OURO PRETO, MINAS GERAIS, 21 DE ABRIL: epicentro de patriotismo

Publicado em 27/04/2009 - editorial - Conexão Global, por Marco Régis de Almeida Lima

A cada ano em Ouro Preto, uma das duas cidades mineiras declaradas “patrimônio histórico da humanidade”, sendo a outra Diamantina, no dia 21 de abril realiza-se empolgante solenidade onde pulsa fortemente o patriotismo.
É uma data anual em que sentimentos cívicos da pátria brasileira eclodem na praça principal daquela cidade histórica, misturando vozes das principais autoridades do nosso Estado e do País e, muitas vezes do lado contrário, de manifestantes de oposição ao governador ou a favor dele. Ou, ainda, contrários a qualquer coisa.
Há hinos, discursos, o fogo simbólico, um grande aparato militar, no qual se destaca a unidade dos Dragões da Inconfidência. Tudo sob os olhares de uma multidão contrita que ainda venera valores que a modernidade teima em querer destruir.
Neste ano, por exemplo, 236 personalidades foram agraciadas com a Medalha da Inconfidência, representando diversas atividades e camadas sociais. Dentre os homenageados estavam os ministros Juca Ferreira, da Cultura e José Pimentel, da Previdência; o governador do Amazonas, Eduardo Braga; e até a eterna musa da Campanha das Diretas Já, Fafá de Belém, cuja presença evocava um símbolo dessa época, Tancredo Neves, avô do governador Aécio Neves. Aliás, o governador mineiro afirmou, neste 21 de abril, que presidia pela última vez a solenidade de entrega da medalha da Inconfidência pois se desincompatibilizará do cargo em 3 de abril de 2010 para defender um projeto político nacional, em que o Brasil se afirme como “uma nação poderosa sem ser arrogante.”
O cenário também serviu para a pré-abertura do Ano da França no Brasil, a ser comemorado durante todo este ano, quando serão lembrados os vínculos históricos e culturais existentes entre os dois países. Certamente, os reflexos do Iluminismo e da Revolução Francesa muito tem a ver com o 21 de abril da Inconfidência Mineira.
Somente aqueles que frequentam o 21 de abril em Ouro Preto podem sentir os espasmos cívicos, que nos trazem à lembrança as lutas libertárias para a busca da nossa independência de Portugal. Podem ser convulsões retóricas, mas ali pululam lembranças de Joaquim José da Silva Xavier, o Tiradentes, e seus companheiros inconfidentes, uma das mais belas páginas da nossa história. Tudo isso, mesclado com fatos atuais do País que, neste ano, levou manifestantes à candidatura presidencial de Aécio Neves e de apoio ao Ministro Hélio Costa, que é pré-candidato do PMDB ao Palácio da Liberdade.
Condecorado que fui com a Medalha da Inconfidência, nos anos 90, guardo indelével na lembrança e nas fotografias as fortes emoções vividas na antiga Vila Rica no dia em que recebi esse galardão. Mas, guardo outras, pois nos meus oito anos como deputado estadual, fui assíduo frequentador dessa cerimônia, principalmente participando de manifestações contra a onda de privatizações do patrimônio público brasileiro, perpetrada pelo então Presidente Fernando Henrique Cardoso, a serviço do nefasto neoliberalismo. Desse mesmo neoliberalismo que tentou impor a derrubada das fronteiras nacionais e dos sentimentos pátrios, tipo o slogan da TIM na TV, que ainda insiste em nos fazer lavagem cerebral através de “um mundo sem fronteiras.” Não devemos nos esquecer que o muro de Berlim foi derrubado em 1989, porém, tempos depois o capitalismo construiu muros de verdade, separando ricos e pobres, como o da fronteira entre Estados Unidos e México e entre Israel e Palestina.
Todos esses assuntos vêm a baila na solenidade anual da Inconfidência Mineira em Ouro Preto, que acaba se tornando mesmo num epicentro de questões de relevância nacional.