Falando novamente em privatização

Publicado em 18/07/2019 e atualizado em 18/07/2019 - cesar-vanucci - Da Redação

Falando novamente em privatização

“O que a sociedade almeja ouvir, antes de anúncios de privatizações, são notícias concretas sobre a indispensável retomada do crescimento econômico”. (Antônio Luiz da Costa, educador) 

Privatização não é panaceia para os males que nos colocam em desassossego. Foi o que deixei registrado no comentário anterior. Com exemplificação abundante, o passado deixa-nos plenamente inteirados disso. 

O caso da Vale é bastante emblemático. Por dez réis de mel coado fabulosos ativos da antiga e eficiente Vale do Rio Doce, maior empresa na área de extração de minério de ferro no mundo, foram transferidos, em momento falto de inspiração, para empresários privados. Patrimônio calculado por gente do ramo em valor superior a 100 bilhões de dólares foi entregue, porteira fechada, por 6,5 bilhões de dólares. Fontes bem informadas sustentam que os cofres da empresa guardavam, na ocasião, valor superior ao da transação. Transação essa ocorrida em clima de forçada euforia. Em cerimônia aclamada em verso e prosa nos meios políticos e midiáticos, passou-se por cima, suspeitosamente, do irrisório preço apurado, equiparável, pode-se dizer, ao de refugo de banana caturra em final de feira suburbana. 

Alardeou-se à pamparra. “Colossais benefícios sociais” seriam colhidos em função do badalado leilão negocial. Festejados “peagadeuses” em ciência econômica não deixavam por menos: uma solução mágica – eureka! – havia sido encontrada, providencialmente, para os graves problemas enfrentados pelo erário público. No que acabou dando mesmo a formidável transmutação acenada das radiosas expectativas em alvissareira e palpável realidade? Seja dada a palavra, para a resposta, às comunidades “assistidas” pela “eficiente empresa”. Mariana, Brumadinho, Barão de Cocais, Nova Lima, por aí vai, terão, com certeira certeza, coisas a dizer... 

Volva-se o olhar, agora, para anotações históricas relacionadas com o desmantelamento, anos atrás, do pujante sistema bancário oficial das Minas Gerais. Fará por merecer atrativa e extensa temporada turística em lugares como Damasco, na Síria; Caracas, Venezuela; Trípoli, Líbia; Cabul, no Afeganistão; ou outro aprazível recanto qualquer na zona limítrofe do México com os Estados Unidos, com todas as despesas pagas e direito de levar acompanhantes, o vivente em condições de apontar vantagens auferidas pelo Estado em decorrência da onda de fusões e privatizações que defenestrou do efervescente e rendoso mercado financeiro instituições como o Bemge, o Crédito Real. Mesmo ostentando posições de vanguarda entre as organizações creditícias, os bancos estatais mineiros, levando de roldão a Caixa Econômica Estadual, foram incluídos em lista prioritária de privatização. A medida foi apontada por especialistas como a “salvação da lavoura”. Recuperação cabal das finanças públicas à vista! Ninguém bota dúvida que uma auditoria isenta que venha a ser feita sobre essas relevantes deliberações político-administrativas trará fatalmente a lume copiosas evidências do estrondoso equívoco cometido. As coisas não correram bem assim como se conta nas narrativas oficiais.

Será que alguém acredita mesmo na história de que a “fusão” com a “Boeing”, a que foi arrastada a Embraer – organização impecável, nascida da engenhosidade brasileira, universalmente reconhecida como modelar no setor da indústria aeronáutica –tenha sido negócio vantajoso para o país, como andou sendo à mancheia alardeado? E não é também motivo para temores e perplexidade gerais perceber que o “olho gordo” de setores despojados de sentimento nacional e sensibilidade cívica já esteja mirando a possibilidade da privatização da Petrobras, Banco do Brasil, Caixa Econômica Federal? Parece mentira, mas é verdade. Tem gente por aí que não se ruboriza em desconhecer ou finja ignorar que essas maquinações de bastidores colidam frontalmente com os soberanos interesses nacionais. 

Por aqui, nos pagos mineiros, há quem esteja cogitando igualmente da privatização da Cemig, uma organização que tem as raízes bem fincadas na história do nosso desenvolvimento. Estamos falando de um patrimônio da coletividade mineira que carece ser, com ululante obviedade, preservado no formato e características originais. O “açodamento privativista” chega ao extremo de contemplar a possibilidade de atropelamento de exigências legais concebidas com o benfazejo objetivo de proteger a organização de quaisquer ameaças à sua missão institucional de fomento do progresso. Dá pra perceber, todavia, consoladoramente, que a opinião pública se contrapõe, de forma enfática e nítida, às diligências anunciadas. 

É lícito supor, diante de tal constatação, derivada do bom senso e dos superiores interesses comunitários em jogo, que as forças investidas de poderes decisórios em torno de tão candente questão, captando nalgum instante o sentimento das ruas, se sintam compelidas a recuo em seu intento de levar a cabo empreitada tão desguarnecida de fundamentos técnicos e administrativos convincentes. 

Cesar Vanucci - Jornalista ([email protected])