O LEGADO DO SOCIALISMO NA RÚSSIA

Publicado em 06/07/2018 - marco-regis-de-almeida-lima - Da Redação

O LEGADO DO SOCIALISMO NA RÚSSIA

A 21ª Copa Mundial de Futebol caminha para o seu final nos mesmos moldes de uma longa e arrebatadora peça teatral de múltiplos cenários e imprevisíveis ações. Certamente que as multidões que se deslocaram para a Rússia – o país-sede – têm se deslumbrado com os contrastes urbanos existentes entre o antigo e o novo. Afinal, cidades como Nijni Novgorod e Moscou, dentre outras, contam com mais de 800 anos. Mesmo Saint Petersburg, que começou a ser edificada pelo czar Pedro I, o Grande, a partir de 1.696, tornando-se capital do Império Russo em 1712, ainda conservam suas grandiosas fortalezas (os “kremlim” dos imperadores).  Enquanto isso, as emoções dos turistas nos modernos estádios oscilam entre alegria e decepção, orgulho e fracasso. Esperta mesmo é a FIFA – Federação Internacional de Futebol ‘Association’ – que aufere os lucros advindos dos ingressos, dos “souvenires”, das punições aos países e atletas que fogem do seu roteiro, dentro do campo ou mesmo através de manifestações cívico-políticas lá nas arquibancadas, das transmissões multimídias e dos polpudos patrocínios capitalistas.

Eu que nem ao menos sou possuidor de passaporte, avesso que sou a esse nomadismo internacional, paradoxalmente, continuo a viajar mundo afora por meio da minha imaginação. Da mesma maneira que os meios de transporte evoluíram desde o lombo de animais, carruagens, embarcações marítimas, trens, bicicletas, automóveis, aviões e naves espaciais, fiz minhas primeiras viagens pelos livros de geografia e história e pelo rádio. Como o mundo é dinâmico, vi as primeiras imagens de televisão lá pelo princípio da década de 1960, num jurássico aparelho em preto e branco, com imagens sempre borradas por bombardeios de chuviscos, no Bar Magestic, de Muzambinho, do inesquecível esportista Nilo Bortolotti, no mesmo prédio do Cine São José e, realmente, com grafia em “g” e não com “j”, na fachada luminosa das noites. Nos últimos anos tenho sido assíduo “passageiro” de belíssimos e coloridíssimos documentários de televisão, mormente os atuais da ‘Netflix’, sem dispensar minha velha coleção da Enciclopédia Delta Larousse e o Almanaque Abril, bem mais aconchegantes que o Google.

Porém, na Rússia eu gostaria de estar. Talvez até quisesse ser transportado no túnel do tempo para o solo soviético. Não para ver o embalsamado defunto Lenin num mausoléu da Praça Vermelha, mas sim, o camarada Lenin trajando o uniforme bolchevique no princípio da Revolução Russa. A propósito, sirvo-me deste texto para agradecer ao Dr. Antônio João Salvador, um advogado de vasta cultura e revestido de simplicidade, que, ano passado, por ocasião do Centenário da Revolução Russa, teve a gentileza de vir à minha casa me presentear com os cadernos especiais dos jornais “Folha” e “Estado”, de São Paulo, alusivos a tão marcante efeméride, os quais, neste momento, releio e utilizo para incorporação de ideias neste artigo.

Como não me lembrar da Revolução Russa de 1917 diante das transmissões diretas de boletins e de todos os jogos do Campeonato Mundial de Futebol, na Rússia/2018? Não há como dissociar um acontecimento do outro. O de agora une os povos. O do século passado dividiu o nosso mundo, a partir da implantação de outra forma de governar uma nação, uma extensa federação.

Não há dúvidas que o socialismo real, que sobreviveu durante 70 anos, falhou em pontos cruciais como na supressão das liberdades individuais, mormente da liberdade religiosa. Mas, ninguém pode contestar que nessas poucas décadas, a Rússia, então União Soviética, emergiu da pobreza de um país agrário tornando-se uma potência educacional, esportiva, cultural, militar e aeroespacial. Fracassou? Sim, fracassou porque, fundamentalmente, não deu conta de competir com o poder e a promiscuidade gerados pelo dinheiro e seus donos, enfim com o capitalismo. Não deu conta de competir com o resto do mundo em investimentos na área militar dentro do país e subsidiando os seus aliados como Cuba, Coreia do Norte, Vietnam e tantos outros, conquanto esses investimentos poderiam melhor ser canalizados no bem-estar da população do bloco soviético. Mas, se não o fizesse dessa forma não sustentaria a luta contra seus inimigos.

