área territorial equivalente à soma dos estados brasileiros de Pernambuco mais Alagoas, sob tutela da União das Repúblicas Socialistas Soviéticas (URSS ou CCCP); e o sul, com a área aproximada somente à de Pernambuco, tutelada pelos Estados Unidos da América (EUA ou USA). A Guerra da Coréia (1950/1953) começa sob pretexto de que a Coreia do Sul ultrapassara o Paralelo 38°, que as dividia. Então, a Coreia do Norte invade a vizinha, chegando a Seul. Com a ajuda dos norte-americanos a invasão foi rechaçada até a outra capital, Pyong-yang e na direção da China. Sentindo-se ameaçados, os chineses, que haviam saído de uma guerra civil e proclamado a República Popular da China, sob a liderança de Mao Tsé-tung, entram nessa guerra cujas idas e vindas restabelecem o Paralelo 38º como divisa entre as duas Coréias, sem que os soviéticos tivessem tido participação ativa.
O boicote comercial do mundo capitalista à República Democrática Popular da Korea (RDPK), em função do seu alinhamento com o lado socialista, sempre foi um entrave ao seu desenvolvimento econômico e não quanto à educação, que é obrigatória e gratuita da pré-escola ao secundário, num total de onze anos. A saúde sofre com a escassez de alimentos devida ao seu relevo montanhoso e à própria economia em declínio, com o fim da União Soviética. Recentemente, pude assistir pela TV a conquista de dois títulos mundiais de futebol feminino pelas norte-coreanas, nas modalidades sub17 e sub20. O não enquadramento desse país nas regras do jogo ocidental, principalmente seu obstinado programa de defesa militar, incluindo a fabricação de mísseis de longo alcance e artefatos nucleares, tem sido motivo real do seu isolamento por parte do restante do mundo. Com a implosão da URSS, sua parceria comercial ficou limitada à China. A propaganda que se faz do lado de cá ? da mesma maneira com que Cuba sempre foi pintada ? é que a RDPK é uma nação beligerante, governada por lunáticos, classificada por George W. Bush como pertencente ao Eixo do Mal (na época Irã/Iraque/Coreia do Norte), ou seja, países que patrocinavam o terrorismo, classificação esta desmoralizada e desacreditada ao longo dos anos subseqüentes. Ora, veja você, inteligente leitor, rotular um país de beligerante, de belicoso, sentando no próprio rabo. Por mera posse de uma ilha, a Inglaterra travou uma guerra desproporcional com a Argentina, em 1982, a Guerra das Malvinas, além de estar sempre conluiada em ações de guerra contra outros países, ao lado dos Estados Unidos; Israel tem poderio militar, já anexou territórios árabes e descumpre uma gama de resoluções da Organização das Nações Unidas (ONU) e tudo fica por isso mesmo; os Estado Unidos, depois da 2ª Guerra Mundial influenciaram ou participaram de inúmeros golpes de estado na América Central e América do Sul, invadiram Porto Rico, Coreia, Vietnã, Guatemala, Líbano, Líbia,Cuba (Baía dos Porcos), República Dominicana, Panamá, Iraque, Afeganistão. Por que a grande imprensa brasileira e ocidental não assume que ao menos estes três países são beligerantes e não somente a Coreia do Norte, que é minúscula e “faminta” ?, segundo dizem as más línguas.
O problema dos dias atuais não fica restrito ao “lunático” ditador da RDPK, King Jong-un. Um país livre e democrático também costuma ser governado por lunáticos. O atual presidente dos EUA tem cara de lua cheia. O Bush, filho, foi, certamente, outro “lunático”. E o que dizer de Harry Trumam que autorizou o uso de bombas atômicas contra o Japão, em 6 e 9 de agosto de 1945? Lunático ou terrorista ? Pois, do portal UOL/História do Mundo, sob o título de “HIROSHIMA e NAGASAKI, BOMBAS E TERROR”, extraio o seguinte texto a respeito da morte instantânea de 140.000 pessoas na primeira e 80.000 na outra, que levou o Japão à rendição, enquanto que os Estados Unidos até comemoraram, porque calculavam Hum milhão de mortos se executassem uma invasão terrestre: “O bombardeamento das cidades japonesas pode ser considerado o maior atentado terrorista da história da humanidade, já que o objetivo do Governo e do Exército dos EUA era aterrorizar a população japonesa e, assim, evitar uma invasão ao País para por fim à guerra”. Na contabilidade americana da época o saldo de mortos teria sido bom, mas, “ficou um cenário aterrorizante”. Muito pior, por longos anos a mortandade continuou em decorrência dos efeitos deletérios da radiação. Muito mais do que isso, pessoas e animais, vieram a nascer e a morrer por causa de mutações genéticas.
Nos últimos dias os EUA deslocaram um poderoso submarino lançador de mísseis teleguiados e um gigantesco porta-aviões para as imediações da península coreana. Trocaram afagos com japoneses e sul-coreanos, através de manobras conjuntas. Por outro lado, a pequena e isolada RDPK, se vê acuada e dá demonstrações de força com desfiles militares coreográficos, lançamento de mísseis e ameaças de atacar com bombas atômicas as bases militares dos EUA na região, bem como a vizinha e quase irmã gêmea. Aliada dos norte-coreanos, mas um pouco enfarada das exibicionices de King Jong-un, a China apela a ambos os lados pelo exercício do bom senso.
Donald Trump delira no resgate da América invencível do pós-guerra: que bate, que mata, que invade, depois explica. Ogivas nucleares não faltam no arsenal dos EUA. Disposição para lançá-las é a mesma com que há poucos dias o fizeram com “a mãe de todas as bombas”, de dez toneladas, atirada em solo do Afeganistão com o intuito de matar algumas dezenas de insurgentes afegãos escondidos em remotas cavernas.
Da biografia de King Jong-un, que gente da imprensa ocidental classifica de “bebezão mimado”, consta ter idade de 34 anos e de ter estudado sob pseudônimo na Universidade Britânica de Berna, Suíça, e ter formação universitária e militar também na RDPK, em computação e física, falando os idiomas: coreano, inglês, francês e alemão. Sua disciplina militar e instinto de sobrevivência dão conta que ele não hesitará em usar uma bomba nuclear, caso seu país de fato a disponha.
Esteja preparado e alerta. Ore, conforme a sua fé. O comportamento humano anda de mal para pior. Houve retrocesso bestial no grosso dos seres humanos de hoje. Seriam mesmo Donald Trump e King Jong-un dois lunáticos? Ambos estariam à beira de um ataque nuclear simultâneo, depois de todo o horror de Hiroshima e Nagasaki? Ambos, seres racionais, desprezariam os avanços ecológicos planetários desde a Conferência de Estocolmo, em 1972 ? Toda cautela é necessária, pois diz o provérbio que “dois bicudos não se beijam”.

Marco Regis é médico, foi prefeito de Muzambinho (1989/92)