A EDUCAÇÃO DO ROMANTISMO À VIOLÊNCIA

Publicado em 15/12/2017 - marco-regis-de-almeida-lima - Da Redação

A EDUCAÇÃO DO ROMANTISMO À VIOLÊNCIA

Lá pelos idos de 1950/60, o padrão educacional brasileiro consistia no ensino primário, de 1ª a 4ª séries; no ensino médio, que era subdividido em ginasial, de 1ª a 4ª séries, e o colegial, que seria uma espécie de encruzilhada com três caminhos a serem escolhidos: o magistério ou curso normal, desenvolvido ao longo de três anos, na verdade uma modalidade de ensino técnico, pois diplomava as normalistas, professoras habilitadas para o ensino primário; o curso clássico, com a mesma duração, direcionado àqueles que fossem para a área de humanas (direito, letras, ciências sociais, geografia etc.); e o curso científico, de periodicidade idêntica aos dois anteriores e destinado a quem pretendesse seguir o superior na área de exatas (engenharia, matemática, física etc.), ou biológicas (medicina, enfermagem, biomedicina, bioquímica etc.); e, finalmente, o ensino superior, com extensão igual ou superior a três anos.

            Era uma época de elevados índices de analfabetismo no Brasil. Dos que logravam terminar o primário, estatísticas dão conta que somente 30% concluíam o ensino médio e menos do que 5% se formavam em uma faculdade. Para quem hoje critica a gratuidade das universidades públicas, certamente que se revoltaria com essa minoria de terceiro grau de outrora, geralmente oriunda das camadas de melhores condições financeiras, sendo poucos os pobres que cursavam faculdades. Mais raro, ainda, era pobre fazer uma faculdade particular, quando dispunha de emprego com salário razoável. Tanto é que no sucesso de “O Pequeno Burguês”, música composta e cantada por Martinho da Vila ele revelava essa situação:

                                             Felicidade!  / Passei no vestibular,

                                                Mas a faculdade / é particular

                                                Particular! / Ela é particular.

              Pessoalmente, nunca entendi que ricos devessem pagar escolas públicas de quaisquer níveis, da mesma forma que como profissional de saúde sempre concordei que o SUS – Sistema Único de Saúde – é para todos, da maneira como foi concebido pelos constituintes de 1988 e tal como funciona. Pensava e assim penso, mesmo sendo um filho de ferroviário e membro de modesta família de mais quatro irmãos. Impostos todos pagamos, embora o nó da questão seja a falta de equidade, pois os assalariados brasileiros sempre têm sido mais tributados, proporcionalmente, do que os proprietários de grandes fortunas.  

            Para alguns educadores da atualidade a referida década foi de uma educação romântica nem tanto de qualidade. Entretanto, nós que nela estudamos, podemos assegurar que foi um período de muitíssima qualidade. De romântico era esse nosso tempo de bailes, namoros, sinuca, fanfarra, futebol, além de papos de adultos sobre política nacional, “guerra fria” e acontecimentos regionais. Tudo tão romântico quanto escutar Nelson Gonçalves exaltando sua admiração por estudante do magistério, cantando sua composição “Normalista”, que começava assim: “Vestida de azul e branco / Trazendo um sorriso franco / no rostinho encantador / Minha linda normalista / Rapidamente conquista /meu coração sem amor.

            Muzambinho e Guaxupé, na época, foram dois destacados polos educacionais da nossa região no que tange ao ensino médio. A qualidade passava pelos professores, muitos deles egressos de seminários católicos, onde adquiriam conhecimentos de Latim, Grego, Português, Filosofia, Matemática, Biologia, Química e Física. Mas, não eram somente eles os capacitados, pois ainda os encontrávamos na Geografia, na História Geral, no Canto Orfeônico, no Francês, no Inglês, além do próprio Latim – a raiz da nossa Língua Pátria e constante da grade curricular.

             Aproveitando os ventos incentivadores de um período em que foram dadas asas para o ensino superior particular, Guaxupé arrancou na dianteira com a fundação da Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras, que evoluiu para o Centro Universitário de Guaxupé – UNIFEG.  Aos poucos, Muzambinho se recuperou, num momento meio que isoladamente com a Escola Superior de Educação Física – federalizada no 1° Governo Lula – e, ainda com Lula, incorporando sua antiga Escola Agrotécnica Federal ao Instituto Federal de Ciência e Tecnologia do Sul de Minas Gerais, cujo “campus” Muzambinho oferta diversos cursos técnicos e um tecnológico, além de cursos superiores, todos de qualidade e gratuitos.

             Dava para se perceber, nas décadas de 1960/70, a fidelidade das estatísticas anteriormente citadas, pois não havia superlotação de classes mesmo tendo elas alunos oriundos de outros municípios. Como a quantidade de alunos era reduzida em relação à atualidade, os educandários conseguiam dispor dessa pequena casta de mestres – respeitada e reverenciada pelos seus pares, pais e alunos – os quais mantinham rígida disciplina nas salas de aulas. Hoje, na contramão da formação humana, as escolas alimentam excessivos e absurdos direitos. Culpa dos nossos legisladores e dos “pensadores” desta nossa ignóbil sociedade de consumo. Mas, o estímulo à criação de monstrinhos já vem do berço desta nova sociedade “sem as palmadas domésticas”, sem efetivo domínio dos pais e, também, estimuladas pelas degenerações televisivas do erotismo e “de tudo querer e poder”. Premidos pelas dificuldades financeiras da família, talvez pela desestruturação desse núcleo, os jovens ainda impúberes são empurrados para exemplos de uso de drogas, tornando-se presas fáceis da rede de traficantes que rodeia a todos nós. Jamais, naqueles tempos, tivemos conhecimento de presença policial para fazer face a alguma requisição de aluno ou familiar para lavrar um boletim de ocorrência em desfavor de algum professor por querelas de classe ou excesso de autoridade – o que hoje é frequente.

            Certamente que a educação brasileira do passado era menos acessível, mas emoldurada de erudição, poesia e deslumbramento, do ensino primário ao superior. Nos últimos 50 anos, políticas públicas combateram o analfabetismo e fortaleceram os níveis primário e médio, além de estimularem a expansão dos cursos superiores à custa de uma escorchante exploração mercantil. Até que, por diretrizes da Constituição Federal de 1988, chega-se no alvorecer deste novo milênio com a pré-escola passando a ter visibilidade, apoio e responsabilidades. O ensino fundamental ficou com os municípios e o médio com os estados. Lula e Dilma fazem com que a União abra novas faculdades e universidades públicas – iniciativa que não ocorria desde a década de 1970, além de promoverem o crescimento do ensino técnico e tecnológico.

*Marco Regis é médico, foi prefeito de Muzambinho (1989/92; 2005/08) e deputado estadual-MG (1995/98; 1999/2003) – [email protected]