IDEAIS E CORAGEM PARA INTERCEPTAR

Publicado em 14/06/2019 - marco-regis-de-almeida-lima - Da Redação

IDEAIS E CORAGEM PARA INTERCEPTAR

Neste mundo cibernético, mais intransponível do que o outrora Muro de Berlim, inteligências brotaram para lhe furarem as barreiras. Mundo digital ou virtual em que nos encontramos, onde nele navegam certas pessoas possuidoras da mesma coragem e idealismo daqueles que escreveram páginas de heroísmo nas guerras convencionais praticadas pela humanidade.

Nas mais atrozes das guerras humanas, foram estimados 9 milhões de mortos na I Guerra Mundial e entre 60 e 70 milhões na II Grande Guerra. Para nos determos apenas nesta última, em que o nazifascismo esteve por um triz para impor sua ideologia abjeta e sanguinária na face terrestre, há que se ressaltar a determinação contra as forças do Eixo - Itália, Alemanha e Japão - desenvolvidas pela aliança militar encabeçada pelos Estados Unidos (EEUU), União Soviética e Reino Unido, além da França e outros mais de 40 países, denominados de Aliados, sendo o Brasil o único da América do Sul a enviar tropas de combate para a Europa.

Claro que numa guerra desse porte valeu o poderio bélico-militar dos Aliados, mas, não deixaram de faltar episódios isolados de heroísmo como na Resistência Francesa, onde sobressaiu a estratégia do General De Gaulle para libertar seu país ocupado pelos nazistas e pelo governo colaboracionista de Vichy, que fez concessões nas áreas militar, administrativa, econômica e ideológica. A Resistência praticou ações terroristas como forma de sabotagem à logística germânica, utilizando-se da espionagem, redes de informação e explosões de pontos estratégicos, verdadeiras guerrilhas. Duas heroínas foram destacadas como combatentes francesas: Simone Segouin e a neozelandesa naturalizada, Nancy Wake. Também não se pode minimizar a resistência dos Partisans, na Jugoslávia, importante corredor logístico para o suprimento do exército alemão, onde também se estabeleceu um governo colaboracionista em territórios da Croácia e Bósnia Herzegovina. Neles, ainda se acrescentaram disputas étnicas e religiosas, com o massacre dos cristãos-ortodoxos sérvios, também de muçulmanos, verdadeiros genocídios  daí surgindo a grande liderança de Josip Broz Tito, não somente do lado dos partisans, mas como o futuro unificador da Jugoslávia.

A História Universal nunca pode ficar à margem dos acontecimentos, sempre precisa ser rememorada. O mundo atual passa a ser dominado pelas grandes corporações empresariais, que tornam os governos dos países reféns de seus interesses econômicos. Hoje, só se fala nos mercados, nos sistemas, em tecnologia, constituindo-se numa ditadura que varre fronteiras, concentra rendas, causa desemprego, aumenta a fome e a miséria, ignorando-se a solidariedade, os valores humanos, principalmente valores cristãos, que devem ser sustentáculos da humanidade.

Não podemos forjar a mentalidade das nossas crianças com os fictícios super-heróis do cinema,  televisão e videojogos e seu imaginário Palácio da Justiça. Temos de ensiná-las e incutir-lhes respeito a heróis de carne e osso, que se sacrificaram e se sacrificam por um mundo melhor. Exemplos polêmicos florescem neste princípio de milênio. A princípio são chamados de criminosos, de invasores digitais, de terroristas cibernéticos ou “hackers” do mal.

São pessoas que não devem ser ignoradas. Um deles, Julian Assange, um neozelandês criado na Austrália, é escritor, jornalista e programador de computação. Fundou o “site” WikiLeakes, em 2006. Associado à militar transgênero dos Estados Unidos (EEUU), Chelsea Manning, vazou em torno de 700.000 documentos secretos de natureza política, diplomática e militar dos EEUU, sobretudo de tortura e de violação dos direitos humanos no Iraque, no Afeganistão e na prisão de Guantánamo. A militar foi condenada a 35 anos de prisão, pena esta comutada, posteriormente, pelo presidente Barack Obama. Assange passou sete anos enfurnado, insalubremente, na embaixada do Equador, em Londres. Mais do que um asilado político, um verdadeiro prisioneiro. Esta situação chegou ao fim com a derrota eleitoral do governo esquerdista equatoriano e a desativação dessa embaixada, deixando-se o asilado à mercê do governo britânico, que o prendeu.  Os EEUU estão sequiosos pela sua extradição, enquanto esse processo segue curso na Pátria-Mãe dos norte-americanos.

Outro “site” que tem produzido estragos no “Sistema” e suas ramificações mundiais é o “The Intercept”. Foi ele o responsável pela celeuma provocada nesta semana, aqui no Brasil, com divulgações das tramoias da Lava Jato, em Curitiba, inclusive na acelerada condenação, sem provas, do Presidente Lula. O órgão digital nega o “hackeamento” dos documentos, o que se deu no aplicativo de mensagens utilizado, o russo “Telegram”. Com o Signal, ambos são considerados mais seguros do que o WhatsApp pela razão de possuírem códigos abertos, enquanto o do WhatsApp é fechado, ainda enfatizando-se a criptografia e outros meios de segurança.

“The Intercept” foi fundado em fevereiro de 2014, com sede nos EEUU, através de investimentos de 250 milhões de dólares, feitos pelo bilionário Pierre Omydiar, que contratou como seus editores Glenn Greenwald, ex-colaborador do diário inglês The Guardian, advogado e especialista em Direito Constitucional; Laura Poitras, cineasta, documentarista e escritora; e Jeremy Scahill, escritor e jornalista norte-americano do ramo investigativo. Tendo Greenwald estreitas ligações com o Brasil, através da sua união homoafetiva com o jornalista brasileiro, e atual deputado federal pelo PSOL-RJ, David Miranda, lançaram a versão “The Intercept Brasil”,em 2016, editada em português por jornalistas brasileiros independentes. Através do “The Intercept” foi posto a público, em 2013, a escabrosa revelação de um sistema global de vigilância desenvolvida pela NSA - National Security Agency = Agência Nacional de Segurança), órgão do Departamento de Defesa dos EEUU, que espionava governantes de todo o mundo, incluindo Angela Merckel e Dilma Rousseff, particularmente a Petrobrás no que tange a interesses petrolíferos.

Aprendi a significado de interceptar no corriqueiro linguajar do mundo futebolístico, quando um atleta toma a frente de outro, apossando-se da bola ou interceptando a jogada. Mas o interceptar que hoje abordamos é muito mais arrojado, altruísta e corajoso, porque extrai elementos da podridão humana nos meandros do Poder e as expõem publica e destemidamente, tentando despertar e incentivar seres humanos amorfos, alienados e entorpecidos para a cruel realidade mundana.

*Marco Regis é médico, foi prefeito de Muzambinho (1989/92; 

2005/08) e deputado estadual-MG (1995/98; 1999/2003)