Entretanto, nos tempos do regime socialista, a Rússia colocou em órbita o 1º satélite artificial (Sputinik), o 1º homem no espaço (Yuri Gagarin), naves teleguiadas lunares e em outros planetas, sendo que até hoje é parceira necessária na manutenção da Estação Espacial Internacional (ISS). A Rússia é importante potência militar-atômica, ajudando a manter a atual “ordem mundial”. Nos tempos de União Soviética, esta era sempre a frontal competidora com os Estados Unidos como maior ganhadora de medalhas olímpicas, sendo o país, até hoje, forte concorrente em diversas modalidades esportivas. Seu prestígio mundial é notório na área cultural (cinema, teatro, balés, literatura). Seu IDH – Índice de Desenvolvimento Humano – conforme publicação de 2015 do PNUD (ou UNDP na sigla em inglês) – Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento – é 0,798 (ALTO). Dentre 188 países, o IDH russo ficou em 50º lugar, enquanto o do Brasil, 0,755 (ALTO), em 75º lugar, sendo que os que ocupam os cinco primeiros lugares (MUITO ALTO) são: (1º) Noruega = 0,944; (2º) Austrália = 0,935; (3º) Suíça = 0,930; (4º) Dinamarca = 0,923; e (5º) Holanda = 0,922. No que tange à Educação, um texto na revista “VEJA”/André Fuentes, publicado em 15-fev-2017, referente a um “ranking” da educação mantido em 36 países pela OCDE, elaborado em 30-abr-2014, é ilustrado com essa listagem. Na avaliação em questão, a OCDE  – Organização para a Cooperação do Desenvolvimento Econômico – entidade cuja sede fica em Paris, ela se utiliza de critérios como: (1) - a média de anos que os alunos passam na escola – média OCDE = 17 anos, ficando o Brasil com a média de 15,9 anos (INFERIOR) e a Rússia com 16,1 anos (INFERIOR); (2) - percentual de pessoas entre 25 e 64 anos que concluíram o curso médio: média OCDE = 74%, constando o Brasil com 49% (INFERIOR) e a Rússia com 95% (SUPERIOR); (3) Índice PISA, “que avalia o desempenho das habilidades essenciais para a plena participação nas sociedades modernas, testando a habilidade dos alunos na leitura, na matemática e em ciências, pois estas avaliações dão prognósticos mais confiáveis para o bem-estar econômico e social do que a quantidade de anos passados na escola”. Neste quesito, a média OCDE é de 486 pontos, ficando o Brasil com 395 pontos (INFERIOR) e a Rússia com 492 pontos (SUPERIOR). Finalmente, na Saúde, foram a União Soviética / Rússia pioneiras na ‘universalização da saúde’ à semelhança do nosso SUS.

Para nós que defendemos o socialismo como um sistema não de igualdade entre as pessoas, mas de igualdade de oportunidades, dentro de um Estado disciplinador da sociedade, a Copa do Mundo na Rússia tem sido uma excepcional oportunidade para que as pessoas reavaliem preconceitos que carregam, pois foi aquele período da vida russa que a colocou entre os países de vanguarda no concerto das nações. A rica cultura russa e a sua notável arquitetura são heranças do seu passado longínquo – dos conflitos tribais, dos principados e do czarismo – mas, a educação, a saúde, a tecnologia, o poderio militar são legados do estupendo avanço nos tempos soviéticos, sempre com a nossa condenação ao totalitarismo, que ultrapassou os limites da nossa condição humana.  Com a queda do comunismo, a praga do capitalismo lhes trouxe a máfia, as drogas e outras mazelas que, de longe, não conseguimos vislumbrar. Ainda bem que Vladimir Putin, oriundo daqueles tempos “disciplinadores do estatismo” continua a ter apoio popular para conter essas distorções, dentro de um regime democrático à moda que convém na cultura deles.

*Marco Regis de Almeida Lima é médico, foi prefeito de Muzambinho (1989/92; 2005/08) e deputado estadual-MG (1995/98; 1999/2003) – [email protected]