IEF alerta para impactos do cerol e linha chilena sobre a fauna silvestre

Publicado em 09/07/2020 - geral - Da Redação

IEF alerta para impactos do cerol e linha chilena sobre a fauna silvestre

A perda e a fragmentação de habitat, além dos diversos crimes ambientais como tráfico, atropelamento e cativeiro irregular são algumas das inúmeras dificuldades enfrentadas, diariamente, pelas aves silvestres. Além desses problemas causarem grande impacto na vida desses animais e, consequentemente, em ecossistemas inteiros, uma outra questão tem despertado a preocupação de técnicos do Instituto Estadual de Florestas (IEF). Dentre os animais silvestres recebidos nos quatro Centros de Triagem de Animais Silvestres (Cetas) de Minas Gerais, alguns têm chegado gravemente feridos por linhas com cerol e linha chilena. O Instituto faz um alerta a respeito da prática, que além de criminosa, causa ferimentos, desde leves escoriações a mutilações de membros, e até mesmo a morte desses animais.

Prova dessa problema tem sido registrada na unidade do Cetas de Belo Horizonte, onde o total de atendimento a aves vítimas de cerol e linha chilena cresceu em 2020. Enquanto em 2019, o centro recebeu aproximadamente 30 aves gravemente feridas por esses materiais, o número dos seis primeiros meses deste ano já ultrapassa 60, representado o dobro de todo o ano passado, com atendimentos registrados principalmente no mês junho.

 

“De um mês para cá temos recebido diariamente aves feridas por esses materiais, a maioria delas têm sido gaviões, corujas e maritacas”, conta a médica-veterinária do Cetas de Belo Horizonte, Érika Procópio. A suspeita é que o não retorno às aulas escolares, devido ao isolamento social, seja um contribuinte para o aumento desse número, já que há muitos jovens soltando pipa, como forma de lazer, nos últimos meses.

 

Quando chegam nos Cetas, os animais silvestres vítimas de maus tratos ou de tráfico de animais recebem todos os cuidados necessários e são constantemente avaliados para estarem aptos ao retorno à natureza. Atualmente, o Estado conta com três Cetas, localizados em Juiz de Fora, na Zona da Mata; Montes Claros, no Norte de Minas, e, em Belo Horizonte, onde a unidade é compartilhada com o Ibama; além de um Centro de Triagem e Reabilitação de Animais Silvestres (Cetras) em Patos de Minas, que atende as demandas do Triângulo Mineiro e Alto Paranaíba.

 

Apesar de receberem tratamento intensivo das equipes desses Centros, muitos desses animais não conseguem voltar ao seu habitat, devido às sérias consequências desse trágico contato com esses materiais cortantes. Dentre os animais silvestres que mais sofrem graves lesões por linhas com cerol e linha chilena estão aves, como gaviões, periquitos, bem-te-vis, pardais, corujas e maritacas. Elas não só são feridas durante o voo, mas, também, algumas delas podem utilizar esse material para fazer ninhos. Grande parte dos ferimentos são graves e, em sua maioria, em suas asas.

 

Em muitos casos, as asas dessas aves precisam ser amputadas, o que faz com que nem sempre esses animais sobrevivam e, aqueles que conseguem, não retornam mais à vida livre. “No caso de ninhos feitos com linhas de cerol e chilena, os filhotes já começam a se desenvolver emaranhados nessas linhas, o que pode causa sérios ferimentos e gangrenas que resultam na amputação de um de seus membros, podendo até interromper suas vidas”, conta Érika.

 

VENDER E USAR LINHA COM CEROL E LINHA CHILENA É CRIME

 

Usar e vender esses materiais é crime e pode acabar com vidas, não só de animais silvestres, mas também de pessoas. Em junho de 2019 foi sancionada a Lei 23.515, que aumenta a multa para quem vende linha com cerol e linha chilena. Os reincidentes poderão pagar mais de R$ 100 mil.

 

O uso das linhas cortantes é proibido por lei estadual em Minas Gerais desde 2002. Uma lei federal de 1990 também define a venda ou exposição de linhas como o cerol como crime, prevendo multa e detenção de dois a cinco anos. Caso a linha apreendida esteja em poder de criança ou adolescente, seus pais ou responsáveis legais serão notificados pessoalmente da infração.

 

 O QUE FAZER AO ENCONTRARUMA AVE FERIDA

 

É possível fazer a denúncia desta prática ilegal pelo telefone 181 (Disque Denúncia).  Não é necessário se identificar, mas é importante que você tenha o máximo de informações sobre a situação.

Atitudes simples podem contribuir para que as populações de aves sobrevivam: soltar pipa sem usar linha com cerol e linha chilena; não as caçar; manter gatos domésticos distantes deáreas de conservação; não praticar desmatamento ilegal; não realizar queimadas semautorização do órgão ambiental, além de estudar e conhecer melhor sobre seus hábitos para saber como ajudá-las a sobreviver no seu habitat natural. 

 

MANEJO E CONSERVAÇÃO

 

Durante todo o trabalho de acolhimento e reabilitação dos animais silvestres, os analistas ambientais aproveitam para estudar sobre as espécies, até que elas estejam saudáveis e preparadas para envio às áreas de soltura do Projeto Asas (Áreas de Soltura de Animais Silvestres). As informações são essenciais para manejo e conservação em outras localidades.

De acordo com a diretora de proteção à fauna do IEF, Liliana Adriana Nappi Mateus, as ações do IEF têm propiciado a soltura de uma média de 55% do total de animais recebidos.  Ela também explica que algumas espécies necessitam de tempo maior de reabilitação para a soltura. Em 2019, 6.928 animais foram recebidos em todos os Cetas de Minas Gerais e 3.640 retornaram ao seu habitat natural, o que representa 52,5%. Neste ano, os Cetas já receberam, até maio, 2.421 e 1.350 foram reintroduzidos em seu ambiente natural, somando 55,7%.

 

O Asas é uma parceria entre o Instituto Estadual de Florestas (IEF), o Ministério Público de Minas Gerais (MPMG), o Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis (Ibama) e as organizações não governamentais (ONGs) Waita Instituto de Pesquisa e Conservação e a Águas Vivas Socioambiental. Em todo o Estado, são 51 áreas cadastradas junto ao IEF e aptas para soltura.


ASCoM