AS CIDADES E OS SEUS ANIVERSÁRIOS

Publicado em 01/12/2017 - marco-regis-de-almeida-lima - Da Redação

AS CIDADES E OS SEUS ANIVERSÁRIOS

Os registros históricos são eivados de dúvidas e contradições. Há que se lembrar de épocas remotas, anteriores à invenção da arte de imprimir e, mais ainda, anteriores à escrita. A começar pelos próprios nomes e idades dos nossos antepassados brasileiros, muitas vezes familiares nossos.  Que o digam os advogados, notários, juízes e promotores ainda hoje em atividade. Duvido que, pelas mãos ou serviços profissionais deles, questionamentos não possam haver pairado por não saberem ao certo a origem, o sobrenome ou a data de nascimento de uma pessoa. Nem sempre dispusemos de serviços ou obrigações cartoriais. Numa época não muito distante, em que a influência da Igreja Católica era imbricada com o Estado, a origem de uma pessoa estava no batistério, ou seja na certidão de batismo. E daquelas, onde não houve batizado nem havia cartório, donde restabelecer o correto? 

                Aponho tais dúvidas, ao ensejo da comemoração do 137º aniversário de Muzambinho, pois nos meus tempos de ginasiano, nesta culta cidade, as festividades do seu aniversário e, por conseguinte, o feriado municipal, se davam no dia l2 de novembro. Na realidade, uma confusão entre a ascensão do povoado à condição de Vila, pela Lei Provincial nº2.500, de 12 de novembro de 1878, em confronto com sua elevação à categoria de Cidade, através da Lei Provincial nº2687, de 30 de novembro de 1880 – que é omitida em certos históricos. Assim sendo, sugiro ao “Setor de Patrimônio Histórico, Artístico e Cultural de Muzambinho, em PDF de responsabilidade da Prefeitura Municipal”, que possa fazer as devidas correções ou suprir as omissões contidas naquele longo histórico que é chancelado pela administração municipal – certamente que não foi produzido nesta gestão, mas publicado em papel timbrado da municipalidade.

                   Nunca gostei das efemérides melosas. Para ser sincero, casei-me numa 5ª. Feira, com convites verbais e sem festas – na Primeira Igreja Presbiteriana de Belo Horizonte, localizada no alto da Avenida Afonso Pena da Capital Mineira. Na lua-de-mel, não viajei para locais paradisíacos, mas fiz uma viagem de ida e volta, por via férrea, entre BH e Vitória, com duração de 12 horas, que até hoje é um deleite para os mineiros amantes da natureza e que vão curtir as praias capixabas da Capital, Vila Velha, Piúma ou Guarapari. Meus três filhos nunca tiveram festas de aniversário, exceto o 10º da minha primogênita, que isto pedira, mesmo assim em acanhada e modesta área aqui da minha casa no Jardim Canaã. Claro que comemoramos aniversários e outras datas de família, mas sempre de maneira restrita e simples. Para não passar por mentiroso, fiz uma festa na minha reeleição como deputado estadual para brindar tantos e entusiastas amigos que foram prestigiar a minha posse. Já com mais de setenta anos, isso foi pouco para tanta rodagem de lutas.

                    Por falar em maneiras de viver e de comemorar, não posso deixar de me referir ao 30 de novembro de 2005 – 125º aniversário de Muzambinho. Era o primeiro ano do meu segundo mandato e herdara uma prefeitura com dificuldades financeiras. Mais do que isso, minha índole sempre foi de recato e prudência. Por coincidência, a data transcorreu chuvosa, merecendo mais meditação que ribombar de fogos – como apraz à “elite fundadora da cidade” e aos seus bajuladores. Por volta do meio dia, ouvindo o “Regis Policarpo Entrevistas”, pela local Rádio do Povo, ele apimentava o bate-papo com antiga funcionária da Prefeitura, por sinal minha colaboradora no primeiro mandato, a quem muito eu respeitava, disparando a seguinte pergunta: “O que acha a senhora desta data sem comemoração por parte do atual prefeito”? Para a minha decepção e amargura veio a resposta: “Quem não nasceu nesta cidade não tem o compromisso de fazer festa conosco”. Estava ali o ranço de uma derrotada nas urnas e o preconceito contra os que aqui não nasceram.

                        Poucos reconhecem a contribuição dos “forasteiros” e sua integração com o pedaço de chão que adotaram para viver nesse mundão de Deus. Atingindo-me, entrevistador e entrevistada, inconsequentemente atingiram a tantos e tantos que no passado e no presente deram o melhor de si para Muzambinho. Ou, mais enfática e solenemente, como canta a estrofe do Hino de Muzambinho: “Os teus filhos em todos os setores / deram sempre de si para a cidade, / está claro que esses seus labores / deram frutos, quem colhe é a mocidade”. Aliás, o belíssimo hino, foi o clímax de Concurso Público realizado em 1992, no meu primeiro mandato de Prefeito Municipal, cumprindo Ato das Disposições Transitórias da então e recém-promulgada Lei Orgânica do Município de Muzambinho. Lembro-me que competiram: Professora de Música, Dirce Agostinho Gaspar; uma senhora da tradicional família de músicos – os Cesarinos – residente em Poços de Caldas; o jovem cantor e hoje regente, Acácio Donizetti Vieira e a também professora de música residente em Poços de Caldas, mas com laços familiares em Muzambinho e Guaxupé, Lilia Barbosa Mantovani – a VENCEDORA. Os concorrentes enviaram envelopes lacrados contendo a letra, a partitura musical e o arranjo musical gravado em fita Kásséti. Os jurados: Professora e escritora Meiga Vilas Boas Vasconcellos, Professora e Pianista Zélia Rondinelli e a Profa. De Música do Conservatório de Música de Poços de Caldas, Andréia Turato. Há uma única crítica que rola neste Hino, que poderia sofrer um adendo – uma menção aos negros escravos – realmente a razão de ser da nossa toponímia.

                     Assim vemos e assim comemoramos aniversários na minha casa: com reflexão, sem alarido e com amor. Aniversários de cidades também devem ser comemorados com nostalgia, reverência e amor.

                      Oxalá, conservemos o nosso planeta como algo vivo e cósmico. Oxalá, nenhum astro ou grande meteoro rompa com as leis universais, colidindo contra nós. Oxalá, nenhum buraco negro não nos engula. Sendo assim, se passarem mais dezenas de séculos, os muzambinhenses naturais e adotivos possam se vangloriar de uma vida milenar. A propósito, a cidade mais velha e habitada do nosso mundo é Jericó, na Cisjordânia, quase dez mil anos de vida e onde habitam cerca de vinte mil pessoas; no Brasil, dizem livros e historiadores, São Vicente, no litoral paulista, fundada por Martim Afonso de Souza em 1532, apesar de outras reivindicações.  Cidades novas e velhas e seus aniversários dariam assunto para muitos artigos. Parabéns e vida longa para minha querida terra adotiva – MUZAMBINHO! 

 *Marco Regis é médico, foi prefeito de Muzambinho (1989/92; 2005/08) e deputado estadual-MG (1995/98; 1999/2003) – [email protected]