Histórias do “Brejo Alegre” - Timburé

Publicado em 17/04/2009 - editorial -

Dos vários habitantes dignos de registro da vila do Brejo Alegre de antigamente, destacava-se um que pela sua mania de grandeza superava em muito todos os demais concorrentes. Chamava-se Messias, apelidado Timburé, moço ainda, membro de família muito pobre, cuja mãe era lavadeira e o pai trabalhador braçal. Timburé sofria de deficiência vocal, era gago mas julgava-se grande cantor, gostando de imitar o já finado cantor Vicente Celestino, autor e intérprete da canção O ÉBRIO, muito em voga naqueles tempos. E como sempre já existiam os provocadores e gozadores, que as custas de uns níqueis ou um pedaço de rapadura faziam o pobre Timburé esguelar em plena via pública, num cômico mas ao mesmo tempo triste espetáculo. O hilariante show invariavelmente acontecia nas proximidades do boteco do Robertinho Elias, que por sinal já não agüentava mais a gritaria do coitado, e tanto não agüentou que um dia “DEU PARTE”, isto é, chamou a polícia para tentar disciplinar o gritalhão. Ai apareceu um “SOLDADO APERTADO”, que ante a revolta e a boca suja do cantor achou por bem repreende-lo, não em via pública mas sim no ambiente mais discreto da cadeia. Foi uma “repreensão” de três dias a pão e água e palmatória na bunda e na boca. Só que o Messias não ficou muito sozinho, pois no segundo dia da prisão o Robertinho, ciente dos maus tratos que este vinha sofrendo arrependeu-se, pegou algumas bananas e pão com mortadela e foi visitá-lo penalizado e dizendo consigo mesmo. O pobre deve estar com fome e se debulhando em lágrimas. Mas mesmo ainda estando longe do seu destino começou a ouvir um enorme berreiro, nada mais, nada menos que o Timburé entoando sua versão do O Ébrio com mais força e gaguejos que de costume. Foi encontrar o delegado e o carcereiro da cadeia presentes, só que no meio do jardim da Praça, o mais distante possível do incrível cover do cantor Celestino.
Robertinho aproximou-se com cara de humilde e foi logo suplicando: Amigo Delegado, seu Marcolino, solte o Tamburé. Eu pago o que for preciso de carceragem e prometo... Paga e promete coisa nenhuma, esbravejou o irritado delegado. E ESTEJE PRESO! E virando-se para o carcereiro: Seu Zé, fecha o Robertinho na cela junto com o Timburé. Ele nunca mais vai dar parte desse maluco e muito menos querer ouvir o Vicente Celestino!
Dois dias depois lá estava o Messias Timburé em pé no barranco ao lado do boteco do Robertinho “desfiando” tudo o repertório do popular – e  já a muito finado tenor brasileiro, do triste e trágico Ébrio a alegre e feliz PORTA ABERTA, indiferente aos gritos e xingos do humilhado e enfezado proprietário.

Por Estevão "Tezo" Bortolotti

NOTA DO AUTOR: Roberto Elias mudou-se para Belo Horizonte, onde faleceu em idade avançada. Messias Camilo faleceu ainda bem jovem na cidade de São Paulo.