Tecnologia, saúde e comportamento

Publicado em 17/07/2019 - inaian-teixeira - Da Redação

Tecnologia, saúde e comportamento

Hoje começaremos com uma reflexão. A tecnologia é mocinha ou vilã? Depende! Se olharmos sob a perspectiva da temática desta coluna, ela é mocinha quando se trata de saúde e talvez vilã quando se trata de comportamento. Do ponto de vista da saúde, as pessoas têm vivido cada vez mais E melhor, em função da tecnologia. Todos os remédios, procedimentos médicos, vacinas, saneamento, acesso a alimentos e inúmeros outros fatores, fizeram com que a expectativa de vida aumentasse em um ritmo muito acelerado. Sob a ótica do comportamento, a tecnologia tem afetado o processo de comunicação, as interações sociais, os comportamentos individuais e da sociedade em geral. Vamos explorar um pouco mais esses dois pontos.

Apesar do senso comum apontar que a tecnologia é algo recente, a 2,2 milhões de anos atrás nossos ancestrais começaram a criar e utilizar ferramentas à base de ossos, madeira, e principalmente de pedra lascada. Esse fato, inclusive, fez com que o nome adotado para essa espécie fosse Homo Habilis (habilidoso). Dito isso, fica claro e fácil de entender que a tecnologia é mocinha e superimportante para a vida dos humanos. Mas, vamos voltar para as tecnologias mais recentes e sua relação direta com a saúde.

No ano de 1770, a expectativa de vida era de 29 anos. Isso mesmo, em média, as pessoas viviam apenas 29 anos. Hoje, muito em função das tecnologias, as pessoas vivem 2,5 vezes mais - 71,5 anos. Impulsionada pela revolução industrial, avanços na área da ciência e tecnologia viabilizaram um salto significativo no aumento da produção e distribuição de alimentos, melhorias na saúde pública (principalmente relativas à água e saneamento) e avanços na área médica. Na área médica, durante muito tempo, o grande destaque foi o desenvolvimento das vacinas em 1976 e dos antibióticos em 1928, mas, hoje em dia, os avanços médicos são inúmeros indo desde a edição do DNA para cura de doenças até a “criação” de órgãos humanos usando impressoras 3D.

Do ponto de vista do comportamento, a meu ver, os impactos da tecnologia também são evidentes, porém, negativamente. Para isso, vamos analisar uma tecnologia que está incrustada em nossas vidas e sempre ao alcance de nossas mãos – o celular. Alguns dados assustadores para começar: o Brasil tem 230 milhões de smartphones em uso enquanto o número de habitantes é de 209 milhões. Sim, existem mais celular do que habitantes e, além disso, por dia, os brasileiros os usam em média 4 horas e 48 minutos. Isso mesmo - 20% do dia dedicado ao celular. Como se não bastasse, as crianças vêm tendo contato com celulares e tablets de uma maneira cada vez mais precoce. Já existem alguns estudos apontando que, deixar uma criança passar muito tempo usando tablets, celulares e outros eletrônicos com telas pode atrasar o desenvolvimento de habilidades de linguagem e sociabilidade. O mais cruel nessa história é que, às vezes, essas crianças são submetidas a essa situação para que os pais possam ter seus “momentos de sossego”, afinal, é muito mais fácil entreter a criança com o celular do que fazer alguma atividade “real” com ela. Mal sabem os pais que, crianças e adolescentes que usam dispositivos digitais por muito tempo têm menor estabilidade emocional, são mais impacientes, têm redução no autocontrole, na curiosidade e correm maior risco de problemas de saúde mental, como ansiedade e depressão. Finalmente, pessoas que abusam do celular, sejam elas crianças, adolescentes ou adultos apresentam uma diminuição da capacidade social, uma vez que os relacionamentos pessoais são sobretudo virtuais. Basta olhar para uma roda de amigos onde frequentemente nos deparamos com pessoas, com o celular na mão, conversando com outras pessoas no WhatsApp, ou simplesmente rolando o feed de notícias do Facebook, ou Instagram. Como diria um autor desconhecido: Tecnologia – aproximando quem está longe e afastando quem está perto.

Embora nossos ancestrais Homo Habilis tenham “inventado” e “dominado” a tecnologia, nós, Homo Sapiens, temos que fazer jus ao nome dado à nossa espécie de seres humanos e sermos sábios. Sábios para utilizar a tecnologia sempre a nosso favor, não só para viver mais, mas também para viver melhor.

 

Inaian é Profissional de Educação Física e Doutor em Atividade Física e Saúde. Foi pesquisador associado da Universidade de Oxford e atualmente é Pós-doutorando na USP. [email protected]