Morte ou renascimento diante da podridão brasileira

Publicado em 24/11/2017 - marco-regis-de-almeida-lima - Da Redação

Morte ou renascimento diante da podridão brasileira

Há dias fui questionado por um amigo dileto sobre o porquê da minha fuga acerca do debate da política brasileira. Certamente que ele acompanhou minha sequência de artigos na defesa intransigente da estremecida democracia brasileira, consequentemente de combate ao último golpe de estado – que muito cedo vislumbrei. Não fosse a falta de grana, bem que imaginei editar um livro que teria como título algo parecido com ‘Gritos contra o Golpe Ecoam pelas Ignotas Montanhas de Minas’. Meu material produzido para “A Folha Regional”, de Muzambinho e “Jornal da Região”, de Guaxupé, abordando o tema em questão é farto. Os artigos brotaram da minha alma, mesclando experiências políticas por mim vividas com a análise dos momentos conturbados em que ocorriam. Talvez tenha sido eu dos primeiros a bradar um alerta contra o golpe de estado perpetrado contra o legítimo e constitucional governo de Dilma Roussef. Ambos os semanários publicaram em 31 de outubro de 2014 minha coluna intitulada “O Brasil reapresenta um cenário de golpe de estado”. Os desatentos vão perguntar: pois o que existe de extraordinário ou premonitório nesse escrito? Retruco, apelando que atentem para a data 31-10-2014. Traduzo, rememorando que a data em questão, dia da publicação, foi o primeiro final de semana após a reeleição de Dilma Roussef, portanto, escrito no meio da semana, três ou quatro dias depois da reeleição dela. Modéstia à parte, me arrepio de relê-lo neste momento, tamanha era a minha visão de que ela poderia não resistir à pressão da mesma gentalha que levou Getúlio Vargas ao suicídio; da mesma gentalha que tentou impedir não somente a posse, como todo o governo, de Juscelino Kubistcheck; da mesma gentalha que deu o golpe do parlamentarismo em João “Jango” Goulart; da mesma gentalha que induziu os militares a aplicarem o golpe de estado de 1964. No final do texto, considerando que nossas Forças Armadas não mais seriam enredadas por “uma ameaça comunista” outrora propagada pela mesma gentalha, nem a poderosa Igreja Católica voltaria a se deixar envolver pelo mesmo ardil, manifestei otimismo que a democracia sobreviveria. Apesar da neutralidade desses dois segmentos, mas com a complacência de uma elite do Judiciário, os acontecimentos foram se avolumando e a tibieza política do governo Dilma não resistiu, os golpistas triunfaram. Hoje, somos governados “por uma organização criminosa”, segundo reiteradas denúncias do Ministério Público Federal.
Entretanto, há males que vêm para o bem. Se segmentos do PT – Partido dos Trabalhadores – trilharam os mesmos caminhos da corrupção, hoje pagam caro, na cadeia alguns, outros na iminência de irem para lá. Até creio que os petistas de má índole receberam o “mapa dos malfeitos” dos seus ex-aliados, depois golpistas, tamanha a rapidez e desenvoltura com que se enturmaram no banditismo político. Ora veja, que a saída do PT do cenário criminoso, porém com as investigações avançando, levaram à descoberta de ladrões contumazes do dinheiro público. É o caso de Gedel Vieira Lima, aquele do apartamento recheado de reais e de dólares – 51 milhões. Lá atrás, no governo Sarney, ele ainda era um jovem deputado, mas envolvido na corrupção dos chamados ‘Anões do Orçamento’. Emílio Odebrecht Filho afirmou em Juízo, perante câmeras de TV, que a sua empresa pagava propinas havia 30 anos. A ira de políticos, juízes e promotores contra o PT, especialmente da “República de Curitiba”, foi benfazeja porque este partido foi apenas a ponta da linha de um grande novelo.
Todavia, convenhamos que a partir do “mensalão” e da “Lava Jato” ficou claro que a ladroagem medra por todos os cantos da vida brasileira. Se as investigações puxassem mais e mais esse tal novelo, onde quase todas as grandes e famosas empreiteiras já se revelaram cúmplices na roubalheira, inumeráveis outras, médias e pequenas, seriam desmascaradas. Principalmente e independentemente de tamanho, todas que se revelem financiadoras de favoritos a governadores de estados e à presidência da República.
Vamos mais longe, não somente políticos e empresários brasileiros estão envolvidos na roubalheira. Profissionais liberais que, antes da abertura de faculdades e universidades do governo para os mais pobres – inegável avanço dos governos Lula e Dilma – se formavam à custa de abusivas e impiedosas mensalidades nas escolas particulares. Como se comportariam ao se diplomarem? Recuperar para si e para a sua família o investimento feito, custasse o que custasse, passando por cima de padrões morais e éticos. Mais lamentável, porém, foi descobrirmos que grande parte da Justiça brasileira foi contaminada. Coitadinhos de nós nas mãos decisivas de tanta gente suspeita. Aos mais pobres, aos marginalizados, não restaria outra opção que não enveredarem para o tráfico de drogas e outras sendas do crime organizado. A impunidade dos grandões foi gerando tudo isso, que não é novidade, pois lá atrás já cantava Cazuza: “A burguesia fede/ a burguesia quer ficar rica/ enquanto houver burguesia/não vai haver poesia”.
Há saída? Tem de haver. Nem que com cataclismos e convulsão social. Culpar o povo mais simples pelos políticos que elege é um pouco de conveniência. Tem muita gente com certo grau de discernimento ou mais estudos que vai continuar votando nessa cambada de deputados federais ou senadores que ajudou a proteger “a quadrilha que nos governa, a organização criminosa de Michel Temer, Eliseu Padilha, Moreira Franco”, segundo denúncias reiteradas do Ministério Público Federal, repito. Não são os mais simples que vão arranjar votos para eles, são lideranças políticas com ou sem mandato. Aqui mesmo, nas cidades da nossa região, vão continuar votando nessa corja. A não ser que haja uma reviravolta como aconteceu nesta semana em Machado-MG, onde 12 vereadores se mobilizaram em denunciar e, inclusive, cassaram/anularam o título de cidadão honorário machadense concedido a três políticos anos atrás. Foram eles: deputado federal Aelton Freitas (em 2002), que é formado pela Escola Superior de Agricultura de Machado; a Eduardo Azeredo (em 2002), ex-governador; e a Aécio Neves (em 2012), senador e ex-governador. A notícia foi divulgada no Jornal Regional do meio dia, desta 3ª.feira, na EPTV/Varginha. Quem sabe este seja um começo de virada, pois partiu da maioria da Câmara Municipal de Machado. Difícil é engolir a ‘cara de pau’ de deputados que protegeram Temer e Cia. Devido “à melhora da economia”, como explicou um deputado na Rádio do Povo de Muzambinho. Em nome do que quer que seja os corruptos devem prestar contas à Justiça, não havendo desculpas para a proteção que deram a Temer, Moreira Franco, Padilha e a Aécio Neves.
Para mim, profissional da saúde, ou drena o pús para o renascimento ou é a morte!

* Marco Regis é médico, foi prefeito de Muzambinho (1989/92; 2005/08) e deputado estadual-MG (1995/98; 1999/2003) – [email protected]