Nós, jornalistas

Publicado em 19/02/2018 - cesar-vanucci - Da Redação

Nós, jornalistas

“A imprensa é uma grande potência, mas como uma torrente em fúria submerge a planície e devasta as colheitas, da mesma forma uma pena sem controle serve para destruir”  (Ghandi)

 

Na magistral definição de um grande pensador, o saudoso Juvenal Arduini, o jornalista é um ministro da palavra social. Os órgãos de comunicação, dentro da conceituação, adquirem feição de púlpito, de cátedra ou de tribuna. E, até mesmo, de certo modo, de confessionário, quando a pauta se ocupe de assuntos que reclamem esforços de garimpagem seletiva na coleta de pormenores, mode que poder levar à opinião pública interpretação correta dos fatos. 

Seja como for, a palavra propagada em qualquer veículo é sempre de sentido social. O ideal jornalístico propõe compromisso permanente com o generoso sentimento das ruas. Informando, analisando, criticando, o jornalista consciente dessa dignificante condição de ministro da palavra social posiciona-se a serviço da valorização da vida, da estruturação de um mundo melhor. Mundo mais justo, mais fraterno, denso e rico em humanismo e espiritualidade. 

As ações do agente de comunicação estão sujeitas, naturalmente, às emoções que povoam ambientes onde notícias e ideias circulem. Isso pode dar origem, circunstancialmente, mesmo em atmosfera onde reine a mais reta das intenções, a lapsos de informação e equívocos de interpretação suscetíveis de espalhar mal-estar. O senso profissional, componente indissociável da ética humana, ensina os procedimentos aplicáveis em situações que tais. 

Já coisa bem diferente, diametralmente oposta, é a postura preconcebida de distorcer os fatos, propalar inverdades, ou dar curso a dados tendenciosos. Estamos aí diante de uma contrafação do espírito jornalístico. Do jornalismo abraçado com fervor missionário. 

A opinião pública tem identificado com frequência, em análise do trabalho jornalístico, notórios exageros que apreciaria muitíssimo fossem escoimados da lida informativa. Não se pode perder de vista, nessa hora, que o jornalismo reflete, naquilo que produz, as debilidades e perplexidades da própria sociedade. Emite, às vezes, sinais de fragilidade e insuficiência inerentes à condição humana. Disso decorrem ultrapassagens indesejáveis e derrapagens inconvenientes nos caminhos percorridos. 

Uma coisa, todavia, é certa. A história atesta. É preferível arrostar excessos, passíveis teoricamente de serem atenuados ou corrigidos em ambientes onde se respire o oxigênio das liberdades públicas, do que ter que encarar, impotente, o silêncio de catacumba ou o estardalhaço unilateralmente composto para denegrir cidadãos, sem garantir-lhes direito a resposta, típicos dos trevosos ambientes ditatoriais. A censura prévia é prólogo assustador das temporadas de sinistras restrições aos direitos da cidadania. 

Há em marcha salutar processo de autocrítica do jornalismo. Muitos comunicadores, da melhor qualificação, se empenham na busca de fórmulas de aprimoramento de seu mister. Fórmulas que promovam convivência mais fecunda dos meios de comunicação com a comunidade. 

Na própria imprensa são constantes as vozes a indagarem se é certo, por exemplo, lançar no ar e em manchetes, com estridência, nomes e imagens aflorados em remotas suspeitas no curso de investigações ainda não devidamente concluídas. Os casos deploráveis, nesse enquadramento injurioso, não são poucos. O emblemático episódio, anos atrás, da escola de base de São Paulo é lembrado amiúde como demonstração clamorosa de um comportamento profissional arrogante e injusto. Em avaliação serena chega-se à conclusão de serem preocupantes, sob esse particular, as condutas merecedoras de crítica. 

Não cabe duvidar que esse tipo de questionamento ajuda a expandir o grau de compreensão e de conhecimento sobre a atividade jornalística. Poderá contribuir para a codificação do que de melhor existe na experiência profissional dos ministros da palavra social, impedindo seja a fascinante missão jornalística afetada em suas edificantes propostas de operar como instrumento poderoso e eficiente na consolidação dos ideais humanísticos. 

Cesar Vanucci - Jornalista ([email protected])