NA IDEOLOGIA DA NOVA POLÍTICA RENASCE O VELHO PFL

Publicado em 08/02/2019 - marco-regis-de-almeida-lima - Da Redação

NA IDEOLOGIA DA NOVA POLÍTICA RENASCE O VELHO PFL

Um equipamento de parque de diversões – a roda gigante – pode muito bem expressar os momentos da política no mundo todo. As ideias, ou o poder político, sobem e descem ao sabor dos acontecimentos sócio-político-econômicos. São verdadeiras ondas que ora deixam protagonistas por cima ou por baixo nesse complexo cenário. Verdadeiras ondas varrem os mapas políticos de tempos em tempos não sobrando aqui espaço para as suas descrições. Apenas devo realçar que, na atualidade, a direita ou sua versão um pouco mais atenuada, a centro-direita, tem fincado as suas bandeiras nos lugares mais elevados, conduzidas pela problemática moderna da oferta de emprego e pelos movimentos migratórios.

Migrações sempre houve. Em épocas remotas o homem era um permanente migrante, mudando de lugares na luta pela sua sobrevivência, procurando a sua comida. A fixação atual pelo processo de urbanização costuma ser a regra, mas o nomadismo ainda existe, mormente os migrantes. Imigrante é o indivíduo que chega a um certo lugar para nele viver; emigrante é o sujeito que deixa o lugar de origem procurando um novo destino para viver. Há os migrantes espontâneos que trocam de lugar por razões econômicas ou por melhor realização profissional; por outro lado há aqueles que fogem de catástrofes, guerras ou perseguições políticas, catalogados como refugiados. Pois, hoje, cresce a aversão aos estrangeiros – a xenofobia – que, na visão das populações nacionais, estariam competindo pelo emprego delas. Está aí a mola propulsora das disputas políticas deste novo milênio. Exatamente um tempo em que a tecnologia rouba o trabalho humano, enquanto guerras, ditaduras, banditismo organizado e catástrofes naturais criam legiões de refugiados, tais como: sírios, palestinos, iemenitas, haitianos, salvadorenhos, hondurenhos, guatemaltecos, cubanos, venezuelanos e africanos.

A xenofobia se nutre pelo ódio racial, pelos atritos religiosos, pelas influências culturais e pela suposta usurpação do emprego. Passa pela prática de atos terroristas atribuídos aos estrangeiros. Essa conjunção de fatores vem guindando à liderança política dos mais diversos países ocidentais, que exaltam a democracia como modelo ideal de sistema político, indivíduos refratários a tais valores democráticos e à solidariedade humana. Assim subiu ao poder a extrema-direita da Polônia, com Mateusz Morawiecki; da Hungria, com Viktor Orbán; e da Áustria, com Sebastian Kurz. Na França e na Holanda essas mesmas forças reacionárias disputaram o 2º turno das últimas eleições nacionais. Entre os germânicos percebe-se a perda de força de Angela Merkel e a ascensão da extrema-direita que defende o lema “Alemanha para os alemães”. Nos Estados Unidos da América, Donald Trump pregou, defende e tenta aplicar um nacionalismo extremado. Até o Reino Unido com o seu Brexit tenta se livrar do unionismo europeu, todos eles em rota de colisão com o globalismo, que parecia ser o mundo do século 21 – uma proposta indecente para abocanhar as riquezas das nações menos desenvolvidas.

As influências direitistas motivadas pela Guerra Fria sempre foram uma constante na América Latina. Sofrem, agora, um momento de acirramento depois de um hiato esquerdista de mais de uma década, em inúmeros países latino-americanos. A esquerda sucumbiu ante à corrupção das suas lideranças envolvidas pelo grande empresariado corruptor. Dessa cultura não escapou o Brasil. Tempos atrás, o economista Luiz Carlos Bresser Pereira, um dos ícones dos governos de Fernando Henrique Cardoso, alertava: “A direita brasileira recuperou a voz. Mas, é uma voz vazia, liberal e moralista”. Então ele explicava que voz liberal pelo entendimento de que a solução é liberalizar os mercados; voz moralista porque adotou discurso de condenação moral dos políticos de esquerda. Devo acrescentar que há dezenas de anos a corrupção fincara raízes e somente o Partido dos Trabalhadores foi duramente execrado – inúmeras vezes perseguido.

