Autistas precisam superar obstáculos no mercado de trabalho

Publicado em 09/04/2018 - geral - Da Redação

Autistas precisam superar obstáculos no mercado de trabalho

Preconceito é a principal barreira para a contratação dessas pessoas, que podem desempenhar diversas funções.

Pessoas com transtorno do espectro autista (TEA) têm plena capacidade de trabalhar normalmente. Essa foi a conclusão apresentada por especialistas durante a programação da Semana de Conscientização sobre o Autismo, que terminou na sexta-feira (6/4/18), na Assembleia Legislativa de Minas Gerais (ALMG). Na parte da tarde, representantes de entidades e autistas falaram de suas experiências de inclusão no mercado de trabalho.

Maristela Barros, da Associação de Apoio à Deficiência Nossa Senhora das Graças (Agraça), falou do trabalho de assessoria para inclusão laboral de pessoas tanto com autismo severo (déficits graves em habilidades de comunicação, habilidades sociais pobres e movimentos repetitivos estereotipados) quanto com o chamado autismo de alto desempenho (habilidade social comprometida, mas outros tipos de qualidades desenvolvidas).

“Existem mais de 360 mil vagas disponíveis para as pessoas com deficiência no Brasil, mas a deficiência intelectual não é vista como a melhor opção para a empresa, então a oferta é significativamente menor. A inclusão depende mais da empresa do que do indivíduo, e o respeito é fundamental”, analisou Maristela.

Da mesma instituição, Luciana Braga Guerra citou algumas das características das pessoas com o TEA, como o déficit na comunicação, os interesses restritos e a forma de comunicar, o que pode sugerir insensibilidade. “Eles têm um vocabulário literal, então podem parecer arrogantes e não vão entender metáforas ou figuras de linguagem. Mas possuem inúmeras competências, como a lealdade, a disciplina e produtividade, muito úteis no mercado em diversas funções”, explicou.

Potencial camuflado - A psicóloga e representante da startup Avulta, Emanuelle Fernandes, falou do trabalho de psicologia cognitiva e sobre como o sistema desenvolvido pela Avulta faz a ponte entre os autistas e as empresas. “Descobrimos o potencial camuflado dessas pessoas e montamos o perfil delas, descobrimos em quais áreas elas podem ser mais bem aproveitadas, e damos consultoria para que as empresas consigam encontrar essas pessoas. O foco é nos talentos e habilidades”, reforçou.

O psiquiatra Walter Camargo citou um exemplo didático sobre as potencialidades das pessoas com TEA no mercado de trabalho. “Eu conheci um hiperativo que trabalhava no almoxarifado; era um desastre porque ninguém nunca o achava lá e ele era muito desorganizado. Quando foi substituído por uma pessoa surda, a situação melhorou demais porque essa pessoa era disciplinada, focada e organizada; não ficava conversando, era muito produtiva. Então eu penso que é uma questão de aproveitar o potencial de cada um no que aquele cargo pede”, completou.

Ele destacou ainda que a sociedade brasileira tem pouca experiência na contratação das pessoas com TEA, que possuem várias das características vistas como as de um bom profissional pelas empresas. “São honestos, não atrapalham o ambiente de trabalho com fofocas, são pontuais, extremamente concentrados. Eles podem e devem trabalhar, com acompanhamento para as questões nas quais eventualmente tenham dificuldade”, resumiu.

Preconceito é o maior obstáculo

Em roda de conversa com adolescentes e jovens diagnosticados com TEA, muitos relataram a dificuldade de aceitação por parte da família, colegas de escola e faculdade como o maior obstáculo para o que a sociedade considera como uma “vida normal”.

Formado em história e estudante de direito, Henrique dos Santos de Barros foi diagnosticado com a síndrome de Asperger (transtorno que afeta a socialização) aos nove anos e o grande obstáculo que enfrentou foi na sua primeira faculdade, onde colegas chegaram a dizer que ele deveria ser “enjaulado”. “Adolescente, nunca me faltaram amigos ou coisas para fazer. O autista na universidade precisa ser um assunto mais discutido. Estou me engajando nessa luta para que outras pessoas não passem pelo que eu passei”, afirmou.

Superdotação - Já a engenheira Maria Isabel Hogstein, que descobriu recentemente ter síndrome de Asperger, contou que, quando criança, recebeu apenas “metade do diagnóstico”, o de superdotação. “Era considerada muito inteligente para ter algum problema. Os profissionais precisam ser menos clínicos e mais empáticos; precisam olhar com uma profundidade maior para as pessoas, especialmente as crianças. Eu cresci sem apoio nenhum e tive de descobrir sozinha como lidar com isso", relatou.

O estudante de ensino médio Raphael Sales Bessa Rodrigues disse que tem se dedicado ao “fim da psicofobia na sociedade”. “O que mais me afetou foi o preconceito que enfrentei na escola. As pessoas precisam ter mais compreensão, informação e, acima de tudo, respeito”, completou.

ascom