Justificativas para fim da Inconfidência AM são questionadas

Publicado em 24/04/2019 - legislativo - Da Redação

Justificativas para fim da Inconfidência AM são questionadas

Importância cultural da emissora do Estado também é destacada durante audiência por deputados e entidades.

Frisando que a Rádio Inconfidência AM é fator de integração do Estado por seu alcance, radialistas e jornalistas criticaram na terça-feira (23/4/19) argumentos para justificar a intenção de extinguir a emissora.

Em audiência da Comissão de Cultura da Assembleia Legislativa de Minas Gerais (ALMG), solicitada pelo deputado Marquinho Lemos (PT), a presidenta do Sindicato dos Jornalistas Profissionais de Minas Gerais, Alessandra Mello, rechaçou a alegação de que o fim da AM estaria amparada em norma federal.

Segundo ela, o Decreto 8.139, de 2013, não obriga todas as rádios AM a migrarem para FM até 2023, como argumentado em audiência anterior pela secretária adjunta de Estado de Cultura, Solanda Steckelberg Silva.

"É preciso esclarecer que essa migração não é obrigatória nem mesmo para aquelas AM locais que não queiram se tornar regionais, caso em que perderão a outorga. E muito menos para a Inconfidência, que já é regional, e de alcance estadual", contrapôs Alessandra ao comentar fala da secretária em reunião que discutiu o assunto na Comissão do Trabalho, em 11 de abril.

De acordo com a proposta do governo estadual, a emissora AM migraria para a Inconfidência FM, com parte da programação sendo absorvida por esta última, e entre as razões estaria o decreto.

Segundo Alessandra Mello, se houver a migração da AM para FM, haverá melhoria do sinal, mas com perda do alcance
Segundo Alessandra Mello, se houver a migração da AM para FM, haverá melhoria do sinal, mas com perda do alcance - Foto: Daniel Protzner

O problema apontado na audiência é que uma emissora FM, embora tenha frequência superior, tem alcance inferior comparada a uma AM, razão pela qual a proposta do governo comprometeria a chegada da emissora a todo o Estado.

A presidente do Sindicato dos Jornalistas também rebateu o argumento da secretária de que extinguir a Inconfidência AM teria razões técnicas, e não políticas ou econômicas.

Conforme dito pela secretária, hoje não se conseguiria comprar determinados equipamentos de transmissão para uma rádio AM e ainda faltariam profissionais qualificados para operá-la.

A presidente do sindicato, contudo, disse que a Rádio Itaitiaia, emissora comercial, acabou de adquirir equipamentos para sua AM, em fase de instalação.

Alessandra ainda disse que, a prevalecer o argumento técnico, a Inconfidência tem um de seus transmissores danificado, mas o equipamento, segundo ela, está em condições de passar por conserto ou mesmo poderia vir a ser trocado para melhorar o sinal da emissora.

"O que não se pode é abrir mão de um meio de comunicação dessa grandeza", condenou a jornalista. Ela ainda acrescentou que se houver a migração da AM para FM, haverá melhoria do sinal e do som, mas com a perda do alcance.

"Teríamos na verdade duas FM alcançando somente a Região Metropolitana de Belo Horizonte e não todos os municípios como hoje", criticou Alessandra.

Disputa comercial é mencionada

Para participantes da reunião, por trás da extinção da Inconfidência AM também estaria uma disputa comercial. "Esse espectro amplo representado pela Inconfidência AM não ficará vago, alguém vai se apropriar dele porque não se abandona um instrumento poderosíssimo de comunicação e integração como esse", advertiu a presidente do Sindicato dos Jornalistas.

"O governo nos apresentou uma narrativa que não cabe na realidade", endossou a coordenadora Regional do Fórum Nacional Pela Democratização da Comunicação, Florence Poznanski.

Para Florence, a motivação do governo para mudanças na rádio também seria política, e não técnica. "É preciso fortalecer a transparência e a comunicação pública antes de qualquer medida, pois não se trata aqui de uma rádio comercial, mas de uma emissora que tem responsabilidade pública", destacou ela.

Presidente da rádio acena com diálogo

Ronan Scoralick Abdo, presidente da Rádio Inconfidência, também disse ser inegável o patrimônio histórico e cultural da emissora. "Muitos apresentadores têm relação íntima com o ouvinte em várias partes do Estado", registrou.

Por outro lado, ele disse que a Inconfidência AM tem um sinal que classificou de frágil. "Não é uma tecnologia que está na vanguarda, talvez por isso audiência da emissora hoje seja baixa", registrou.

Ele argumentou que, por razões climáticas e atmosféricas que interferem no sinal, há momentos do dia em que a o alcance fica prejudicado, o que demandaria buscar recursos para fortalecer o sinal.

"Estamos abertos a discutir a situação e havendo soluções vamos buscá-las", acenou sobre as críticas. "Temos uma programação fantástica, mas o ouvinte precisa receber esse sinal com mais qualidade e vamos sentar para discutir isso", acrescentou o gestor.

Deputados defendem solução para emissora 

O presidente da comissão, deputado Bosco (Avante), registrou seu reconhecimento ao patrimônio que é a rádio Inconfidência AM para os mineiros, que segundo destacou foi criada há quase 83 anos, levando a todos os municípios do Estado informações, entretenimento e lazer.

O deputado Marquinho Lemos disse que requereu a reunião para chamar a atenção justamente para o valor cultural da emissora. “Sou do Jequitinhonha, e principalmente quem é do interior conhece o que é a rádio".

Para o parlamentar, campanhas como de vacinação, por exemplo, "podem chegar em todos os grotões" por meio da emissora. Ele sugeriu a formação de um grupo de trabalho com representantes de artistas e trabalhadores para buscar um projeto alternativo à proposta do governo.

"Não temos feito outra coisa a não ser discutir desmontes e fim de políticas públicas importantes, inclusive na cultura", pontuou o deputado Cristino Silveira (PT), tendo a deputada Beatriz Cerqueira, também do PT, frisado que "nenhum caminho que retire investimentos públicos importantes irá recuperar o Estado e o desenvolvimento econômico".

Endossando as falas, o deputado Celinho Sintrocel (PCdoB) disse que estava aderindo ao movimento "Fica Inconfidência", defendendo que o governo seja cobrado a manter a emissora AM.


ASCOM