Porém, a roda gigante sobe e desce. A nossa conturbada democracia nunca esteve fora do princípio fundamental da roda gigante, que cunhamos no início deste artigo, ou seja, ‘ao sabor dos acontecimentos sócio-político-econômicos’. A grande massa eleitoral, desprovida de conhecimentos técnicos básicos, mas sensível às necessidades de vida inadiáveis, apartidária, é um pêndulo que oscila para o lado que melhor lhe convenha. Observemos que nas últimas eleições essa massa foi atraída pela disciplina e pelo moralismo militar na esperança do exorcismo à corrupção e na pregação de amparo diante da insegurança e da violência reinante no nosso País. Sonoro e impositivo foi o lema de Jair Bolsonaro: “Brasil acima de todos e Deus acima de tudo”. Nele a obediência à Pátria e a supremacia divina sensibilizaram as pessoas submissas à fé religiosa, até os hipócritas que desejam a posse e o porte de armas mortíferas e aqueles que não estão nem aí para um dos pilares do cristianismo que é “amai-vos uns aos outros”. O combate às imaginárias doutrinas oficiais da Escola sem Partido, do “kit gay” e do evolucionismo darwiniano se disseminaram entre correntes religiosas. A massa ignara, que se ilude com as palavras acabou se aliando a quem menos chances lhe dará – uniu-se à bancada ruralista, à bancada da Bíblia e à bancada da bala, ou seja à Bancada BBB.

A exaltação incontida à Israel da atualidade obnubilou correntes evangélicas sobre o nada que Jesus Cristo representa para o judaísmo, exceto que foi o filho de um casal de judeus que fundou uma nova religião, mais nada para eles. Curioso o fato de tais correntes evangélicas se insurjam contra bandeiras vermelhas que não identificam nacionalidades nem religiões, sim meros ideários como outros quaisquer. Entretanto, tremulam bandeiras azuis do Estado de Israel, como na posse da ministra Damares Alves, do próprio Presidente Bolsonaro e noutras ocasiões. Interessante seria que os cristãos visualizassem vídeos no You Tube, com indagações e respostas, principalmente de rabinos e habitantes de Israel, tipo “Quem é Jesus para os judeus?” (https://www.youtube.com/watch?v=ghVP_c5ac1E) ou mesmo uma série do rabino Ventura: “Por que os judeus não acreditam em Jesus? (a respeito de Isaías 53)”. Não pretendo através destas considerações criar nenhum conflito religioso, apenas trazer à tona que a religião dominante em Israel não é a mesma dos cristãos, sejam católicos ou protestantes. Mas, muita gente fez uma salada de política e religiões.

A propósito, o novo presidente do Senado Federal, David Samuel Alcolumbre Tobelem (DEM/Amapá), o terceiro nome da linha sucessória presidencial, obteve decisivo apoio do PSL, partido do Presidente da República, bem como do ministro da Casa Civil, Onyx Lorenzone (DEM/RS), da deputada federal e ministra da Agricultura, Pecuária e Abastecimento, Tereza Cristina (DEM/MS) e do deputado federal e ministro da Saúde, Luiz Henrique Mandetta (DEM/ES). Alcolumbre tem origem judia, havendo seus antepassados, judeus marroquinos, sefarditas – fugitivos da Inquisição em Espanha e Portugal ao final do século XV– vindo para o Brasil no princípio de 1900, durante o Ciclo da Borracha. Ele está no 4º ano do seu primeiro mandato na Casa, mas foi deputado federal por outros dois mandatos. A grande imprensa o tem rotulado como adepto de hábitos da velha política, embora o discurso governamental e a militância feroz exaltem a nova política.

Na Câmara Federal, o deputado Rodrigo Maia (DEM/RJ), o segundo na linha sucessória que pode substituir o Presidente, foi reeleito para o comando do legislativo federal, outro nome surgido na velha política.  Inicialmente rejeitado pelo PSL e apoiado por partidos de esquerda, inclusive o PT, acabou sendo aceito como alternativa pelo PSL embora não tenha lá afinidade com o seu próprio colega de partido Onyx Lorenzone. Certo é que o PFL trocou seu nome para Democratas – DEM – porque antes estava pouco aceito e definhando. Sua origem não era lá muito recomendável, pois veio da casuística e fisiológica ARENA, sustentáculo parlamentar e popular da ditadura militar, que nos seus estertores tornou-se PDS. Eis que, de repente recupera prestígio, justamente com o atual governo militar, agora democrático. Até ensejou artigos como “O velho PFL volta ao coração do poder”, por Bernardo de Mello Franco, colunista de ‘O Globo’ e “O velho PFL tem, de novo, as rédeas do poder”, no blog da TV Cidade Verde/SBT, de Teresina, do professor e cientista político da UFPI, Fenelon Rocha.

Por mais que alguns novatos queiram revolucionar os métodos políticos, incluindo o famoso apresentador esportivo e hoje senador por Goiás, Jorge Kajuru (PSB/GO), tudo é questão de momento e de aparências. A política é uma onda que vai e que volta. Melhor mesmo é ter consciência de que ela é uma grande roda gigante, que, certos tempos mostram as pessoas por cima, mas, que, sem dúvida alguma as trarão para baixo.

*Marco Regis de Almeida Lima é médico, foi prefeito de Muzambinho (1989/92; 2005/08) e deputado estadual-MG (1995/98; 1999/2003)  -  [email protected]