Até que a morte os separe

Publicado em 20/10/2017 - marco-regis-de-almeida-lima - Da Redação

Até que a morte os separe

A sentença é matrimonial, repetida nas cerimônias religiosas cristãs nas quais se unem mulher e homem através do casamento. Para os católicos, uma união indissolúvel caracterizada como um dos sete sacramentos da Igreja, para dar, confirmar ou aumentar a Graça, sendo os demais: o batismo, o crisma, a eucaristia, a penitência, a extrema-unção e a ordenação eclesiástica. Entretanto, para os evangélicos apenas dois seriam os sacramentos: o batismo e a Santa Ceia, embora enfatizem solenemente o preceito bíblico do “que Deus uniu não separe o homem”.

          Mas, o mundo virou do avesso. Há hoje uma variedade extensa de casamentos para todos os gostos e durabilidade. O mundo massificado foge dos costumes tradicionais e do controle religioso. A morte natural que inexoravelmente separava os casais, atualmente é antecipada em proporções alarmantes por espancamentos domésticos, tiros, facadas, venenos e meios de asfixia. A oração final que confortava a separação cada vez mais é substituída pela perícia criminal.

          Raciocinando melhor, verifico que essa separação pela morte veio se transformando do global, de um todo, até atingir a unidade familiar. Ou não foi assim na construção da história da humanidade? Tribos, impérios, reinos, principados e nações, ora se juntaram e ora se separaram pela ação das flechas, lanças, espadas, da pólvora, das balas de fuzis, canhões e bombas, até da energia do átomo.

          Vasto é o interesse humano. Tão desmedido quanto seu inconformismo. Mais alto falam as raças e etnias, as crenças religiosas, as tradições culturais, as ideologias políticas e muito mais do que tudo isso, o maldito dinheiro. Disso decorrem os conflitos separatistas a exemplo do que envolve os curdos na Turquia e no Iraque; os chechenos na Rússia; os taiwaneses e a China; os catalães, bascos, galegos, andaluzes e castelhanos na Espanha.

           Na verdade, minha motivação no desenvolvimento deste artigo vem do recente e recorrente noticiário da separação da Catalunha, próspera região espanhola na qual se destaca Barcelona. Pessoalmente, sou um conciliador, portanto um antisseparatitista. Fico a pensar que a España devesse se acomodar nessa união atual, depois de um passado de ocupação por fenícios, gregos, romanos, visigodos e os povos bérberes do norte da África e/ou Magreb – os tão falados mouros.  Que fragilidade e desencanto virariam o futebol, futsal, voleibol e basquete espanhol ou catalão separando-se Madrid de Barcelona? Como dissociar acontecimentos da Catalunha como: a ferocidade da ditadura de Franco, a arte de Gaudi, a Catedral da Sagrada Família, e sua força industrial do restante da Espanha?

           O recente golpe de estado brasileiro, fruto da aliança de elites políticas e empresariais corrompidas e apodrecidas ao longo de décadas, contrapôs-se à pseudo-esquerda deslumbrada com o poder e também vulnerável à corrupção. Entre essas partes e seus adeptos esparramou-se um odioso mar de lavas que excitou e exaltou o ânimo dos brasileiros, antes cordato e agora de contenda agressiva. Como consequencia disso, as redes sociais revolveram polêmicas e projetos separatistas do nosso passado. Uma delas, a criação de um novo país pelo desmembramento do Paraná, Santa Catarina e Rio Grande do Sul. Ou mesmo, o São Paulo Livre.

            Da mesma maneira que parcela de gente da Catalunya se opõe à sua própria emancipação, ou o restante da Espanha clama pela união das suas diversas regiões, verdadeiros brasileiros agem de igual maneira. Não seremos nós mineiros, da terra da Inconfidência e de outras lutas libertárias; nem os altivos filhos do Nordeste brasileiro, que combateram durante anos os invasores franceses e holandeses, que faríamos uma trama traiçoeira. Deduzimos que o separatismo no Brasil é fomentado por endinheirados sem pátria e por filhos imbecis da globalização. Eles que não percebem que essa globalização antes contestada pelos países periféricos, também passa a ser rejeitada pelos ingleses do Brexit e pelos Estados Unidos da Era Trump. Os estados-nacionais voltam a ganhar força e o nacionalismo ganhou mais duas eleições neste domingo (15/10), Áustria e Venezuela, fora o crescimento na França e na Alemanha, nos últimos tempos.

             Para esses “brasileiros”, cujos antepassados vieram de outras partes do mundo – a fim de ganhar dinheiro e não para se plasmarem à nova Pátria – a eles sugiro um nome para seu idealizado país a separar-se dos verdadeiros brasileiros: REPÚBLICA DO NOVO EIXO, em alusão à aliança que boa parte dos seus ancestrais fez na II Grande Guerra Mundial.

              Àqueles mais jovens, ou aos mais vividos e de memória enfraquecida, quero lembrar meu antigo posicionamento contra movimentos separatistas, reproduzindo manchetes e textos de jornais regionais, de Belo Horizonte e São Paulo, de Junho de 1989, justamente no 1º semestre do meu 1º mandato de prefeito de Muzambinho, digladiando idéias com o então prefeito de Guaxupé, Toninho Zeitune, que propôs a criação do Estado do Rio Grande de Minas, circunscrevendo 156 municípios, situação em que fui o principal opositor.

             A propósito, a desintegração da Iugoslávia, na década de 1990, foi amplamente estimulada e aplaudida pelos Estados Unidos, Reino Unido, França, Alemanha e o “cordão dos puxa-sacos”. Na condição de político me coloquei em contrário. Em situação diversa, esses mesmos países fizeram um barulhão quando da anexação da Criméia à Federação Russa, em 2014, através de referendo popular na região em questão, que resultou em 96,77% a favor da integração. A península da Crimeia fora havida pela Rússia no século XVIII após vitória em guerra contra o Império Turco-Otomano. Depois, em 1954, foi repassada à Ucrânia pelo Primeiro-Ministro soviético, Nikita Kruschev, que era ucraniano e quis compensar seu país de origem pela sua farta produção agrícola, celeiro para o mundo comunista.

           Ao publicar artigo, que pode ser revisitado no arquivo deste semanário, de 25-Fev-2014, intitulado “IUGOSLÁVIA PODE, UCRÂNIA NÃO PODE”, defendendo a incorporação dessa península de volta à Russia, adotei posicionamentos históricos e ideológicos, continuando, acredito, a manter minha coerência sobre desmembramentos territoriais.

              Contrariados com os habitantes russos, que constituem a esmagadora nacionalidade predominante na península, que optaram pela volta à Federação Russa, os aliados dos Estados Unidos – “o cordão...” – aplicou como sempre um castigo capitalista, qual seja, sanções comerciais à Russia, mais claramente, medidas impeditivas para que os componentes do “c o r d ã o” não façam transações comerciais com o país punido – descalabro a que se submetem os membros do “cordão”, o que já foi feito ou é feito com Cuba, Irã, Coreia do Norte, Rússia, Venezuela e outros. Em 19-Fev-2017, o portal Sputnik Brasil postou: “Não, obrigado! Rússia não trocará Crimeia pela remoção de sanções”, rebatendo alguns meios de comunicação estrangeiros que assim especularam e demonstrando que esse povo eslavo não é submisso à curriola “guardiã do planeta”.

*Marco Regis é médico, foi prefeito de Muzambinho (1989/92; 2005/08) e deputado estadual-MG (1995/98; 1999/2003) – [email protected]